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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

10 pontos sobre a Assembleia Geral

1-Ao contrário do que tem vindo a ser veiculado aqui e ali, a Assembleia Geral (AG) do próximo sábado não se destina a deliberar a expulsão de nenhum sócio, mas apenas a apreciar os recursos dos diversos associados, a citar: Alexandre Godinho, Bruno de Carvalho, Carlos Vieira, José Quintela, Luís Gestas e Rui Caeiro, membros da direcção destituída pelos sócios e entretanto suspensos, Elsa Judas e Trindade Barros, sócios expulsos.

2-Sobre a matéria que estará sob apreciação dos sócios - a manutenção das penas aplicadas - e tendo em conta a gravidade dos actos cometidos, mas também tendo em conta o que foram as acções subsequentes, é absolutamente claro para mim que não há nenhuma razão para a suspensão das penas dos ex-dirigentes (Alexandre Godinho, Bruno de Carvalho, Carlos Vieira, José Quintela, Luís Gestas e Rui Caeiro), bem pelo contrário. 

3-Sobre a pena de expulsão dos dois referidos sócios (Elsa Judas e Trindade Barros), a sua intervenção e participação nos eventos que levaram à AG de destituição configuram gravidade suficiente para o merecimento da pena aplicada. O facto de nem sócios de pleno direito serem por, alegadamente, terem quotas em atraso e, não menos importante, serem especialistas em direito funciona como especial agravo.

4-Ontem registaram-se novos desenvolvimentos do que virá a ser a AG. O Presidente da Mesa da Assembleia Geral (PMAG) Rogério Alves dirigiu uma comunicação aos sócios, dando nela conta da possibilidade de os indivíduos sob alçada disciplinar e requerentes do recurso se poderem apresentar pessoalmente na AG e tomarem a sua defesa.  Em teoria olho para esta medida como uma atitude generosa e até saudável. Na prática olho para ela como uma medida ingénua e baseada numa análise irrealista e distorcida da realidade.

5-Dá impressão que o PMAG delegou num clone a gestão da passada AG e que depois disso não chegou a estabelecer contacto com a sua réplica. Mas pior, não tem lido os jornais, não tem visto as noticias e não se apercebeu ainda do que têm sido os últimos meses da vida do Sporting. Peço desculpa pela crueza da imagem, mas não há generosidade nenhuma em continuar a afagar a cabeça do mastim que temos em casa e cuja intenção continua a ser evidente de querer continuar a tentar morder. A isso chama-se ingenuidade e só por respeito ao PMAG não uso outra palavra.

6-Tenho uma diferença de opinião insanável com o PMAG e talvez mesmo com a generalidade dos órgãos sociais que parece quererem ir em busca de uma pacificação por via da tão famosa "união". Para que tal acontecesse seria necessária uma regra básica, que se aplica a actos mais banais como por exemplo dançar um tango: é preciso a vontade dos dois lados. Aplicando isso à realidade vigente no nosso clube, há um último reduto de adeptos que continua a não aceitar os resultados das eleições e cuja única e exclusiva vontade que continuam a manifestar é reverter o acto até ao ponto em que seja possível voltar a colocar Bruno de Carvalho de onde ele foi afastado pela vontade de uma maioria bem expressiva de sócios. A sua lealdade ao Sporting extingue-se nessa vontade cega. Só deve ir a jogo quem aceita as regras. Ora o PMAG diz que "temos que de democraticamente aprender as decisões maioritárias" mas esse exercício carece ainda de ser feito por muitos, pelo que não se percebe a generosidade.

7- Compreendo que haja sócios que entendam o contrário de mim e guardem do anterior presidente memórias mais positivas e reconfortantes do que as minhas. Mas o que está em causa neste processo são factos  muito concretos e revestidos de especial gravidade que num eleito para defender a instituição Sporting funcionam como circunstâncias especialmente agravantes. Se dentro desses há quem olhe para o mandato e encontre razões de satisfação e regozijo, lembro que esse deveria ser o resultado normal do exercício da função que lhe foi confiada e tida por ele como uma honra e não como um livre trânsito.

8- Não é demais lembrar o objectivo das AG's do inicio do ano, cujo um dos objectivos dos então dirigentes era o endurecimento do regulamento disciplinar, sob cuja alçada haveriam de cair em tão pouco tempo. Isso não apenas faz acrescer as suas responsabilidades como as agravantes para os seu actos.

9-Tenho também sérias dúvidas da legitimidade da permissão de entrada na AG de sócios suspensos. Também compreenderia a generosidade expressa na vontade de deixá-los tomar a sua defesa, não sendo demais lembrar que foi-lhes facultado o exercício do contraditório no decurso do processo disciplinar. Porém pergunto-me: o que poderão dizer de novo que não saibamos já? Que se encontravam temporariamente inimputáveis quando decidiram criar uma mesa de assembleia geral fantasma uns e a aceitaram integrar outros? Foram vitimas de envenenamento dos alimentos pelos "sportingados" e outros malfeitores? 

10-Não sei que rumo tomará a AG e muito menos o seu resultado. Mas até mesmo para alguém como eu, que nunca acreditei em Bruno de Carvalho, não aceito que o seu sportinguismo não tenha falado até hoje mais alto que as suas ambições pessoais. Desde que o caos em que nos lançou e as divisões que provocou, e depois das inúmeras providências cautelares sucessivamente rejeitas que interpôs, em nenhum momento ouvi uma palavra que demonstrasse uma preocupação genuína com o futuro do clube mas apenas consigo próprio. Isso por si só é suficiente para manter e reforçar as minhas convicções relativamente aos eventos à época e os seus principais protagonistas.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Sporting dos casos e casinhos

O Sporting é um clube "extraordinário"! Há três anos a "Tertúlia Leonina", um grupo de Sportinguistas que de forma livre resolveu constituir-se como um grupo de reflexão, realizou o seu primeiro jantar de Natal. Na altura esteve presente o então presidente do Sporting e daí não resultou qualquer polémica, pelo menos que me lembre.


