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quinta-feira, 2 de julho de 2020

Mais um milagre de Amorim

Nesta série de vitórias sequenciais talvez como nenhuma outra tenha sido tão importante para o futuro do Sporting como a de ontem.

  • Parece cada vez mais próxima a confirmação de que Sporting acertou finalmente no treinador. Isto é mais fácil de dizer numa sequência de vitórias, falta ainda perceber como reagirá o treinador à adversidade das derrotas. Mas, para já, está a reagir muito bem à adversidade das lesões. Para o dano ser "perfeito" só falta lesionar-se Sporar e Coates, mas ainda assim Rúben Amorim (RA) tem conseguido passar por este caminho tortuoso sem fazer concessões a um discurso lamechas e condescendente e isso parece reflectir-se na atitude colectiva e individual. Obviamente que a indispensável sorte tem ajudado. Mas quando tens sorte muitas vezes talvez não seja apenas sorte, tal como quando tens azar consecutivamente.
  • Um dos grandes méritos de RA tem sido a coerência e convicção no seu processo e consequente sistema. Os jogadores tendem a sentir-se contagiados e por isso mais seguros. Foi visível mais uma vez ontem que, mesmo em momentos de resultado incerto, a confiança como a equipa se comporta é muito diferente do que assistimos no pesadelo que foi o inicio de época e até em muitos jogos da época passada. Obviamente que isto advém do trabalho de RA não apenas no sobre o aspecto psicológico mas sobretudo pelo conforto e segurança que advém da interpretação do seu sistema.
  • O discurso de RA é quase redentor, pela segurança, humor e transparência na forma como aborda os mais diversos assuntos.
  • Ficaram também mais evidentes a fragilidade do nosso plantel, bem como as desvantagens do excesso de juventude, que se manifesta sobretudo na irregularidade das prestações. Ora a irregularidade é precisamente um dos obstáculos às candidaturas ao título. Para que a assumpção da aposta na juventude que parece em curso seja frutuosa não pode ser baseada em discursos e acções equívocas ou em objectivos irrealistas, sob pena de mais uma vez darmos com os "burrinhos na água".
  • Sem querer nomear nenhum dos atletas, por estarmos a falar de jovens que ainda têm possibilidade de crescer e limar arestas, ficam dúvidas que alguns jogadores que ontem tiveram direito a titularidade e outros que tiveram direito a minutos em campo pudessem fazê-lo em equipas que habitualmente disputam lugares bem abaixo de nós na tabela. É de assinalar porém que RA não faz apostas aleatórias, antes tem reincidido nas  oportunidades mesmo nos jogadores com prestações menos felizes.
  • Pese embora as vulnerabilidades acima abordadas, é de assinalar a base confiável que RA já dispõem no talento de Max, Quaresma, Nuno Mendes, Matheus Nunes e mesmo Wendell, meia equipa portanto. Acrescentando-lhes Acuña, Geraldes, Jovane e Vietto, bem como Sporar, o capitão Coates, a dar-se muito bem com o actual sistema, torna-se claro que o acerto nas aquisições no defeso decidirão a nossa sorte na próxima Liga.
  • Assinale-se a estreia de mais dois jovens promissores, Joelson e Tiago Tomás. O desplante de Joelson em assumir a marcação do livre é quase enternecedor.
  • São 114 anos de história celebrados com a obtenção da vitória numero 1.500. Viva o Sporting!

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Obrigado Sporting!

São muitas alegrias e outras tantas tristezas a marcar a minha relação com o meu clube do coração. Senti-me Olimpo, desci aos infernos, ri, chorei, cantei gritei. Fiz amigos, conheci gente extraordinária que gostaria de conseguir imitar no amor, generosidade, apego e entrega total à causa Sporting.

No meu coração o Sporting terá sempre um lugar especial e no meu peito o orgulho de pertencer, de ser Sporting nunca se apagará. Mais do que um sermos o clube especial que somos, é este sentimento que me faz sentir especial que te agradecerei sempre: Obrigado Sporting!

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Viste, Mathieu?

Oh Mathieu, viste o teu nome gravado nas camisolas dos nossos jogadores quando entraram em campo, ante o Belenenses? Essa homenagem foi ainda mais apropriada num espaço intitulado Cidade do Futebol, modalidade da qual te tornaste um dos melhores de sempre com a nossa camisola.

Viste a falta que nos fazes seja para sairmos do ultimo reduto de forma segura, seja para manter o sangue frio e equilíbrio na hora de controlar as investidas dos adversários? As hesitações de Quaresma eram gritos de socorro: Oh Mathieu, e agora, como saio da pressão, só vejo camisolas azuis? Ou, na hora de recorrer ao jogo directo, a falta que nos fez a precisão dos teus lançamentos longos?

Viste como o Jovane cresceu com um treinador que sabe tirar rendimento do melhor das suas características e ameaça fazer o mesmo com o tantas vezes adiado Chico, que acabou por ser o elemento chave para o controlo do jogo?

A elegância e descrição com que nos serviste só se comparam com a classe e eficácia habituais nas tuas intervenções. Viste, Mathieu a falta que nos vais fazer?





quinta-feira, 25 de junho de 2020

Hoje choramos nós

Mais do que a falta que um jogador como Mathieu nos vai fazer no que resta do campeonato e do buraco que dificilmente será tapado com a sua retirada, hoje choramos a forma cruel como lhe é retirada a possibilidade de abandonar a carreira de futebolista a fazer como que sempre terá certamente querido: por decisão voluntária e a jogar. Crueldade essa que já vinha sendo exercida sobre ele e demais companheiros de profissão e sobre nós, adeptos, ao obrigar a jogar em estádios despidos de multidões e de bruás por via da pandemia.

Com o final da carreira de um dos nossos melhores centrais de sempre fecha-se também, por tempo indeterminado ou de forma definitiva,  um ciclo no Sporting em que nos foi possível recrutar jogadores de categoria mundial como Luisinho, Schmeichel, André Cruz, Balakov. O futuro volta a ser novamente a prata da casa, onde Quaresma e Gonçalo Inácio procuram encontrar o seu lugar ao sol. A possibilidade de Mathieu continuar ligado ao Sporting é uma hipótese interessante desde que seja uma possibilidade bem enquadrada e não uma decisão

Palmarés de Jeremy Mathieu

Sochaux
•    Taça da Liga Francesa: 2003–04
Barcelona
•    Campeonato Espanhol: 2014–15, 2015–16
•    Taça do Rei: 2014–15, 2015–16, 2016–17
•    Supertaça da Espanha: 2016
•    Liga dos Campeões da UEFA: 2014–15
•    Supertaça da UEFA: 2015
•    Campeonato do Mundo de Clubes da FIFA: 2015
Sporting
•    Taça da Liga: 2017–18, 2018–19
•    Taça de Portugal: 2018–19


sexta-feira, 19 de junho de 2020

Sporting 2 - Tondela 0: Eficácia primeiro, controlo depois

O Sporting não podia estar a aproveitar muito melhor o reinicio do campeonato e o calendário favorável. Com o Tondela sem grande pressão o Sporting construiu uma vitória tranquila na primeira meia-hora, gerindo depois o jogo até ao seu final.

Aos poucos a equipa vai conseguindo sacudir um pouco do peso de um começo catastrófico de campeonato e da profunda instabilidade que se gerou em torno da equipa. Essa é uma das notas mais importantes a retirar do jogo de ontem e que torna inevitável a pergunta:

A gestão do esforço e controlo do jogo ontem efectuada seria possível com o ambiente que se vivia há meses em Alvalade, ainda por cima com uma equipa menos de 23 anos de média de idades?
A resposta é evidente o que torna também inevitável a reflexão que todos nós adeptos estamos obrigados a fazer relativamente ao nosso papel. Também não é menos verdade que o que se vê hoje em Alvalade está muito longe do pesadelo e do mal que fazia à saúde que era ver qualquer jogo nesse período e isso deve-se obviamente ao trabalho de Rúben Amorim com um plantel ainda por cima desequilibrado e reconhecidamente deficitário em qualidade.

Quanto ao jogo propriamente dito serviu para aclarar uma das dúvidas lançadas aqui no post sobre a partida anterior. Como reagiria o Sporting a uma equipa a jogar de forma mais conservadora, com um bloco baixo? O facto de os 2 golos terem nascido de bola parada ajuda a perceber as dificuldades que esta equipa sente em jogar dentro do bloco compacto do adversário. A primeira vez que o fez, numa excelente iniciativa de Plata, conseguiu a necessária injecção de tranquilidade com um golo monumental do homem do momento: Jovane.

Poucas mais vezes o conseguiu, o que não será certamente alheio ao facto de o jogador melhor talhado para ligar o jogo entre os médios e Sporar - Vieto - estar ausente. Aproveitar apenas a largura e utilizar os cruzamentos como meio de aproximação há área torna a tarefa defensiva mais facilitada ao adversário e introduz ainda mais aleatoriedade ao nosso ataque. Pede-se igualmente maior afoito aos médios - neste caso Wendel e Matheus  - embora também parece evidente que há preocupação em não inventar e privilegiar a simplicidade de processos.

E que melhor contexto poderia ter Nuno Mendes para a sua estreia que um jogo tranquilo, um adversário puco ambicioso e ter Mathieu à ilharga? Ainda assim fez um jogo muito competente, personalizado escondendo de forma competente a data de nascimento constante no bilhete de identidade. Forte a defender, está no lance que dá origem ao penalty e com a sua passada larga fez do corredor esquerdo a sua quinta.A exibição promissora foi premiada com um contrato até 2025, altura em que terá apenas 23 anos!

Ou seja, os três jogos pós-paragem forçada trouxeram novidades interessantes e promissoras que podem vir a surtir efeitos num projecto a longo-prazo, como terá sido o propósito da vinda de Rúben Amorim para Alvalade. As estreias de jogadores como Eduardo Quaresma ou Nuno Mendes, a recuperação de Jovane Cabral e o conseguir valorizar Wendell, Camacho e não só são pormenores que podem devolver alguma paz de espírito aos adeptos sportinguistas, que desejam ultrapassar a fase tumultuosa vivida nos dois dos últimos anos e o momento é ideal para que Rúben Amorim consiga ter espaço para fazer as alterações necessárias para devolver qualidade competitiva ao clube. Detalhe para o facto que o plantel actualmente apresenta 10 jogadores portugueses, para além de 10 que ascenderam directamente das "escolas" - conta-se Rafael Camacho, que passou pela Academia entre 2008 e 2013 -, sendo dados relativamente importantes para perceber qual é a visão e a aposta

Nota: foto Zerozero

quinta-feira, 18 de junho de 2020

As conferências do mister Amorim

Feita naquele local a pergunta era no mínimo insolente e completamente fora do contexto que era a antevisão do jogo de mais logo:

Tendo em conta a crise no SLB e havendo a possibilidade de Bruno Lage sair acha que deveria ter esperado para poder treinar o clube do seu coração?
Perante este passe de morte Amorim não hesitou e disparou de forma absolutamente categórica, sem gaguejar:

Se eu quisesse ter esperado, por algum clube, esperava. Estou muito feliz aqui e sinto que fiz a coisa certa. É um grande desafio. Adoro trabalhar com as pessoas do Sporting, foi uma das razões para ter escolhido estar aqui. E espero é ganhar muitos jogos para ficar aqui muitos anos

Na mesma linha esteve a reacção à noticia da vinda fase final para da Liga dos Campeões para Lisboa:

O presidente do Sporting está neste momento reunido com o Presidente da República e poderá responder melhor, mas para nós é um orgulho receber a maior competição de clubes da Europa. Mas também não posso deixar de dizer que o empenho que se demonstrou para trazer esta prova também podia ser utilizado para terminar o CNS (Campeonato Nacional de Seniores). Falo disto porque estive lá há pouco tempo, sei os sacrifícios que os clubes fazem e era importante também haver essa atenção com esses clubes.
Não se ganham jogos nas conferências de imprensa mas não tenho dúvidas em afirmar que esta postura de Rúben Amorim é bem-vinda, fazendo lembrar pela frontalidade a forma como Paulo Bento também geria a sua comunicação. É certo que para ser treinador do Sporting é preciso muito mais do que isto, mas atrevo-me a dizer que esta forma de estar também é necessária e apreciada pelos adeptos. Esta coerência é também visível na sua acção a partir do treino e na forma como organiza a equipa. Tal como ele também espero que ganhe muitos jogos e fique por cá muitos anos.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Notas da descoberta do caminho para o golo por Cabral

Uma vez transcorridos vários dias após o jogo ficam algumas notas soltas sobre o que me pareceu mais importante salientar do jogo Sporting 1 - Paços de Ferreira 0.

  • Quer tecnicamente quer tacticamente tratou-se de um jogo claramente inferior ao anterior, disputado com o Vitória, em Guimarães.
  • A ausência inesperada de Mathieu reduziu a qualidade de construção a partir de trás, como seria de esperar. E Borja nunca será francês como ele.
  • Dificuldade acrescida para construir com o condicionamento de Matheus e Wendel feito pelo adversário
  • Vietto é "o que o pensa" o jogo e foge mais à tentativa generalizada de executar o mais rapidamente possível. Com a sua saída a equipa perdeu ligação com Sporar que, contudo, só havia acontecido 1 vez com  possibilidade de sucesso.
  • A lesão de Vietto vai causar sérios problemas a Amorim mas é uma boa oportunidade para o regressado Geraldes.
  • Jovane Cabral fez um grande golo e quase fazia outro, já no dealbar da partida. Quando conseguir juntar à força um pouco mais de frieza na decisão fará certamente muitos mais golos.
  • Após chegar à vantagem o Sporting revelou uma fragilidade comprometedora para controlar o jogo pela posse de bola.
  • Nessa altura foi Max a dizer presente, voltando a limpar a folha do deve e haver, após o erro de Guimarães.
  • Um jogo feio de Camacho, a desperdiçar uma oportunidade. Não é um virtuoso, precisa de espaço para progredir em velocidade e inteligência para perceber que não é por insistir em soluções individuais talhadas para o insucesso que vai consolidar a sua posição.
  • Mais uma exibição imaculada e cheia de personalidade de Quaresma.
  • Mais uma exibição de Plata a explicar porque quase não jogou com Keizer, Pontes e Silas e como dificilmente jogará assim com Amorim. As perdas consecutivas em transição foram umas das responsáveis pelo final de jogo penoso.
  • O Paços de Pepa merece uma menção honrosa pela forma positiva como tentou disputar o jogo. Porém, fica por saber se não teria tido melhor sucesso numa abordagem mais conservadora. É que não se vislumbram no Sporting muitas soluções para se opor a equipas que baixem as linhas.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Vitória 2 - Sporting 2: de pouco valeu derrubar 2 vezes a porta do Castelo


Tratando-se de um primeiro jogo após uma paragem muito mais longa do que um simples período de defeso, seguido de uma espécie de pré-época sem jogos de preparação é ainda cedo para retirar conclusões definitivas do que vai ser Sporting de Rúben Amorim. Há porém alguns sinais que importa considerar desde já:

  • Vai haver uma linha coerente relativamente ao sistema e modelo de jogo. A equipa vai jogar como treina durante a semana, sem invenções de última hora, coisa que infelizmente nem sempre aconteceu esta época;
  • Jogarão os jogadores que na cabeça do treinador ofereçam mais garantias de ver as suas ideias executadas em campo, independentemente da idade. Assim se compreende que Quaresma jogue na mesma linha que Mathieu, que Matheus Nunes seja escolhido para substituir Wendel, por exemplo.
Esta postura de Rúben Amorim é benéfica para uma equipa causticada no seu amor-próprio por uma época de irregularidade nos resultados, na liderança técnico-táctica e a sofrer as consequências de um planeamento que foi um hino ao erro, para ser simpático. Não é porém suficiente para fazer o reset necessário, como se viu nos erros cometidos, especialmente com consequências no segundo golo do Vitória, decalcado de tantos outros semelhantes que vimos acontecer esta época.

Mas foi suficiente para já para revelar que esta equipa pode fazer mais e melhor e que só assim foi possível fazer frente a uma equipa da casa muito bem orientada e que sabe o que quer. Particularmente na segunda parte, onde o Sporting apareceu mais confiante, mais desenvolto e  ligado entre sectores. Confiança que desapareceu juntamente com as pernas e que a falta de soluções no banco não permitiu alterar após o segundo golo sofrido. E já no período em que joga em superioridade numérica o Sporting revelou-se cansado e órfão de qualidade individual para criar soluções para desfazer o empate.

Notas individuais:

  • O erro de Max foi quase decalcado do Marchesin. Têm onze de idade e experiência a separá-los. Não sendo portanto por esse erro mas somando ao computo geral das suas actuações o Sporting tem de perceber que o custos na sua aposta são reembolsáveis. A idade pode ser invocada mas as referências para aquele posto tão exigente põe-lhe a fasquia muito elevada.
  • Para quem não gostaria de ser um lateral direito Rúben Amorim está a oferecer a Camacho a ala direito. Que aproveite.
  • Quaresma tem um potencial tremendo que só beneficiará da presença de jogadores com a classe de Mathieu
  • A primeira de Matheus Nunes foi assim, assim. Talvez precise de conseguir libertar-se mais para tarefas de construção, mas o treinador pede-lhe acima de tudo fiabilidade na oposição e recuperação de bolas. E ai cumpriu.
  • Jovane melhorou muito na segunda parte e melhorará muito quando for menos irregular. A ver vamos, como diria o cego.
  • Irregularidade e ofuscamento são os apelidos de Vietto. Não fora isso e estaria noutras ligas. Claramente ainda em processo de aperfeiçoamento após paragem.
  • Bem Sporar, a fazer exactamente aquilo que se pede a um ponta-de-lança perante as oportunidades e a ser o primeiro defesa da equipa quando a bola era perdida no ataque.
  • Apesar de ser um jogador de quem muito se espera e do todo o potencial que se reconhece a entrada de Plata acabou por ser inútil e decepcionante. Um jogador que quer ser uma referência internacional está obrigado a fazer muito mais do que vem conseguindo, sem apelar à idade e mesmo considerando a instabilidade que o rodeia.
Notas finais:

Apesar do resultado não ter sido o desejado nem tão pouco o que parecia possível é claro que existem ideias bem definidas, bem trabalhadas e aqui ali bem interpretadas pelos jogadores. Nomeadamente no ataque, em claro contraste com o passado recente. É necessário ver qual vai ser a resposta a dar nos próximos compromissos, sobretudo ao nível de consolidação, evolução do nosso jogo e como vai a equipa responder à medida que a nova disposição e novos executantes começarem a ser melhor conhecidos pelos adversários.