Este ano o jantar repetiu-se e contou com a presença do actual presidente Frederico Varandas, do vice-presidente Francisco Salgado Zenha que creio é elemento integrante deste grupo, bem como de pelo menos um elemento do staff do futebol profissional.

De repente estalou o escândalo e o jantar bem, como o referido grupo, passou a ser escalpelizado como se se tratasse de acto de lesa Sporting. Este espírito de casos e casinhos e perca de tempo em discutir tudo e o seu contrário é bem o espelho do Sporting e pode ajudar a perceber - ou não - porque é que este clube tem tantas vezes adiado aquele que deveria ser mais vezes o seu destino natural: vencer mais vezes!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Onde está a mão do Ronny quando o Mota mais precisa dela?

Vou começar esta crónica pelo final:

Há uns anos atrás José Mota, no comando do Paços de Ferreira, veio ganhar a Alvalade com um golo de Ronny, marcado com a mão. Os pontos perdidos nesse jogo seriam suficientes para nos ter dado o titulo nesse época. O José Mota saiu tão satisfeito com o resultado que nem se conseguiu referir ao lance na conferência de imprensa a seguir ao jogo. Ontem chorou baba e ranho por uma qualquer razão que ainda estamos para perceber. Como se a sua equipa tivesse perdido como ele nos havia ganho: por um erro de arbitragem.


O José Mota que tanto teclamou com a arbitragem e com a organização do futebol português é ainda o mesmo treinador do clube que não foi à Liga Europa porque a administração do clube se esqueceu de inscrever a equipa na competição. O José Mota deve urgentemente fazer uma consulta de neurologia por causa destes esquecimentos? Não creio. Sofre provavelmente da mesma amenésia que o Folha, quando lhe perguntaram se a sua equipa tinha sido prejudicado no jogo com o FCP. Nem uma palavra sobre o penalty perdoado e o golo sofrido com o fora-de-jogo a anteceder...

Quanto ao jogo, foi um jogo algo estranho. O Sporting, que já tinha superado com distinção algo semelhante com o Karabaq, não se deu bem com a marcação 1x1 do Aves. Porque a pressão foi maior e exercida no espaço curto deixado por uma defesa muito subida. A segurança em posse perdeu-se e a equipa revelou o natural incómodo. Mas, ao contrário do que se poderia supor, o Aves não abdicou do ataque, fê-lo foi de forma surpreendente ao abdicar de um elemento fixo e ao colocar 3 elementos rápidos, O suficiente para ensaboar o juízo aos nossos defesas e, isolando-os, expor as suas debilidades. 

Mas, ao contrário do que é habitual, a equipa está a ser construída da frente para trás. Isso ou é aí que a diferença de qualidade individual é mais notória e acaba por se fazer sentir. Foi graças ao enorme jogo de Bruno Fernandes, ao golo estratosférico de Nani e à eficácia de Dost - 3 remates, 2 golos -  que demos a volta ao resultado e construímos mais uma goleada. Mas ficou o aviso, e enquanto for apenas em forma de aviso podemos nós muito bem.


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O próximo grande desafio de Keizer: o teste do autocarro

Aqueles lugares comuns que buscamos para falar do futebol são sempre actuais. O futebol desperta paixões é um deles e que a paixão tolda a razão é outro que também se pode usar para nos referirmos à ciclotimia crónica de que enfermam os adeptos e não menos os comentadores do fenómeno desportivo. 

Senão vejamos: a 15 de maio o Sporting sofria um rude golpe infligido directamente no coração que não apenas lhe poria em causa o seu prestigio, como o deixaria depauperado de um parte substancial dos seus melhores valores e imerso numa profunda crise, cujos contornos e consequências estão ainda por apurar. 

A época que se avizinhava era aguardada até nas versões mais optimistas como uma penosa travessia do deserto. Impressão que se foi cimentando com um estágio de pré-época digno de uma equipa amadora em excursão, um treinador sem qualquer carisma e de imagem desgastada junto dos adeptos, que só o resgate de Bas Dost e Bruno Fernandes ajudaria a atenuar. Hoje percebe-se ainda melhor o quanto esta acção acabaria por ser determinante para a saúde do actual Sporting. Só não se percebe como é daqui se saltou para voltar a falar em titulo nacional. Mas, se tal sucede, há dois nomes incontornáveis: o treinador Keizer e Frederico Varandas, que assumiu o risco da sua contratação.

Mais do que os resultados seriam as paupérrimas exibições a obrigar Frederico Varandas a sair do seu cadeirão de conforto que o desresponsabilizava da escolha do treinador. Isso e um discurso desmotivante e desagregador de Peseiro, incompreensível mesmo à luz das circunstâncias difíceis que encontrou para o desenvolvimento do seu trabalho. Ainda assim, a escolha do momento e do nome do treinador acabaria por surpreender toda a gente.

Mas, mais do que o nome e o momento, está a ser a forma discreta mas eficaz e convincente como Marcel Keiser  soube dar a volta a uma equipa sem alma e, porque não dizê-lo, de reduzidíssima auto-estima. Resultados e exibições eloquentes e em crescendo depressa fizeram esquecer o ribombar das criticas e dos receios expressos sobre o acerto da decisão. Na sua maioria por se fixarem no curriculum e outro tanto para esconder a ignorância total. Faltou perceber que mais do que qualidade o curriculum atesta o passado e as circunstâncias em que ocorre e não tem que significar uma sentença sobre o futuro. A verdade é que só mesmo quem conhecia o treinador e o seu trabalho lhe poderia adivinhar o potencial que agora a rápida e dramática forma como operou a transformação da equipa todos se apressam a reconhecer.

O Sporting de Keizer deve muito da sua subida auto-estima e de qualidade exibicional à simplicidade de processos como reorganizou o modelo de jogo. Este baseia-se numa maior proximidade de sectores e e dos elementos, que permite não só maior posse como uma resposta mais pronta e melhor organizada quando a bola é ganha pelo adversário. O recurso a cruzamentos constantes, à procura do milagre habitual de Bas Dost, foi substituído por uma maior procura e ocupação do corredor central, sem medo de enfrentar o bloco defensivo do adversário. A forma, o número de elementos que coloca e a qualidade como chega às zonas frontais à baliza adversária definem grande parte do sucesso das finalizações, que aumentaram significativamente.

Claro que os dois encontros iniciais não foram muito convincentes para críticos e adeptos, muito pelo baixo valor facial dos adversários. E nem a goleada, cada vez menos usual, aplicada ao Karabak, diminuiu a controvérsia sobre a escolha Keizer. O encontro com o Rio Ave assumiu-se como o derradeiro teste à consistência da equipa verde e branca. Como se sabe hoje, o teste foi passado com distinção, provocando a rendição da critica e dos mais indecisos.

Como é bom dever algum do sucesso imediato se deve, além dos méritos do treinador, ao factor surpresa. Factor que tenderá a desaparecer no imediato, com os técnicos adversários a terem mais tempo para analisar o "modelo Keiser" e a construírem os seus próprios antídotos. Os próximos quatro jogos do Sporting serão jogados em casa e aí será possível ver como se propõem os adversários a enfrentar os leões. Veremos então se a proposta de Marcel Keiser também é à prova de dos tradicionais autocarros a que recorrem muitas vezes as equipas de menor recurso.

Além desse há um outro teste a enfrentar pelos homens do holandês até agora tranquilo: a impaciência do tribunal de Alvalade, por oposição à serenidade e jogo de aturados equilíbrios que a equipa exibiu em Vila do Conde e onde se fundaram muitas das razões para o sucesso alcançado.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Rio Ave 1 - Sporting 3: parece que temos gente!...

A primeira nota vai para a precaução tomada na hora de escrever este post: antes de o começar a redigir fui buscar uma âncora ao Rio Ave (não ao clube) que me obrigasse senão a manter sempre os pés no chão pelo menos que me fizesse lá voltar, de vez em quando. É que tão mal habituado que estava ao futebol exibido no passado recente que, depois do jogo de ontem, posso ser traído pelo entusiasmo e começar a sonhar já com a Liga dos Campeões. Como o tempo se encarregará de provar, para lá chegar vai ser preciso remar muito mais, com mais acerto e vigor.

A segunda nota é de penitência, o que pode soar um pouco estranho, quando estamos a menos de um mês do Natal e Quaresma ainda vai longe. Mas sinto-me obrigado a ela por honestidade intelectual para com aqueles que me vão lendo. Estou a referir-me aos receios aqui manifestados por altura da chicotada psicológica em Peseiro, sobretudo em relação ao "timing" escolhido. Como se prova em menos de meia dúzia de jogos, era possível outro futebol, usando exactamente os mesmos jogadores. Bastou para tal simplificar processos e ideias. 

Como se vê, o futebol não é propriamente uma ciência oculta, embora também se recomende algum estudo e preparação. A ideia de satisfação pelo jogo e simplificação de processos é o que transparece hoje quando se vê o nosso Sporting jogar. Ao contrário do passado recente, em que parecia a cada jogada que os jogadores paravam para efectuar uma equação de terceiro grau ou para fazer um complicado cálculo de geometria e fisica aplicada. Tudo isso para calcular um atraso ao guarda-redes ou mandar a bola para fora, que eram então as nossas jogadas melhor estudadas e preparadas. 

Depois, os jogadores jogavam tão longe uns dos outros que quase precisavam de walkie-talkies para comunicar. Sendo que alguns, pelas distâncias entre si, só se deveriam ver ao intervalo. E nós imaginando como deveriam ser efusivos os cumprimentos - ou quiçá saudades até... - do Dost com o Bruno Fernandes ou Nani: "há quanto tempo, pah!" ou "também vieste hoje? Até pensei que não tinhas sido convocado!". Isto sem falar de quantas eram as vezes que o Gudelj se imaginou em Viseu, tantas eram as rotundas que tinha que fazer para se virar para o lado correcto, cada vez que era chamado a conduzir uma jogada.

Ontem, pelos vinte e cinco minutos de jogo e já com belas jogadas e golos, cheguei a pedir o intervalo, tanto era o desgaste emocional e até físico que ver jogar futebol me estava a causar. Um homem já de uma certa idade como eu desabitua-se e depois aquela calma com que trocam a bola em sucessivos emparelhamentos e triangulações provoca muito mais suspense que uns charutos para o ar e para a frente. É que enquanto a bola ia e vinha dava para ir ao site das Autoridade Tributária validar umas facturas, optimizando-se assim o tempo e o dinheiro do bilhete. 

Assim agora sinto-me obrigado a estar sempre a olhar para o relvado, não vá eu perder o Wendell a parar uma bola como se a chuteira e a bola tivessem velcro. Ou o Jovane a dizer ao guarda-redes em que canto da baliza ele vai ver sair o Pai Natal com as renas ou as coelhinhas (já não sei bem quem é quem nestas novas versões natalícias que todos os dias os meus amigos me mandam, via whatsapp...). Uma canseira!

Mas convém não embandeirar em arco e para isso tínhamos ontem o Renan e o seu acordo com uma clínica de cardiologistas (que mais tarde ou mais cedo será revelado pelo CM em primetime). Ou que esta equipa ainda tem alguns elementos que nos fazem lembrar quando tínhamos que por a mesa, e a mãe, entre a paciência infinita e a perplexidade nos dizia: esse talher que aí está não tem nada a ver com os restantes, não se vê tão bem? O que ela diria hoje se tivesse visto o Diaby ou o Bruno Gaspar...