Foto de www.zerozero.pt/

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Tio Patinhas de Alvalade analisa as contas do 3º trimestre

Estamos de volta, após um longo período de ausência. Mas, honra ao fundador deste blog, que apesar de compreender as razões da ausência (fundamentalmente a falta de tempo para acrescentar valor), nunca desistiu e todos os trimestres me lançava o Reminder para reativarmos a coluna de opinião das contas. Esperemos todos que o Tio Patinhas tenha voltado para ficar e assim contribuir para uma troca de ideias saudável sobre as Finanças do Sporting.

No último dia do mês de maio, o Sporting tornou públicas as contas do terceiro trimestre de 2019/2020 (recordemos que o exercício fiscal do Sporting é de 1 de julho a 30 de junho, ao invés do ano civil) e num comunicado, cheio de auto-elogios, destacou alguns pontos positivos (que os houve) e basicamente passou uma esponja sobre os aspectos menos positivos, nomeadamente a falta de um rumo sobre o core business da Sociedade que levou a que desportivamente, se trate de um ano para esquecer.

Existe um outro aspecto que se torna importante realçar. As contas do terceiro trimestre não foram sujeitas a auditoria (normalmente, o primeiro e terceiro trimestre não o são), pelo que não sabemos o que pensam os auditores externos de algumas opções contabilísticas tomadas pela Sociedade e que irei abordar no artigo. Não sendo nós donos da verdade, se quiserem poderão contribuir para uma discussão rica e saudável sobre o artigo (e até corrigindo algum aspecto / entendimento que considerem errado) nos comentários.

O volume de negócios atingiu o maior volume de sempre, 156,1M€, um aumento de cerca de 42,1% face ao período homólogo e assente na transacção de direitos desportivos de alguns jogadores, tendo inclusive reflectido a maior venda de sempre, nomeadamente de Bruno Fernandes. A receita com vendas de jogadores nos primeiros três trimestres do ano atingiu 96.593M€, um aumento de praticamente 100% face a igual período de 2018/2019. Tem sido tornado público que o Sporting tem empreendido uma Reorganização Financeira da SAD, pretensamente preparando-a para o futuro, tornando-a menos dependente das receitas extraordinárias. Esse trabalho ainda não se encontra reflectido nas contas (normalmente os custos da reestruturação são mais pesados no curto prazo, ganhando-se no futuro), mas verificamos que os Resultados Operacionais pioraram de um ano para o outro. Nestes primeiros 9 meses do ano, temos mais custos (+4%) e menos receitas correntes (-3%), estas últimas justificadas em grande parte pelo aumentos dos Fornecimentos e Serviços Externos (FSEs) e pelas provisões (principalmente relacionadas com a indemnização a Sinisa Mihajlovic).

Em termos de receitas, os pontos mais positivos são a alienação de alguns ativos por valores muito interessantes (Raphinha, Bruno Fernandes, Thierry Correia), o valor acordado por Daniel Podence e as Vendas e Prestações de Serviços, que demonstram uma fidelidade dos verdadeiros sócios em adquirir as GBs, comprarem merchandising Sporting, mesmo num contexto de uma época desportiva para esquecer. Por outro lado, devemos ficar apreensivos quando vemos que alguns dos principais ativos herdados já foram alienados (o que é natural, em inícios de mandato) e verificamos que não obstante termos despendido mais de 35M€ em novos jogadores, vemos uma baixa de valor de plantel em mais de 25% e menores possibilidades de atingirmos valores de vendas similares.

Na nota 09, são detalhados os rendimentos e gastos com as transacções dos passes de jogadores, que atingiram mais de 100M€. No caso de Bruno Fernandes, verificamos que os gastos mencionados incluem os gastos de intermediação mais os valores devidos pelo mecanismo de solidariedade. Pela análise rápida feita ao Relatório e Contas (R&C), não encontro nenhuma referência ao litígio com a Sampdoria e à possível contingência / provisão de que poderemos ter de vir a pagar, se as instâncias judiciais assim o determinarem. Refere apenas que a Administração, com base nos pareceres jurídicos internos, acredita que não haverá nenhuma condenação a pagar. No passado, já vimos isso acontecer, no caso Rojo. Em todos os R&C aparecia uma nota similar, foram apresentados resultados avultados inflacionados por essa não provisão e depois, acabou por mais tarde, se ser condenado e ter de reflectir isso em contas posteriores. Esperemos que desta vez, os serviços jurídicos tenham razão. E nesta nota em particular, aguardarei o que os auditores têm a mencionar.

Os custos com Pessoal diminuíram 3M€ (-5,8%) sendo muito influenciados pela rúbrica de indemnizações (que ascende a 7M€), reflectindo parte do desnorte da política desportiva, ao acumular treinadores que depois, naturalmente, exigem que se chegue a acordo para a respectiva rescisão. No relatório é mencionado que estas rescisões implicam uma poupança futura de 35M€ para a Sociedade, mas ignora que em compensação, existiram outros encargos (novas equipas técnicas, novos jogadores) que anularão parte ou mesmo a totalidade das supostas poupanças futuras. Esperemos que no ano 2020/2021 que se verifique uma queda acentuada dos gastos com pessoal, pois o que se verifica é uma diminuição do valor do plantel na ordem dos 25% (valia contabilisticamente 89.212M€ em 31 de março de 2019 e vale agora 66.717M€), sem que exista uma queda correspondente nos Gastos com Pessoal. Tal também se explica parcialmente pela aposta da Sociedade em empréstimos de jogadores caros – Bolasie e Jese - (que não aumentam o valor do plantel), mas que consomem a rúbrica de ordenados – Jese ainda teve um custo adicional de 1,5M€ pelo custo do empréstimo.

Um ponto muito importante e que parece estar a passar despercebido, é que o impacto da contratação do treinador Ruben Amorim na Demonstração de Resultados é zero ou quase nulo. E, apesar de no comunicado mencionar a contratação do Treinador por 10M€ (o All-in da actual Direção), não refere que na conta de resultados, o impacto é praticamente 0. Pois, como podemos aferir na nota 17, temos Gastos a Reconhecer de 10.393M€ (superiores aos 10M€), o que implica que neste lucro recorde do terceiro trimestre, teremos de reduzir o valor da contratação de Ruben Amorim. E assim, a pílula não será tão dourada pois, como verificamos, os resultados operacionais continuam bastante negativos e por conseguinte, consomem os resultados extraordinários positivos de uma forma bastante rápida. Só após a divulgação das Contas Anuais, poderemos perceber melhor a opção da Administração da SAD em não reconhecer já os Gastos da Contratação da Equipa Técnica. Se os vão reconhecer ao longo do contrato, se os vão imobilizar, etc.. Não sendo as mesmas auditadas (procedimento normal, refira-se, no que concerne a estas contas trimestrais), desconhece-se o que a Equipa de Auditores Externos referiria sobre tal opção.

Ainda haveria muito para escrever e comentar (análise mais detalhada das principais rubricas de balanço, etc), mas não queria que este primeiro artigo depois de uma grande ausência fosse demasiado extenso. E durante o curto período que passou entre a divulgação dos Resultados e esta análise, optei por ressalvar mais a análise da vertente económica em detrimento da financeira.

Back for good, é o sentimento. E por agora me despeço de todos os fiéis seguidores do A Norte de Alvalade.

Saudações Leoninas,

O sempre vosso Tio Patinhas de Alvalade

Nota: o documento relativo à demonstração financeira em apreço pode ser lido na integra [AQUI]

segunda-feira, 9 de março de 2020

Sporting 2 - Aves 0: A primeira de Rúben Amorim ou nem por isso

Como é natural a principal curiosidade relacionada com o jogo com o Desp. das Aves era a de perceber quais seriam as mudanças que o novo treinador pretendia introduzir e como é elas estavam a ser assimiladas pelo plantel. Mesmo sabendo, claro está, que essa curiosidade estava à partida mitigada pela constatação, que a anteceder o jogo,  terem sido apenas duas as sessões de treino. O par de expulsões em pouco menos de vinte minutos de jogo iniciais deitou por terra uma parte substancial desse interesse nesta partida, ficando este reduzido em saber "quando", "como" e "quem" seria o autor da inauguração do marcador. "Se" também deve ter perpassado por algumas cabeças, tanto foi o tempo que o Sporting precisou para marcar o primeiro golo.