Há mais razões para contermos o entusiasmo. Por exemplo, há demasiados Xistras neste campeonato e poucos oftalmologistas. Só assim se percebe que não tenha expulso o Vinicius, esse jovem e encorpado jogador,  muito interessante de facto. Mas há homicídios que começaram por muito menos do que aquela entrada sobre o Jefferson.

Vinicius, esse sem dúvida muito interessante jovem jogador que o treinador do Rio Ave não trocava por Bas Dost. O que se compreende, porque ele não deve gostar de futebol, gosta é de pieguices e picuisses. Quem se queixa do lance do nosso primeiro golo não gosta de golos, logo não gosta de futebol, talvez de rendas de bilros. Claro que assim se percebe que não queira trocar Bas Dost e fique lá com o Vinicius. Que eu não me importava de ter no Sporting e que, se se acabasse de revelar tão bom como o Castaignos, sempre tínhamos quem rachasse a lenha que não se parte sozinha nem vai em filinha para a lareira.

Mas há um enorme mérito nesta mudança que nunca será reconhecido. Não estou a falar do Frederico Varandas, que em quinze dias montou a equipa técnica, apesar da preguiça revelada na escolha do treinador e ser incapaz de inovar:  foi descobrir Keizer onde já tínhamos descoberto Vercauteren. Nem do próprio Keizer, que só está a fazer aquilo que se pede a um treinador: por uma equipa de futebol a jogar... futebol. Não me estou a referir a eles, mas sim à equipa de professores que em duas semanas puserem o treinador a falar português e todo o plantel a falar inglês e holandês. Só assim se percebe as rápidas melhoras da nossa equipa.

Parece que afinal até temos gente. Gente na equipa, porque Sportinguistas há muitos, como ontem se viu numa noite de segunda-feira de futebol. E acreditem que há poucas coisas de efeito mais terapêutico do que ir com os amigos ver o Sporting voltar a jogar numa noite de nevoeiro e dar a boa nova  aos amigos que ficaram em casa a torcer por fora.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O que Rogério Alves e Frederico Varandas ainda não perceberam?

Vivemos tempos extraordinários em que pessoas "normais" e sãs são insultadas para serem levadas ao colo até aos altares outras com claros sintomas de perturbação e desequilíbrio. Que haja em grandes organizações pessoas desequilibradas e que haja quem as siga não constitui nenhuma surpresa. 

Surpresa, essa sim, é das pessoas sãs, inteligentes e equilibradas que não apenas lhes sustentam os sonhos de poder pessoal como ainda as alimentam e forneçam todo o tipo de teorias alternativas para construção de álibis, que as evidências e a realidade se encarregam de desmentir.

O Sporting é hoje um clube profundamente fracturado e essa asserção nada tem a ver com o clube das quintas e quintinhas em que sempre viveu. É um fenómeno novo, muito semelhante ao que se pode assistir em muitas organizações e até países. Resulta da radicalização, do abandono das normas, convenções e até dos estatutos, como é o caso do Sporting, provocando um fosso profundo que impede qualquer acordo ou entendimento básico. 

Não há união possível com quem não deseja outra coisa que não a capitulação total sob os seus interesses e desígnios, custe o que custar. Não há resultados eleitorais válidos, não há respeito pelas regras ou vontades expressas pela maioria. Enquanto elas não forem as que dão jeito ao projecto de apropriação de poder serão sempre afrontadas por teorias alucinadas de golpes e conspiração. 

De tudo isto o que é que Rogério Alves e Frederico Varandas e o CFD ainda não perceberam?

sábado, 1 de dezembro de 2018

"Unir o Sporting"

Os órgãos sociais foram recentemente eleitos sob o lema “Unir o Sporting”. Três meses depois, está o Sporting unido? Considerando a AG de ontem, a resposta só pode ser negativa. 

Nas palavras do Presidente da Mesa da AG “há feridas abertas”. O problema é pensar que essas feridas vão sarar com o tempo e, assim, unir o clube. Não vão sarar porque a luta por parte de quem tudo teve e tudo perdeu ainda não acabou. E tal como o leão que manda no seu grupo sabe que se for derrotado por outro leão este come os seus filhos, fica com as suas fêmeas e aquele passará a ter de sobreviver sozinho, também o deposto presidente, e ora sócio suspenso, vai lutar por todos os meios para não desaparecer de cena. 

Ontem era esperada uma AG morna, na ordem de trabalhos nada de polémico, pouca afluência esperada. O cenário ideal para os apoiantes que restam ao deposto presidente e sócio suspenso tentarem alcançar os seus objetivos, e que foram os seguintes: 

(i) Causar perturbação; 

(ii) Dar prova de vida; 

(iii) Votar contra o orçamento. 

Conseguiram os dois primeiros, falharam no terceiro. Foi dada a palavra aos sócios, em nome da liberdade, como mais uma vez referiu o seu Presidente. Mas a liberdade de uns acaba na liberdade dos outros, e já agora não pode esbarrar na lei, nos estatutos e nas mais básicas regras de educação. Leis, estatutos e regras essas que foram muito mal tratados nos últimos 5 anos. Curioso que que muitos dos que então aplaudiam na 1.ª fila e achavam que era apenas um “estilo” (quando era muito mais do que forma, 100% substância e a verdadeira essência), só viam o que queriam e agora estão do outro lado da barricada.