As dificuldades em chegar ao golo não foram propriamente uma surpresa. O Sporting é uma equipa à procura de identidade, sem processos de jogo muito consolidados, pelo que jogar num curto espaço, que por vezes não era mais de vinte metros, era um grande desafio para a perseverança e imaginação de uma equipa sem jogadores repentistas e ou especial capacidade de improviso ou mesmo  no domínio da bola em espaços muito curtos. É muito fácil de dizer que a circulação de bola deveria ser mais rápida, mas ninguém diz como é que isso se faz numa faixa de terreno ocupada por nove jogadores adversários que, dessa forma, tentava superar a desvantagem numérica, o que, para efeitos defensivos, ia sendo conseguido. 
Como Rúben Amorim haveria de reconhecer, tratou-se de um jogo atípico. Mas deu para perceber que o treinador está convicto do que pretende para a equipa e que as mudanças constantes de modelo que se verificavam no consulado anterior devem ter ficado para trás. Não se pode, porém, deixar de se interrogar se o que o treinador tem à disposição é suficiente para subir a produção da equipa e consolidar o seu jogo num plano mais elevado do que o que se tem verificado ao longo de toda a época.

Onde as dúvidas se afiguram maiores é do meio campo para a frente e especialmente nos extremos. Plata ainda está na incubadora, potencial e talento estão lá, mas ainda não o consegue por a render de forma regular e consequente. Jovane passa mais uma vez ao lado do jogo, não justificou sequer o sacrificio de Ristovski, sendo duvidoso que se possa esperar muito mais dele. Vietto revela muita dificuldade em segurar a bola e dar continuidade, exercendo a ligação que dele se pede. 
Saúde-se as prestações de Ilori e de Geraldes, para quem pode haver segunda vida. Se é verdade que o jogo adversário não foi suficiente para grandes provas para o central, pelas suas características, especialmente a velocidade, pode vir a ter agora nova oportunidade. As movimentações de Geraldes, nem sempre correspondidas ou entendidas pelos colegas, revela o seu entendimento superior do jogo, mesmo sem lograr ainda o brilhantismo para que parecia estar destinado. Mas são dois casos claros que podem estar na calha para reencaminhar as respectivas carreiras. 
O melhor em campo foi claramente Wendel, a mostrar quase todos os seus predicados. É por ele que os jogadores avenses são expulsos e é dos pés dele que sai a bola para a cabeça de Sporar.

O jogo acaba por ser ganho também de forma um pouco atípica para o contexto: muita paciência. Isto num clube em permanente ebulição, com manifestações, pedidos de não comparência e muita gente com o sportinguismo enfermo a não conseguir disfarçar o incómodo que, apesar disso, o Sporting consiga ganhar.

sexta-feira, 6 de março de 2020

De Silas a Rúben Amorim

Na verdade ninguém terá ficado muito surpreendido com a saída de Jorge Silas do comando técnico do Sporting. Os resultados em modo de assim/assim, mas sobretudo algumas exibições, significaram uma clara  melhoria relativamente ao registo desta época atribulada. Mas ainda assim insuficientes para manter a ligação pelo tempo mínimo expectável: o final da época.

Obviamente que os resultados importaram na decisão tomada mas, mais do que isso, parece-me que a ligação entre a administração e o treinador nunca se transformou num casamento feliz, com condições para durar. Citando Fernando Pessoa (via o meu amigo António Alfarrobinha no seu Bola de Cautchu):

"para vencer, material ou imaterialmente, três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar as oportunidades e criar relações humanas. O resto pertence ao elemento indefinível, mas real, a que, à falta de melhor nome, se chama sorte."

Ora sorte é coisa que não temos tido há muito e nesta época em especial tudo ou quase tudo temos feito para a desmerecer. Não trabalhamos bem e não se comungando da mesma uma visão é quase impossível obter bons resultados. A escolha de Silas teria correspondido mais um espírito de "desenrascanço" e o "deixa ver se pega" já observado com Leonel Pontes do que uma escolha baseada num critério definido ou na convicção de acto de gestão racional.

O trabalho de Silas nunca seria fácil e a possibilidade de êxito é logo quase à partida dramaticamente reduzida com a saída de Bruno Fernandes, agravada pela chegada tardia de Sporar, já depois do dérby e do clássico e a poucas horas da Taça da Liga. Há que reconhecer também que Silas esteve também longe de revelar assertividade, particularmente ao não estabilizar a equipa num modelo em que esta se sentisse confortável, depois da pré-epoca caótica de Keizer e da balbúrdia que se seguiu na construção do plantel e dos resultados daí subsequentes. Esse seria ou deveria ter sido o seu trabalho primordial e que não logrou alcançar. 

Talvez por isso mesmo Silas tenha percebido que o seu tempo terminava ali na Turquia, sentindo-se impotente e incapaz de dar à equipa o mínimo indispensável: a confiança que o plantel tem de ter no trabalho efectuado e muito em particular no treinador e vice-versa.

Não sei como se chega a Rúben Amorim, mas o valor pago pela cláusula de rescisão contaminará definitivamente qualquer discussão sobre a decisão. Está na mente de todos que foi a necessidade de racionalizar os custos que contribuiu para afundar a época em curso, ainda o barco não tinha saído do cais. Como é que agora se paga tanto por um treinador que o eleva ao top dos treinadores mais caros de sempre, pondo-o como um desconhecido e inexperiente ao lado de nomes como José Mourinho é a pergunta que está na ordem do dia. Esperemos que constar do top ten onde se aproveita apenas Mourinho, Ancelotti e, um pouco mais abaixo, Pelligrini e AVB, não constitua um mau presságio...

Devo ser dos poucos Sportinguistas que não valoriza a experiência ou, neste caso, a ausência dela no curto curriculum de Amorim. A experiência fala-nos sobretudo do passado e relativamente pouco do futuro. Para o tentarmos projectar na vida de um treinador parece-me mais importante olhar para o que fez no seu trajecto, nomeadamente como jogaram as equipas sob seu comando, que resultados alcançaram, que efeito a sua passagem provocou, o que pensam dele os jogadores, colegas e dirigentes que com ele privaram. Fosse apenas pela experiência, nomes como Mourinho, AVB e até mesmo Guardiola, dificilmente nos fariam despertar as memórias e sensações que deles guardamos.

De facto, o curriculum de Ruben Amorim é muito curto. São apenas 42 jogos realizados como treinador principal. Mas trata-se de um percurso tão surpreendente como foi meteórica a sua ascensão a técnico do Sporting. Começa no Casa Pia, onde realiza 18 jogos, contabilizando 13 vitórias. No Braga B, dos 11 jogos 8 deles são vitórias. No seu percurso recente pelo Braga somou 10 vitórias, 1 empate e 2 derrotas, ambas com o Rangers, que ditariam a eliminação na Liga Europa. Pelo meio ficam as vitórias sobre todos os grandes.

É aqui que pode entrar a experiência. A que Ruben Amorim não tem mas de falou Silas à saída. É que Amorim entra num clube onde a atenção mediática é incomparavelmente superior à do Braga, onde a pressão, também por comparação, é quase nula. Então se falarmos na pressão interna que transforma o clube em ponto permanente de ebulição... O que falta a Amorim falta a todos antes de entrar: a experiência num clube onde tudo parece ser muito mais difícil e tortuoso que na generalidade dos seus congéneres.

Mas não vai encontrar apenas o tempo e cobrança favoráveis, que lhe permitiu trabalhar tranquilamente em Braga. Encontrará também um clube que, em termos organizacionais, está quase parado no tempo há vários anos, talvez algures no inicio do presente século. No que ao departamento de futebol diz respeito, Amorim não tardará a perceber que muito do que tinha em Braga lhe daria jeito por cá. Mesmo no que diz respeito aos recursos humanos de retaguarda. E, quanto ao plantel, não diria muito menos...

E este último aspecto vai ser determinante para o que lhe será possível ainda alcançar este ano. É muito duvidoso que encontre em Alvalade elementos em número e qualidade que lhe permita emular o modelo de sucesso que instalou em Braga onde, convém lembrar, conquistou o primeiro troféu da carreira. É que é ainda no que falta da Liga que Amorim determinará a largura das portas por onde entrará na próxima época. E o seu futuro está umbilicalmente ligado ao de Frederico Varandas e Hugo Viana, que parece aqui vestir de forma integral o fato de director desportivo. Esta é seguramente uma contratação com o seu dedo.

Considerações à parte, Ruben Amorim já cá está e a sua excelente prestação na apresentação convocou de novo a costela que talvez seja o que nós Sportinguistas temos mais em comum: a de optimistas incorrigíveis. Talvez mais do que mais o lado sonhador seja essa vontade indomável de, apesar de tudo e com todos os pesares, querermos ver o Sporting no lugar que para ele projectamos nas nossas mentes e corações.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Tudo demasiado feio e demasiado mau!

O Sporting não começou a perder o jogo com o Famalicão no momento em que o árbitro dá inicio ao jogo ou sequer quando sofre dois golos de rajada. O Sporting começa a perder o jogo quando na véspera e no próprio dia do jogo (!) deixa escorrer para os jornais a substituição do treinador em funções. Treinador esse já sobejamente desautorizado e isolado durante as últimas semanas. 

Na despedida Silas deu uma aula de comunicação, na perspectiva da defesa dos seus interesses, e defesa da sua imagem, bem entendido, não se preocupando com as consequências que daí adviriam para um clube cotado em bolsa e por isso com obrigações com o regulador. Obviamente que exorbita das suas funções ao fazer o que não lhe compete: anunciar o seu substituto.

Mas tal só sucede por total demissão de funções de quem deve dirigir o clube, que obviamente deveria ter antecipado o cenário e assim evitado aquele momento de streap-tease, deixando a nú uma realidade incómoda e confrangedora: o Sporting tem um sério problema de liderança ou mais propriamente de falta dela. Quando assim é a sucessão de maus resultados são uma mera consequência, um pormenor, não o problema propriamente dito.



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Basaksehir 4 x Sporting 1: Mas que alívio!

A dor causada por ser atirado para a valeta, sem honra, por uns turcos de futebol tão básico é inevitável, mas ao desastre sobreleva-se uma sensação de alivio. Desta forma evitamos não só a exposição do nosso nome a humilhações como a de ontem, como nos poupamos ao desgaste que a esperança depressa transformada em desilusão nos provoca. 

Ora se com os ignotos turcos somos corridos a quatro, o que nos poderia acontecer na fase seguinte da prova, com adversários mais poderosos? Pelo menos poupamos o Bruno Fernandes ao embaraço de explicar aos colegas do Manchester United como jogava ele neste molhe de jogadores - equipa é outra coisa... - caso nos calhassem em "sorte".

É muito difícil de entender como é que uma equipa com uma eliminatória na mão e vinda de um jogo onde demonstrou superioridade se entrega ao adversário de forma dócil, consentida, diria mesmo solicitada. Total ausência de compromisso e respeito pela camisola envergada por parte de alguns jogadores, associada a falta de classe de grande parte deles. Demasiados erros defensivos a revelar desconcentração e uma demonstração de medo, cagaço miúfa, falta de estofo para estas andanças, o que lhe quiserem chamar. A melhor ilustração desses factos são a quantidade de golos sofridos de bola parada e em momentos determinantes como o fim da primeira parte e o fim do tempo regulamentar por duas vezes.

A ausência de autoridade, de orientação e discernimento não foi exclusivo dos jogadores, antes parece ter vindo de fora para dentro. Não se sabe que orientações deu Silas à equipa, ou como decorreu a preparação do jogo. O que se percebeu logo desde o inicio é que a equipa pareceu aturdida pelo futebol directo dos turcos, nunca conseguindo fazer aquilo que se esperava para este jogo: tentar ter bola, arrefecendo a vontade e a crença turca e procurar os espaços que os turcos teriam que abrir para chegar até à baliza de Max. 

Mas quem faz alinhar o inepto Bolasie durante uma hora, volta a confiar num inútil Jovane também não parece estar a ler bem o que se está a passar em campo e o que o jogo pedia. Para o ilustrar  chama Doumbia, que se limitou a correr para a frente e para os lados, nunca constituindo uma referência e apoio para as tarefas defensivas e reacção à perda de bola. Fazê-lo a seguir ao golo caído do céu que nos recolocava na discussão da eliminatória também não deve ter sido particularmente estimulante ou reforço dos níveis de confiança já de si baixos. E o que dizer da entrada de Eduardo no momento de marcação de um canto, e que ditaria a descida ao inferno do prolongamento e daí ao regresso inglório para casa?

A abordagem ao jogo e a leitura feita por Silas não pareceu a melhor. Mas, com todas as virtudes e defeitos do treinador, não se deve excluir da análise o enxovalho e consequente desautorização que as capas de jornais com nomes de substitutos por desmentir constituem. Se o treinador não conta para a definição do futuro do grupo de trabalho não nos devemos surpreender que os jogadores aliviem na entrega e no compromisso, ainda que tal constitua uma falha no seu profissionalismo. É por aqui que construirá muito do que ainda resta da época e a obrigação que temos de ir à procura do último lugar que nos resta. Infelizmente parece que o que se prepara parece ser mais um salve-se quem puder.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Plata polida sempre brilha

Foto by @Isa
Depois de uma prestação europeia muito razoável, havia alguma curiosidade para perceber como se comportaria a equipa do Sporting ante a congénere boavisteira,  a segunda das melhores da Liga a defender nos jogos longe de casa. 

As ausências forçadas dos pilares defensivos - Coates e Mathieu - e um eventual cansaço, eram factores que adensavam as dúvidas. Para ajudar Silas resolveu fazer algumas apostas inesperadas, voltando a chamar Rosier à titularidade e fazendo descansar Acuña. Muito interessante esta mudança, chamando Rosier à construção a três. O francês teve critério e associou-se bem por dentro, procurando Battaglia e Wendel mas sobretudo a Vietto.

Mas a grande surpresa, e que acabou por ganhar carácter decisivo para o desfecho da partida, foi a chamada à titularidade de Plata. É certo que o jovem equatoriano beneficiou muito do golo relativamente madrugador - 13 minutos - que trouxe a tranquilidade necessária para jogar sem a pressão de desfazer o nulo, que tantas vezes acaba por retirar discernimento à equipa e não menos à bancada. Mas, para que tal sucedesse ele foi um dos actores principais. Não só pela assistência para o golo de Sporar como, pouco depois, com um golo anulado, até conseguir fazer o gosto ao pé canhoto com que se selou o resultado final.

Não deixou também de surpreender a atitude demasiado passiva e total tracção atrás do Boavista. O Sporting soube ter mérito no demérito do adversário que, só já quase no final, incomodou seriamente o espectador Max. Este acabaria por desempenhar bem o papel que se pede a um guarda-redes de um grande, que sabe que vai intervir pouco e por isso tem de estar sempre preparado para ser decisivo quando for chamado. 

Mas, como é evidente, poucos serão os adversários que nos oferecerão tantas facilidades e será então que o teste à prontidão de Plata & Cia será mais efectivo. De qualquer forma o talento está lá e parece agora mais pronto para o fazer valer em seu beneficio e do colectivo do que as aparições anteriores. É o percurso natural de qualquer jovem, que requer paciência, mas precisa de oportunidades.

Foto by @Isa
Três notas que me parecem importantes a reter: 

- O regresso de Francisco Geraldes. Que o seja efectivamente, porque a equipa tem lugar para para melhor versão dele. 

- A vergonhosa actuação do nosso velho conhecido Nuno Ferrari Vermelho Almeida. O ódio visceral que nos tem faz com que nos prejudique ate quando é indiferente. Aquele penalty e vermelho perdoados são todo um compêndio a demonstrar que não há VAR que valha contra  a incompetência e o ódio.

- Inadmissível o silêncio do Sporting quer sobre o hino à desonestidade que foi a capa do Record - que obrigou um Silas sozinho a por os pontos nos "iiss" na conferência de imprensa, quer sobre o roubo escandaloso de Nuno Almeida. Quanto a este último ponto, depois não adianta chorar...

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Isto não é o Sporting


Só há uma atitude possível perante o que sucedeu no passado fim-de-semana em Alvalade com os dirigentes do Sporting, Miguel Afonso, Osório de Castro e familiares que os acompanhavam: reprovação inequívoca e sem subterfúgios. Sem mas nem meios mas.

Vivemos tempos em que há sempre uma verdade alternativa que se acomode à narrativa que se pretende. Não deveria ser assim nunca e muito menos num caso como este. As imagens disponíveis denunciam de forma clara premeditação e frieza na execução com objetivo de pelo menos intimidar, que nem a presença de menores fez demover ou sequer hesitar. Perante isto não pode haver contemplações e o Sporting deverá ir até às últimas consequências.

Infelizmente as reacções que o caso despoletou denunciam a morbidez que se apossou do clube. Primeiro só podia ser mentira, se era verdade que se mostrassem as imagens, agora que há imagens é uma vergonha que tenham sido passadas pelo clube à CM TV, como se não se soubesse o histórico do canal. Não estamos a falar de contratações falhadas, de politicas de comunicação, da expressão legitima de descontentamento ou de discordância com decisões tomadas, mas de violência pura e dura e isso é absolutamente intolerável.

Não é possível, sob pena de sermos coniventes e assim fortalecermos as suas pretensões, tentar menorizar ou justificar so sucedido. No espaço de menos de dois anos, desde Alcochete em Maio de 2018, situações de violência verbal e física banalizaram-se. O peso que isto tem para uma instituição como o Sporting, que vive numa conjuntura altamente concorrencial, ainda por cima nem sempre exercida de forma limpa, não é quantificável.

A direcção em funções está legitimada e, até revogação desse mandato, cabe-lhe gerir o clube da melhor forma possível. Os acontecimentos dos últimos quase dois anos diminuem o seu poder negocial em todos os campos, seja com os bancos, com fornecedores, tutela e, nunca o esquecer, com atletas. Quantos bons profissionais quererão continuar a representar este clube agora ou fazê-lo no futuro com este tipo de expressão mediática permanente? Que argumentos exibiremos nas mesas de negociação com possíveis patrocinadores? Que poder de atracção  teremos junto de boas marcas?

Por último, quão redutor será no campo de recrutamento de futuros dirigentes? Quem quererá abdicar de uma carreira profissional e qualidade de vida para viver permanentemente acossado? Esta pergunta vai directamente para  pretendentes e ex-futuros dirigentes, cujo silêncio actual só pode ser interpretado com taticismo eleitoral.

Já quanto aos que recentemente exerceram funções, poupem-nos às suas lições de como preencher o totobola à segunda-feira. Quanto a vossa sapiência e presciência nos podia ter sido útil, estavam a engordar o monstro com que agora temos que lidar e perderam por falta de comparência quando mais preciso era que tivessem ido a jogo.