Fica o alerta, porque no próximo dia 15 irá realizar-se uma assembleia geral extraordinária do Sporting Clube de Portugal, cuja ordem de trabalhos contempla o recurso das suspensões impostas a alguns membros do deposto Conselho Diretivo. O facto de o anterior presidente ter sido deposto e suspenso da condição de sócio (já nem falo dos acontecimentos judiciais recentes) parecem não ser suficientes para deixar para trás um período negro da nossa história, pelo que importa confirmar em AG essa mesma suspensão, algo que está agora na mão dos sócios. Mas os atuais órgãos sociais não podem apenas esperar o decurso do tempo, há mais, muito mais a fazer nesta matéria. 

Da parte do Conselho Diretivo, apressar o fim da auditoria forense e divulgar a mesma aos sócios, sem limitações de qualquer espécie, para que não falte transparência a todo o processo. Já o Conselho Fiscal e Disciplinar tem em mãos um processo contra todos os que designaram órgãos sociais sem qualquer suporte estatutário, acto nunca visto, de extrema gravidade e que nunca mais devia poder repetir-se. Por fim, a Mesa da AG deve promover uma verdadeira reforma dos estatutos, com real participação dos sócios, discutindo os mesmos, artigo a artigo, “como manda a boa técnica” referiu em fevereiro passado o atual Presidente da Mesa. 

Concluídas as referidas medidas, haverá então condições para unir o Sporting e os sportinguistas, mas só se consegue unir quem quer essa união. 

Rui Morgado 

P.S.: Folgo em verificar que ontem a AG voltou a ser um acontecimento privado, entre sócios, sem a transmissão televisiva para o exterior que foi regra nos últimos tempos.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Keizer Chief

A míngua de boas exibições era tanta que, por comparação com o passado recente, o jogo de ontem em Baku que quase parecia um concerto. Há obviamente ainda muito por fazer, mas Marcel Keizer está obviamente a marcar pontos. E não vale a pena vir com a conversa que o adversário era fraquinho porque isso também era o Loures, o Estoril e até Volska Poltava, que apesar de lhes termos ganho, fizemos um dos piores jogos do Sporting de que tenho memória.

Simplificar processos parece ser a receita de Marcel Keizer. Os jogadores referem-se a isso sempre que são chamados a pronunciar-se e o resultado está à vista na subida de produção de jogadores como Bruno Fernandes, Gudelj, Nani e até mesmo Diaby e na aparição saído do meio do espesso nevoeiro de Wendell. A brincar, a brincar foi a segunda mais expressiva vitória na Europa, não tendo faltado nestes anos vários Sekenderbeus a quem afinfar idêntica receita. O próximo jogo com o Rio Ave será um bom teste de aferição para Keizer e a sua banda.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

André Geraldes, o capacete azul

André Geraldes, de forma surpreendente, escolheu a CM TV para dar uma prova de vida. Não me referiria à entrevista se ele não versasse dois temas importantes que continuam, um mais do que outro, a marcar a actualidade leonina. 

A primeira nota vai para a escolha do canal. Entre tantos disponíveis escolheu logo o pior. Ou então Geraldes andou muito desatento no período em que exerceu o cargo de Team Manager.

A segunda tem a ver com o frase "(...) Tinha uma data de coisas para lidar, estava a tentar fazer o papel da ONU". 

Ora a frase encerra com precisão a actuação da administração de então e onde era Team Manager: tal como a ONU, nos assuntos mais incómodos e escaldantes, o resultado da sua acção foi mais ou menos semelhante: muita retórica, poucos resultados práticos. Senão repare-se na sequência dos eventos, numa espiral em crescendo de confrontação com elementos da Juve Leo e nenhuma medida preventiva e dissuasora foi tomada. 

Confrontação na Madeira, onde Geraldes se deixa ficar de lado, tendo sido Jorge Jesus o elemento que tomou a defesa do grupo de trabalho.

À chegada a Lisboa foi a espera nas garagens.

O sucedido em Alcochete. Ao contrário do que parece agora quererem normalizar, não é minimamente aceitável pelo tempo e pelo modo a forma como a Academia foi invadida, com os agressores a passearem-se como se estivessem a ver as montras da Avenida da Liberdade.

Não sei nem preciso de saber se existiu instigação interna para que estes eventos ocorressem. Não sei nem tenho que saber se há ou não responsabilidades criminais, tenho apenas as minhas convicções sobre o que sucedeu. E aí é para mim bastante claro que houve uma enorme incompetência em toda actuação da administração e é dela que todos os responsáveis têm que prestar contas aos associados pelos prejuízos causados.

Os anglófonos têm uma palavra para isto: accountability. A falta dela é aquilo que nós por cá designamos como o eterno celibato da "culpa", acaba sempre por morrer solteira.

Quanto ao caso Cashball, espero obviamente que seja como ele diz e que o envolvimento do clube não seja mais do que a vontade desviar as atenções do caso dos emails e "e-toupeira" (isso sou que digo). Quanto ao André Geraldes propriamente dito, que seja feliz nas suas novas funções.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Emissão Obrigacionista Sporting – Subscrever porquê?

NDR: este post foi escrito pelo meu amigo José Gomes 

Deixem-me iniciar este post com um preâmbulo. Eu, como muitos de vocês crescemos num mundo em que o desporto e os clubes eram paixão, seriam quiçá também negócio, mas esta ultima vertente era apenas a necessária para que o resto funcionasse.

O mundo mudou e as organizações desportivas como o Sporting também. Não há como fugir da realidade, mesmo que não gostemos dela. Mas há como nos adaptarmos a ela, sem perdermos a nossa identidade, os nossos princípios, a nossa ética pessoal e de grupo.

O Sporting Clube de Portugal tem sido ao longo destes últimos anos e quando a vertente negócio se sobrepôs à vertente paixão uma presa permanentemente alvo da atenção de alguns abutres que gostariam de a capturar. Até agora conseguimos resistir e o Clube é nosso. E com o Clube, o seu ativo mais precioso, a SAD, o futebol do Clube. A SAD tem sido um alvo mais apetecível que as dos rivais pela nossa desunião, pelo desespero que a falta de vitórias no futebol acaba por trazer, pelos seus problemas financeiros. Mas acima de tudo pela nossa incapacidade de traçarmos um caminho de exigência a quem nos tem liderado nas ultimas décadas. Desperdiçamos as nossas energias em permanentes lutas internas estéreis e não somos capazes de nos unir para exigir.