Quanto à imagem que faz hoje a capa do nosso jornal julgo que ela deve recolher a unanimidade. Mas pela negativa. O Sporting tem que ser maior que isto, a honra de capa nunca pode ser dada para lembrar quem vive dele e não para ele.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Mesa da Assembleia Geral indifere o pedido de "Dar Futuro ao Sporting"

Não faltarão argumentos jurídicos a sustentar a mais recente decisão da MAG do Sporting, que indefere o pedido do movimento "Dar Futuro ao Sporting" bem como do seu contrário. Da informação que pude recolher esta era um decisão mais ou menos esperada, atendendo à forma e conteúdo do pedido. No entanto ninguém estranhará que daqui resulte um campeonato jurídico para decidir o campeão desta causa. Requisito já as pipocas?

Sobre este pedido parece-me que não deixa de ser caricato que os dois principais fundamentos para o pedido - a incompetência e a falta de cumprimento do programa eleitoral - sejam em sim mesmo ineptos por pouco sustentáveis como fundamentos para justa causa. Para a análise equilibrada e devidamente sustentada da verdadeira situação do clube não bastam os resultados desportivos de uma modalidade, ainda que ela seja o futebol. E, quando o mandato ainda não chegou a meio, parece-me também extemporâneo invocar incumprimento de programa.

A primeira conclusão a tirar deste processo é que urge repensar os estatutos. Não deixa de ser caricato que um dos subscritores do pedido tenha reconhecido essa necessidade, pela facilidade com que se pode fazer parar uma administração, num  recente programa de uma estação de rádio.

A segunda é que, tratando-se do Sporting, e olhando ao ambiente que se vive em torno do clube, desde a destituição dos órgãos sociais anteriores, tentativas como estas deverão seguir-se.

A terceira é que cabe aos actuais órgãos sociais perceber o que está ao seu alcance para alterar a actual conjuntura, em tudo altamente perniciosa, quer para a sua acção, quer para o clube em geral. É certo que herdaram uma situação altamente complexa e desfavorável, como talvez nenhuma outra. É certo que as razões da crise actual ultrapassam em muito as questões de natureza financeira e jazem em terrenos muito mais profundos do que a superfície dos resultados do futebol deixam entrever. É certo que há uma espécie de legião de saudade e outra de espoliados do regime anterior que nunca se conformará ainda que o Sporting seja amanhã campeão.

Mas nunca é demais lembrar que lema da candidatura dos actuais órgãos sociais era precisamente "Unir o Sporting". Sobre isso há muito mais a fazer do que perguntar, como fez ontem o presidente na TVI, se o Sporting alguma vez foi unido. É que também se pode retorquir a esta pergunta: mas alguma vez esteve tão fracturado? 

Ainda que se reconheça que as culpas sejam muitas e de várias origens a responsabilidade e a iniciativa cabe sempre em primeiro lugar a quem tem a responsabilidade de dirigir. Com verdade, humildade e competência e com um discurso que mobilize e congregue as forças dos Sportinguistas que anseiam ver o Sporting no lugar que merece, certamente que a união será menos utópica.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Pontapés & Caneladas

Torna-se cada vez mais difícil de perceber os objectivos de Silas, fazendo de cada jogo um novo teste, sem estabelecer uma linha de continuidade com o jogo anterior. Seja na escolha dos jogadores seja na forma como os dispõe no terreno. Essa falta de coerência é levada ao limite quando o jogador que ele próprio elegeu como determinante no jogo anterior - Eduardo - não sai do banco sequer, apesar das dificuldades que a equipa revelava desde a construção até á ligação entre sectores. 

É certo que a qualidade individual à disposição não abunda, que jogar em Alvalade deve ser um verdadeiro filme de terror para estes jogadores, mas é também muito difícil de perceber o que se treina em Alcochete por estes dias. Isso e as constantes mudanças operadas por Silas, quando o objectivo primordial deveria ser estabilizar a equipa a partir de dentro, já que de fora já se percebeu que tal não sucederá.

Deste jogo com os algarvios a salvação viria da obra de arte de Mathieu, construída com um livre que saíu directo para se fixar no álbum de recordações de um dos melhores mas mais circunspectos jogadores da historia recente do Sporting. Ou da ajuda do árbitro que, sendo complacente com os jogadores do Portimonense, permitiu que o autor do autogolo terminasse o jogo sem ser expulso por acumulação de amarelos.

Quem não parece ter salvação é mesmo o Sporting. Se as agressões seja a quem for são sempre inqualificáveis, as reacções que se seguiram a tentar minimizar ou até a encontrar uma narrativa que as neguem são ainda piores. Elas são reveladoras de que as enfermidades de que padece o clube são muito mais vastas e profundas que apenas um problema com claques a sofrer de complexos de superioridade por tratar.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Tem razão Neto: "Está muito fácil bater no Sporting"

É a frase que fica da noite de ontem e a autoria é de Neto. Percebe-se a revolta, o campo ficou inclinado desde muito cedo. Aos vinte e dois minutos de jogo o Sporting tinha cometido quatro faltas e contava já com três cartões amarelos. Ora quem não viu o jogo podia ser levado a pensar que foi o Braga a começar o jogo por cima do adversário, quando até foi o Sporting a superiorizar-se nos momentos iniciais do encontro! 

Lamento por isso que Silas tenha querido ser elegante com um árbitro que de forma reiterada nos prejudica. Não só Jorge Sousa não é um grande árbitro, como influenciou o resultado do jogo, uma vez que Galeno é o autor do remate cuja recarga de Trincão acaba no fundo da baliza de Max. Golo que dá os três pontos e que oferece ao adversário o terceiro lugar, à nossa custa. Ora Galeno deveria ter visto o segundo amarelo no final da primeira parte. O árbitro viu, o auxiliar também. Onde está o Soares dias no VAR quando precisamos dele? Só faltou a Jorge Sousa ir amarelar o Bruno Fernandes ao camarote de onde viu o jogo.

Lamento também a reacção pública institucional tardia e que tenha sido necessário esperar pela sinfonia de cartões amarelos ou de vira minhoto de faltas ao contrário, como quem vira frangos na Guia, pelo auxiliar do lado do nosso ataque. Agora é tarde e "Inês é morta". Tivesse havido reacção nos jogos em que o VAR adormeceu (Rio Ave, p.ex.) ou que acordou de forma quase inédita (Portimão e meia-final da Taça da Liga, p.ex). Tivessem as palavras de ontem, depois do comboio passar, ditas na sexta-feira, a lembrar o passivo de Jorge de Sousa, talvez este tivesse procurado ter um pouco daquilo que há muito revela faltar: vergonha na cara.

Tem razão o Neto: é fácil bater no Sporting. Infelizmente há quem entre nós rejubile também com as nossas derrotas, seja por desejo de ajuste de contas, seja porque cheira à cadeira de poder. Continuamos a sair ou a entrar em Alvalade debilitados por permanentes guerrilhas internas, continuando a não haver uma reacção ordenada, conjunta que represente a força social de um clube que tanto deu e continua a dar ao País cujo nome é também o seu. Por isso fale o presidente muito ou seja mudo o resultado é invariavelmente o mesmo.

Tem razão o Neto: é fácil bater no Sporting. E é-o também porque cheira cada vez mais a desastre a época em curso, tantos foram os erros cometidos na sua preparação. É verdade que não é propriamente inédito estarmos a lutar pela obtenção do terceiro lugar. Mas fazê-lo com o Braga, Famalicão e Rio Ave, clubes com percentagens muito reduzidas do nosso orçamento anual, ilustra de forma tão perfeita como cruel o quão longe estamos do lugar que devíamos ocupar. Ontem, quando o Braga chega ao golo, maior do que a dor de o sofrer foi o sentimento de impotência para alterar o resultado. Quem, no meio da mediania geral da nossa equipa, teria capacidade para o fazer?

O presidente Frederico Varandas prometeu uma reacção para esta semana, explicando-se aos sócios e adeptos. Neste momento dificilmente o que quer diga virá alterar o estado de fim de linha para onde a sua gestão desportiva encaminhou o seu mandato. Espero ainda assim que o faça com coragem, sem voltar a invocar o passado, por mais constrangedor que tenha sido e continue a ser para a sua acção. Porque, haja a  humildade em reconhecer, falhou redondamente na preparação da presente época e é essa a principal razão da situação em que se encontra o nosso futebol.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Sabes, Bruno

Sabes, Bruno,

A tua vinda lembrou-nos de que feridas somos feitos. Sabes, é que aqui raramente somos gratos. Fomos como que obrigados a esconder-nos numa máscara do “0 ídolos” e depois, não raras vezes, esquecemo-nos de agradecer. Perdoa-nos. Foram os anos de turbulência que nos obrigaram a isso. Mas custa-me que neste Sporting que conheceste raramente se dê o devido valor aqueles que vestem a verde e branca. Achamos sempre que aqueles que vêm são pouco dignos de a vestir. E só te posso pedir desculpa por isso.

Bruno, tu nem eras um filho da casa, mas tornaste-a parte de ti. Vestiste-te de raça e personalizaste o leão que carregavas ao peito. Voltaste atrás para dar um passe de gigante que foi levar-nos às costas. Carregaste um Sporting que não era o teu, sofreste como se a camisola que vestias fosse a tua pele e levaste-nos mais longe. Mesmo que nem todos o venham a reconhecer. Sabes que acredito na velha máxima de que “não é o Sporting que se orgulha do nosso valor”, mas nós - todos nós - é que “nos devemos sentir honrados por ter esta camisola vestida”, como dizia Stromp. E gostava que um dia percebesses isso.

Acredito que hoje, na tua saída, isto pareça injusto. Sou-te muito grata e não duvido do teu valor. Lembra-te, nesta saída, que o Sporting é maior do que qualquer um com quem te cruzaste neste caminho. É maior do que todos nós. Espero que, um dia, ainda que lá longe, venhas a conhecer esta grandeza de que te falo. Merecias ser parte de um outro Sporting que eu própria não sei se conheci.

Bruno, desculpa pela casa vazia de ontem. Merecias mais. Pela ovação que ontem não tiveste. Pelo ruído que ouviste. Pelo nome que se sobrepôs ao teu. Obrigada. Para sempre, obrigada.

Agora vai. E antes de vestires o vermelho, reveste-te de esperança e sê feliz.

Texto da autoria de Mariana Gonçalves

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Quanto vales Bruno Fernandes?

Foto @Isa
Está por horas o ingresso de Bruno Fernandes no Manchester United. Até à confirmação oficial do negócio em forma de comunicado à CMVM - e até mesmo depois desse momento - o negócio será objecto de aturadas análises, quase ao jeito de uma autópsia forense. Os valores envolvidos estarão certamente à cabeça de praticamente todas as conversas.


O Valor
Do ponto de vista estritamente pessoal, nem que recebêssemos 200 milhões por Bruno Fernandes ficaria satisfeito. Quem o levar leva não apenas o melhor jogador da nossa Liga - logo o nosso melhor jogador - mas um grande profissional. De forma que as estatísticas comprovarão, é mais de metade da nossa equipa, seja a defender, a assistir e a marcar golos. E, além da garra e empenho exemplares, é um capitão como há muito não tínhamos. Ora isso não tem preço. 

Mas quem faz o preço é o mercado e estranhamente, ou talvez não, Bruno Fernandes não parece ter aberto muito apetite aos tubarões europeus, a despeito da sua qualidade. A par disso a inexistência de validação na melhor competição de mundo de clubes - a Champions League - e a nossa mais que conhecida necessidade, bem como a vontade do jogador, não ajudam a potenciar os valores a receber.

O Timing
Não há timing perfeito para abrir mão de Bruno Fernandes. É verdade que já não podemos ganhar nada e que para isso ele seria imprescindível, mas não é menos verdade que sem ele o risco de segurar o último lugar no pódio aumenta. Com tudo o que nos aconteceu desde o inicio da época até agora, é quase um pesadelo pensar onde estaríamos se ele tivesse saído no verão passado e é esse o sentimento que vigorará nos próximos jogos. É como deixar de pagar o seguro de vida por falta de dinheiro. E se?... A única "vantagem" da sua saída neste momento é a existência de tempo para análise do perfil de jogador que adequado para suprir a sua saída e atacar a próxima época. 

Obviamente que o momento ideal de vender Bruno Fernandes seria o final da época, embora nada garanta que o cenário do verão passado não se repita, com a novela a arrastar-se de forma já quase nauseante.Relativamente à possibilidade de valorização no europeu tal não me parece um elemento válido nesta discussão. Qualquer potencial interessado não quereria correr o risco de o deixar valorizar e preferiria fechar a transferência antes de ele ocorrer. 

Notas finais:
Com a camisola do Sporting Bruno Fernandes ganhou duas Taças da Liga e uma Taça de Portugal. Foi considerado o melhor jogador da Liga por dois anos consecutivos 2017/18 e 2018/19. Representando a selecção nacional venceu a Liga das Nações. 

Sabe a pouco, para um jogador da sua categoria. Como aliás a de muitos outros grandes jogadores que por cá passaram ou neste clube se formaram. Jogadores como ele mereciam estádios cheios e sonoras palmas, em compasso, de pé, até a imagem dele se perder no túnel para o balneário, a tentar adiar o inevitável. Quem sabe a ir reclamar o seu lugar na história, ao lado de Balakov.  Mas com o Sporting descompassado da sua grandeza, Alvalade foi também um local de desencontro: no seu tempo houve quase sempre um grande Bruno e um pequeno Sporting. E foi assim, num estádio frio e inóspito que se despediu de um grande, grande jogador.

Obrigado Bruno Fernandes. Cumpre o teu destino.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Sporting 1 - Maritimo 0: Tanto remar para tão pouco Mar(itimo) atravessar

Foto Sporting Clube de Portugal
Há muito que em Alvalade não se rema para o mesmo lado, pelo que não deve surpreender ninguém que o Sporting tenha revelado dificuldades em fazer a travessia marítima de que estava incumbido e que não podia borregar caso não quisesse desperdiçar a oportunidade de regressar ao pódio da Liga.

Estou mais habituado a remar sozinho, dos tempos que me aventurei na canoagem de forma meramente lúdica,  mas sei que quando se rema em equipa a soma das forças é importante. Mas a qualidade da remada, bem como a coordenação de movimentos fazem toda a diferença na resultado final, nomeadamente na rapidez com que se atinge a meta.

Ora, se nada há a dizer sobre o empenho dos jogadores no confronto com o Marítimo - foi justamente a sua recusa em baixar os braços perante as dificuldades que se chegou à vitória - o mesmo não se pode dizer sobre a qualidade da execução e coordenação colectiva. A isso não terá sido alheio o facto de se registarem três ausências de peso (qualitativo) no onze inicial. 

Mathieu é fulcral quer na forma como defendemos, quer mesmo na construção do nosso jogo. A ausência de Acuña talvez tenha sido a que sentiu menos pela subida de rendimento de Borja.  Mas  Vietto ajuda a ligar o nosso jogo e aumenta a qualidade da nossa chegada às linhas recuadas do adversário, pela ligação que oferece entre os sectores mais recuados e os avançados. A sua ausência e a inexistência de substitutos para os seus papeis - sobretudo do primeiro e do último - condicionaram muito a nossa prestação.

Em jeito de resumo e aproveitando a metáfora acima, o Sporting ontem remou muito, o esforço feito foi superior à qualidade do desempenho. Para chegar até este Marítimo remamos o suficiente para chegar ao Brasil.

Notas individuais para

Max: fez o que se pede a um guarda-redes: ser sempre decisivo quando intervém, mesmo quando é chamado poucas vezes a fazê-lo. Tendo em conta o que resta da época, este é talvez o momento indicado para crescer com o tempo de jogo e mostrar qualidades para a função. Contra ele a instabilidade, mas até aí este pode ser o tempo certo porque viver com isso é quase condição sine qua non para ser atleta do Sporting.

Wendel: melhor que em quase toda a época até agora.

Bruno Fernandes: a novela da sua transferência está com certeza a afectá-lo isso nota-se sobretudo na forma como define os lances e se relaciona com os colegas. Não sabe jogar mal mas é muito mais importante para o nosso jogo do que foi onttem.

Sporar: mostrou um pouco do que pode oferecer, por comparação com o a alternativa Luiz Philliype. Maior disponibilidade para se oferecer ao portador da bola como ligação, para explorar o espaço entre os centrais e laterais e espontaneidade do remate. Pena o empurrão que nos anula o golo, mas para quem ainda tem as malas por desfazer e ainda por cima anda a canja de galinha ficou um aperitivo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Erros meus, má fortuna

Como é fácil (a)bater no Sporting
Não mudo uma virgula ao que disse sobre o plantel do Sporting e a preparação da época no post anterior.  Mas antes de ir à análise do jogo e das respectivas consequências não posso deixar de dar aqui conta de mais uma encomenda entregue ontem pelo árbitro Nuno Almeida e o seu colega no VAR, Artur Soares Dias, velhos "amigos" e conhecidos nossos. 

Ainda a perder há um lance de cartão vermelho que é transformado em amarelo e um lance de amarelo (Bolasie) transformado em vermelho. No primeiro Nuno Almeida preferiu não ver que Ristowski já ia sem oposição e no segundo Soares Dias resolveu alertar o colega que não se fez rogado, preferindo ficar agarrado ao frame final e ignorar que aquele lance só acontece porque o jogador do Braga escorrega e Bolasie não tinha com mudar a abordagem ao lance, uma vez que já tinha iniciado o  movimento.

São demasiados erros para um lado só mas que infelizmente passam em branco sem que alguém do CD do clube diga alguma coisa sobre a matéria, marcando uma posição forte. E infelizmente os adeptos parecem estar tão conformados ou focados na destituição do CD que preferem ignorar que foram mais uma vez atirados borda fora. Assim não será de estranhar que no futuro o mesmo volte  a suceder. Como é fácil (a)bater no Sporting mesmo quando ele há muito está (a)batido.