Queremos que o Nosso passado seja o Nosso Futuro?

Chegamos a este garrote financeiro por razões várias e não interessa agora estarmos a desperdiçar as nossas energias á procura de culpados. Porque isso não resolve o nosso problema. O problema é uma asfixia financeira grave que pode comprometer o futuro que queremos. E que acredito, mesmo não tendo votado na lista vencedora nas ultimas eleições, que esta Direção é capaz de oferecer muito ao Sporting. Acima de tudo, um rumo! Porque tem gente muito capaz, para lá do seu Presidente. Porque é uma equipa!

Para isso, é necessário que esta emissão obrigacionista seja um sucesso, mesmo relativo, não se atingindo os 30M€ inicialmente previstos. Essa almofada financeira vai ser a rampa de lançamento para todo o saneamento desportivo e financeiro que é necessário fazer. Sem ela, fica tudo mais difícil.

Foi lançada num momento particularmente difícil a todos os níveis. Principalmente para captar o investimento dos investidores institucionais que seriam o primeiro grande foco. Desde logo, o não reembolso da emissão anterior nos prazos inicialmente previstos retira confiança aos potenciais investidores. Depois, temos Alcochete, o cashball e a falta de confiança em que no curto prazo seja possível maximizar as receitas da sociedade, até pelas dificuldades em entrarmos no curto prazo no caldeirão da Champions.

Essas são as dificuldades. A mensagem de esperança é que os sportinguistas acreditam. E, racionalmente, têm razões para acreditar. Com a almofada financeira que esta emissão possa trazer e com mais alguns milhões que venham do Gelson, é mais que possível normalizar a sociedade e fazê-la seguir outro rumo,. Esta Direção já mostrou que é capaz disso e que está a trabalhar bem na sombra, sem ruído. A maneira como esta operação foi montada, contra ventos e mares é o melhor exemplo disso.

Ou seja, não vindo os investidores institucionais do modo como seria desejável, temos de ir NÓS. Porque o Clube é NOSSO, porque nós somos responsáveis pelo que lhe vier a suceder. Porque temos de ser nós a cuidar do que é nosso.

Além disso, a taxa oferecida por esta emissão é de quase 4% líquidos. E os custos, para quem já tenha ações comissionadas em qualquer banco são muito baixos (rondarão qualquer coisa entre 15 e 20 Euros, no total, para investimentos até €5.000,00).

Acreditar no Sporting é acreditar em nós. Porque nós é que somos o Sporting! E é construir um futuro sustentado que todos queremos. Quem não for agora a esta emissão, pode amanhã lamentar muito não ter ajudado o Sporting quando o Sporting mais precisava de ter a sua base para construir outro futuro. E pode estar a entregar o Sporting de bandeja a quem nos o quer roubar. Para ser sua propriedade. Quem acha que este pode ser o caminho, deve olhar para o Belenenses e tirar as devidas conclusões. Destruir é fácil e rápido. Reavermos o que é nosso pode ser uma tarefa praticamente impossível.

Acabo como comecei. A emissão será sempre um bom negócio para quem investir (obviamente tem um risco, mas não é a PT, nem é o BES). Mas acima de tudo, a participação dos sportinguistas pode evitar que o Sporting passe a ser SÓ e APENAS negócio….

Eu já subscrevi 6ª Feira. Agora passo-vos a palavra a vocês, meus irmãos da savana! Que é onde vive o Leão! Que todos queremos forte e bem alimentado, para capturar as suas presas como fez domingo no João Rocha!


José Gomes

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O grande desafio de Marcel Keizer está a começar

Se o despedimento de Peseiro não pode ser considerado uma grande surpresa, talvez o momento escolhido para o realizar o tenha sido. Mas a grande surpresa seria a revelação do nome escolhido para a liderança da equipa técnica da equipa principal do futebol do Sporting: Marcel Keizer. O grande desafio que tem pela frente está prestes a começar, com o primeiro jogo oficial.

Numa altura em que a nova administração ainda procura a afirmação em circunstâncias difíceis, a escolha natural e esperada seria um nome consagrado, de curriculum recheado de vitórias. Dessa forma a direcção comprava algum tempo da tolerância  que normalmente é concedida aos nomes mais conhecidos e titulados. Ou talvez um nome nacional ou já conhecedor das especificidades do nosso campeonato.

A preferência por uma escola de treinadores - a holandesa - mergulhada no ocaso, depois de ter liderado uma profunda revolução no futebol mundial parecia de todo improvável. As lições deixadas pelo mestre Rinus Michels e bem aproveitadas pelos seus inúmeros discípulos foram cristalizando no e conhecendo antídotos mais ou menos eficazes. Com o tempo  não sofreram actualizações  no seu país de origem e, desde que Johan Cruijff se aposentou, são de outra nacionalidade aqueles que aperfeiçoaram o seu rico legado, mantendo-o como vencedor.

Refeitos da surpresa, há que perceber a decisão. Gostando-se ou não do nome escolhido, há pelo menos que reconhecer que a escolha não pode ter sido casual, há ali muito de objectivo e intencional. Há que reconhecer também a coragem em tomá-la porque, como foi já dito acima, se não foi o brilho do curriculum, a escolha de Marcelo Keizer configura pelo menos a busca por um potencial que se crê que ele possua.

Desse potencial há um que está claramente identificado: a atenção dada à formação. Se há alguma coisa que ressalta do curriculum de Keizer é precisamente o seu trabalho no Ajax Jong, a equipa B que pontua no escalão secundário da liga holandesa. Foi sob a sua batuta que o clube de Amsterdão ofereceu ao futebol mais um lote notável de jogadores como Onana, de Ligt, de Jong, ou Justin Kluivert. Um outro nome que fazia parte desse lote - Abdelhak Nouri - já não é jogador de futebol e a forma trágica como esse desaparecimento sucede acabou por ser determinante para a rápida saída de Keizer do comando da equipa principal do Ajax, quando se esperava a continuidade do trabalho efectuado na segunda equipa. Como Frederico Varandas seguiu desde aí o seu trajecto até ao Al-Jazira é seguramente uma das grandes interrogações desta contratação.

Mas por mais proveitoso que venha a ser o trabalho do treinador holandês no aproveitamento da Academia, e por mais que sejam os jogadores que venha a revelar, serão os resultados que servirão de barómetro e determinarão a longevidade da sua presença em Alvalade. Questões de ordem pessoal, como as da sua personalidade e respectiva adaptação a Portugal, ou do seu relacionamento com o plantel, ou mesmo profissionais como o modelo de jogo e a operacionalização das suas ideias e aplicação ao treino, são certamente importantes. 

Há que reconhecer que Keizer não estará sozinho na sua tarefa. Há um trabalho de fundo que tem vindo a ser realizado no sentido reestruturar o futebol leonino, dotando-o de recursos humanos que permitam a realização de um trabalho sustentado e não apenas uma aposta do tipo "all in", como a realizada nas épocas de Jorge Jesus. Uma regeneração há muito necessária até por comparação de estruturas dos "Três Grandes".

Mas num clube como o Sporting os resultados são quase sempre o mais importante. Quase porque, como se viu com Peseiro, os resultados nem foram o pior, se compararmos com a pobreza das exibições. A tentativa de passar a ideia de que "ainda estamos em todas as frentes" não vingou nem poderia vingar, porque a ausência do grau mínimo de "nota artística" não era compaginável com  o estatuto de grande e inclusive retirava a esperança (ou até a ilusão...) de manter a luta por um lugar no pódio sequer. Este discurso de "todas as frentes" só foi possível pelo começo anormal dos principais rivais, ao perderem pontos de forma pouco esperada. Em condições normais, a frente do campeonato estaria ainda mais longe do que já está a da Taça da Liga, onde o Sporting defende o título.

É aqui que começa o primeiro grande trabalho de Marcel Keizer: colocar a equipa principal do Sporting a jogar de forma mais atractiva, não só para devolver a esperança, mas também o gosto pelo jogo. Grande mas também complexo. Não apenas porque o tempo e as condições estão longe de ser as ideais, mas também pelas circunstâncias em que recebe a equipa das mãos de Tiago Fernandes. O segundo lugar herdado funcionará como uma medida de comparação e avaliação do trabalho do treinador holandês e daqui a um mês de Tiago Fernandes só se lembrará o ineditismo do resultado com o Arsenal e a invencibilidade. Que tenham sido apenas três jogos, o que é manifestamente insuficiente para uma avaliação pouco ou nada contará.

Em condições normais Marcel Keizer teria a época em curso para lançar as bases do seu trabalho e das suas ideias para abordar a próxima época num plano mais próximo da concorrência. Mas condições normais é tudo quanto está longe de se verificar num Sporting ainda a viver na agitação permanente que as réplicas do profundo abalo sofrido na época transacta provocam. Se se espera que apoio não lhe falte a nível da estrutura directiva - pela clara aposta pessoal do seu líder, Frederico Varandas - sobram muitas dúvidas pelo lado externo. São tão vastos os problemas e as divisões, que só um percurso imaculado permitirá a estabilidade necessária para as grandes conquistas. O desafio de Marcel Keizer é de facto enorme. Mas não é apenas dele, é de toda uma instituição que pela enésima vez volta a lançar os dados à procura da sorte.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

6 notas sobre a detenção de Bruno Carvalho

1- Dificilmente alguém terá de facto sido surpreendido com a detenção de Bruno de Carvalho, quer face aos rumores que há muito circulavam, quer mesmo atendendo aos muitos indícios que o ligavam ao que aconteceu em Alcochete, a 15 de Maio de 2018.

2- Independentemente do grau de envolvimento de Bruno de Carvalho nos factos ali ocorridos, há que deixar bem claro o meu repúdio pelo tempo e pela forma como a detenção ocorre e o espectáculo que se segue. A presunção da inocência é um valor basilar da democracia e mesmo os réus condenados a pena transitada em julgado perdem a liberdade, mas não têm que abdicar da sua dignidade. A forma como a justiça portuguesa se comporta recorrentemente nestes casos é um atestado de menoridade à nossa democracia.

3- Apesar do que é dito acima há também que reconhecer que o tratamento do caso de Bruno de Carvalho nada tem de excepcional, infelizmente. Pena é que alguns só agora tenham acordado para esta realidade, o que me leva a crer que as preocupações são outras, que não as da administração da  justiça, propriamente dita. Pode até ser comovente, mas são no mínimo ridículas as preocupações com a saúde da nossa democracia por parte de quem ainda hoje não aceita os resultados expressos por uma maioria significativa dos sócios do Sporting. Ser leal ao Sporting significa aceitar as regras, os limites dos estatutos e as escolhas da maioria dos associados, especialmente quando não nos são favoráveis. De outra forma é desejar o caos e dele nunca sairá um clube saudável e suficientemente forte.