Quanto ao jogo, foi doloroso ver o Sporting levar uma valente ensaboadela nos primeiros minutos de jogo, chegando mesmo a sofrer o primeiro golo. Jogadores como Paulinho, Fransérgio, Ricardo Horta, Galeno, André Horta e Trincão poderiam ser titulares no Sporting. Mas se alguém se lembrasse de tal não faltaria quem dissesse "Quem???". Parecemos uns fidalgos arruinados mas continuamos com tiques de grandeza e nomes bons só se forem estrangeiros. Esgaiowski e Palhoumbia ainda cá estariam. Assim o Braga cresce às nossas custas ao longo dos anos, está cada vez mais perto e é até mais influente, como se percebeu ontem e outros jogos anteriores.

Com o desfecho de ontem fica praticamente encerrada a época. Se preciso fosse um exemplo do enorme equívoco que foi a respectiva preparação chegou hoje Spohar, quando já nada há eSphoar a não ser acabar no terceiro lugar. É chegado o momento de o CD - e muito particularmente Frederico Varandas - se chegar à frente e dar as explicações que nos são devidas. Tudo o que podia correr mal correu ainda pior e, pese embora todas as dificuldades, há decisões incompreensíveis cujas consequências estão à vista de todos. Falarei a propósito deste tema no próximo post.

Nota importante: quem em 2018 esteve calado, assobiou para o lado, caucionou e apoiou a vergonhosa tentativa de golpe institucional então levada a cabo não perdeu o direito à opinião sobre o que passa hoje no Sporting. Esse direito é inalienável. Mas perdeu toda a legitimidade. Essa continuam a ter todos os sócios que se opuseram, independentemente das listas em que votaram. Os que ainda hoje vivem em 2018 deixem o clube entrar na nova década, com todos as suas imperfeições  e defeitos porque o futuro constroi-se todos os dias, a olhar para a frente por todos, sem necessidade de falsos profetas ou messias.

sábado, 18 de janeiro de 2020

O Derby foi como um algodão: não enganou!

Foto by @Idzabela
Se dúvidas houvesse quanto aos inúmeros desequilíbrios que se registam no actual plantel do Sporting  e sobre as razões da fossa abissal que se abre entre nós e os dois primeiros classificados, elas ficaram dissipadas nos recentes jogos com o FCP e SLB. De uma forma muito similar em ambos as partidas, sempre que foi necessário efectuar mudanças e decidir o jogo, os treinadores adversários tinham à sua mão opções que do nosso lado eram inexistentes. Isto sem esquecer as diferenças de qualidade dos onze iniciais.Nesse sentido, o derby foi como o algodão, ninguém saiu enganado. O actual plantel do Sporting e toda preparação da época estão a ser um argumento para um filme tragicómico.

Não obstante o que é dito no parágrafo acima não posso deixar de comparar estas duas prestações recentes com as que tivemos no campeonato passado com estes mesmos adversários e até mesmo com o SLB na Supertaça no inicio da época. Mesmo sem lograr obter melhores resultados (no clássico foi até pior...) quer a réplica dada quer mesmo a ideia de jogo que a sustentou são claramente melhores que as então observadas. 

Consegui-lo abona em favor do trabalho do treinador, mais ainda se atendermos às diferenças de argumentos à disposição. O que poderia ele conseguir com outra matéria prima é a pergunta que fica. Repito o que disse relativamente ao clássico: há muito mais caminho assim do que o que víamos fazer na época passada. Num momento em que o trabalho efectuado na preparação da época é justamente colocado em causa, parece-me de inteira justiça dizer isto do trabalho efectuado pelo treinador na recuperação da equipa, sendo o jogo da Supertaça e o derby de ontem bons objectos de comparação.

Contudo faltam actores em qualidade e quantidade suficientes para a sustentar as ideias que Silas quer para a equipa. Ambos os resultados se explicam por aí. Repare-se nas substituições efectuadas. Enquanto Silas chama Plata, Borja e Pedro Mendes para o jogo, Bruno Lage vai buscar ao banco Rafa, Sferovic e Taarabt. Não foi por Silas que o Sporting perdeu o jogo. Imaginando que a Liga é um concurso de culinária do tipo MasterChef, Silas ainda conseguiu fazer um bolo, apesar da escassez dos ovos e de exígua qualidade da farinha. Mas quando chegou a hora de finalizar, apenas Bruno Lage possuía cacau e natas para fazer a cobertura.

Tendo começado mal, com os médios completamente abafados por Weigel e Gabriel -  sobretudo Wendell e Doumbia - e com Cervi a condicionar logo saída de bola, a equipa foi equilibrando o jogo, tendo sido suas as principais oportunidades, por Camacho. Na segunda parte o Sporting alarga o campo, encosta mais o adversário, mas não consegue ter oportunidades claras, apesar das dificuldades criadas.

Cada jogo que passa é uma auto-explicação de tudo quanto foi mal pensado e pior executado na construção do actual plantel. Começando de baixo para cima:

- A rábula do ponta-de-lança não terminou ainda e as exibições de L. Phellype ajudam a perceber as suas limitações e uma das razões porque não marcamos golos a nenhum dos nossos rivais. O nosso único "9" não oferece soluções - não se oferece no apoio, não ajuda a criar desequilíbrios ou a baralhar as marcações, é lento a pensar e agir e pouco esclarecido a decidir - acentua os nossos problemas. A forma como consegue anular o golo a Acuña é confrangedora, dramática até.

- Não meto Pedro Mendes nestas guerras porque não se mandam inocentes para o campo de batalha. 

- Sem Vietto e com Bruno Fernandes pouco inspirado - ou com a cabeça noutra Liga - foi Camacho a chamar a si as despesas na criação de perigo. Mas o miúdo, pese a boa prestação, não tem a eficácia de Rafa e muito do resultado final se explicam por aí. Mas tem aparecido sempre em crescendo, em sintonia com as oportunidades que lhe são concedidas.

- Bolasie é esforçado e nada mais. É ineficaz a finalizar, remata em aflição, sem classe e, quando não, finta-se a ele, ao adversário e aos colegas. A defender é um desastre, não sabe quando ficar em contenção, ou o momento ideal para fechar ou atacar o portador da bola. A dúvida que fica é se o Matheus Pereira se ri ou se chora quando o vê jogar. 

- Muitas das nossas fragilidades começam logo na titularidade de Doumbia - uma nulidade e só é explicável por não haver mais ninguém - e Wendell. O brasileiro é geralmente inconsequente a construir e usa pouco mais que os olhos para defender. Doumbia aanulou todos os progressos que se lhe notaram no clássico. O comportamento no lance do golo atesta que não é o "6" que precisamos.

- O regresso de Ilori foi um acto falhado, a cada oportunidade concedida o jogador torna-se protagonista pelas piores razões.

- Apesar da prestação apagada, é penoso imaginar o que seja esta equipa sem Bruno Fernandes e com metade do campeonato ainda por jogar.

Quem esteve permanentemente fora-de-jogo foram as claques. Não vale a pena chover no molhado, torna-se cada vez mais evidente que é muito maior o amor por si próprios do que a sua utilidade para o clube.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O mercado de Inverno do Sporting

Foto @Idzabela
A fraca prestação desportiva que nos atirou para a disputa do terceiro lugar e a disputa da Taça da Liga como objectivos máximos a alcançar esta época reduz em muito aquele que deve ser o papel do Sporting no mercado de inverno. 

Não fora a transacção aparentemente iminente de Bruno Fernandes, a integração de novos elementos deveria ficar-se pela inclusão de um ponta-de-lança. Não apenas porque o número de elementos do plantel é reduzido para a posição, como o que aqueles oferecem à equipa é claramente insuficiente. Caso a venda de Bruno Fernandes ocorra, aí o Sporting pode encarar este mercado como o momento ideal para começar a projectar a próxima época, pensando na integração de um elemento para a sua substituição.

Idealmente "esse" ponta-de-lança já cá devia estar e ser opção quer para o dérby, quer para a Final Four da Taça da Liga. Basta lembrar o quão penalizador foi o resultado do recente clássico com o FCP - justamente pela falta de eficácia - para se perceber quão orfã está a equipa nesse lugar, desde o abaixamento de forma de Bas Dost registada o ano passado e concluída com a sua partida. O sucesso da escolha para aquele lugar estará seguramente intimamente ligado à classificação final a obter quando se encerrar a Liga NOS 2019/2020.

Relativamente aos ajustes a efectuar ao plantel, não parece avisado abrir mão de titulares que constituem a espinha dorsal da equipa, atendendo à situação na tabela classificativa e aos níveis de instabilidade emocional que aquela revela, como ainda se viu recentemente em Setúbal. Já a saída de elementos que não justificaram a razão da sua contratação - Fernando, Eduardo - poderia significar não só um alívio financeiro como a abertura de caminhos para a afirmação de jogadores oriundos da equipa de sub-23. 

Não incluo no lote Jesé. Não porque a sua participação não seja decepcionante, mas porque a saída de Bruno Fernandes pode significar a abertura de novas oportunidades no desempenho de outros papéis para ele e até mesmo para Vietto.

Do lote de emprestados com possibilidade de eventual incorporação o nome de Daniel Bragança é incontornável. Porém o seu regresso, ou até mesmo a mudança para um nível superior que não a II Liga, sendo mais do que justificada, só deveria ser equacionado se tal não signifique perda de tempo de jogo como titular.

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