4- Se o tratamento agora dispensado a Bruno de Carvalho merece o nosso repúdio, convém contudo que não se extrapole daí para exercícios de vitimização ou teorias delirantes de conspiração. Até prova do contrário é inocente. Mesmo que não seja declarado culpado é porém responsável pelo que aconteceu e das respectivas consequências. Se Bruno de Carvalho é vitima de alguma coisa é-o em primeiro lugar de si mesmo. Assinalo com muita pena e sobretudo desilusão, talvez a derradeira, que em todo este processo a sua preocupação se tenha mantido apenas nos horizontes dos seus interesses. Deixou, ou antes, foi obrigado a deixar, um clube completamente estilhaçado, importando-se agora absolutamente nada com as consequências e com outro futuro que não fosse apenas o dele.

5- Independentemente do grau de regozijo ou de rejeição que este caso provoca nos adeptos Sportinguistas que ninguém duvide que o Sporting continua  a ser, desde o fatídico dia 15 de Maio, o grande prejudicado. O circo mediático não tinha levantado sequer a tenda e aguardava pacientemente para nos proporcionar o triste espectáculo que agora se desenrola à nossa frente.

6- Se se compreende que quem vive do dito espectáculo o ponha a render, já não se compreende que haja Sportinguistas que aceitem nele participar como tristes figurantes de mais um filme de muito mau gosto.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

sábado, 10 de novembro de 2018

...E a confirmação aí está!

E chegou com uma imagem que brilhantemente representa o basquetebol do Sporting. O editor da notícia com a confirmação oficial do Clube da entrada na próxima época na Liga Placard teve a excelente ideia de escolher a imagem de Manuel Sobreiro, cheia de dinamismo e perspicácia.

Sobreiro foi, e continua a ser, uma figura emblemática do basquetebol leonino. Apareceu, ainda sem idade para poder jogar oficialmente, no campo da sede da Rua do Passadiço e logo nesse ano começou a vestir a listada verde-e-branca que só deixou de vestir quando terminou a sua carreira de jogador.

E o exemplo de Sobreiro é emblemático porque representa o arranque de uma época de brilhantismo do basquete Leonino. Tinha terminado o ciclo de uma equipa brilhante onde sobressaíam nomes como Fonte Santa, Garranha ou Abílio Ascenso (também grande praticante de atletismo) e onde estavam a chegar à veterania homens como José Mário ou Hermínio Barreto.

Decidiu então o Sporting contratar o treinador brasileiro Prof. Guilherme Bernardes, que veio para Portugal para exclusivamente ser treinador de basquete, coisa nunca vista na altura. Bernardes treinava todas as equipas do Clube. Seniores (1ª e 2ª categoria), juniores e infantis os únicos escalões existentes. Nos escalões de infantis e juniores chegou a haver quatro equipas por escalão. Chamávamos, por graça, Academia do Passadiço.

Formaram-se aí as bases para o Sporting voltar ao topo do basquetebol português, que começou com o título nacional de 1969 e que terminou com os campeonatos de 1981 e 1982, quando intempestivamente a secção foi “suspensa”.

Para o próximo arranque as bases já estão lançadas. Já vamos na sétima época depois de alguns amantes do Clube e do basquete fazerem voltar o nome do Sporting aos pavilhões onde se joga a bola-ao-cesto. Estamos na terceira época em que o basquetebol já é modalidade oficial do Sporting. Os resultados obtidos pelas diversas equipas mostram que se tem feito um bom trabalho. Confiemos.
Frederico Varandas, Miguel Afonso e Miguel Albuquerque têm agora oito longos meses pela frente para, aproveitando o que já está feito, criar as estruturas necessárias para que o regresso do basquetebol leonino ao mais alto nível seja um sucesso.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Um pequeno (mas também grande) cobertor verde e branco

O Sporting conseguiu ontem no Emirates marcar dois importantes pontos: um para a Liga Europa, que nos deixa a praticamente outro tanto para carimbar o passaporte para a fase seguinte. Outro foi na propagação da imagem de um grande, grande clube através da actuação que fez abrir a boca de espanto os próprios adeptos arsenalistas, que estão habituados a receber "la crème de la crème" dos clubes mundiais.

Vamos primeiro ao jogo e sobre ele há muito pouco a dizer. Tiago Fernandes tem o mérito de ter traçado um plano realista para o jogo face às circunstâncias. A realidade nem sempre é muito atractiva, é o que é. E de facto não foi uma exibição muito bonita a que ficou registada no estádio situado em Ashburton Grove. Mas do outro lado da moeda está não só o ponto conquistado, como foi referido acima, mas trata-se do primeiro ponto conseguido aí por um clube português. Até ontem eram mais notórias as noticias de regresso de saco cheio de quem lá se deslocou.

Pode-se dizer com propriedade que o cobertor verde e branco era curto mas de comprimento suficiente para deixar a salvo as redes de Renan. Daqui a uns ano o tempo vai-se encarregar de diluir os pormenores do jogo e deixar em destaque o ineditismo do ponto conquistado. Será precisamente o mesmo que sucederá com as belas exibições feitas em anos passados em Madrid e noutros palcos de sonho, mas sem qualquer resultado prático de monta. Como costumo dizer a obtenção de um resultado importante favorável é a única justificação aceitável para a oferta de maus espectáculos. Parabéns por isso a todos os envolvidos neste pequeno mas importante passo, especialmente pelo momento em que foi alcançado, quando as expectativas eram em muitas conversas apenas reduzidas a quanto íamos perder.

Sobre a a presença dos nossos adeptos, foi de facto um espectáculo maior que o próprio espectáculo. Não faltam por isso hoje referências elogiosas. Os adeptos foram o conforto necessário de suporte para as naturais dificuldades. Um grande cobertor verde e branco que se estendeu das bancadas até ao relvado. Sé é surpreendente para quem não conhece o nosso amor ao clube. É um facto que ele nem sempre é bem canalizado mas é uma das grandes forças que mantém a referência de um clube grande. Uma mistura de amor filial com amor paternal, que torna a nossa relação praticamente indestrutível. Onde Tu fores nós vamos lá estar, Grande Sporting.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A vertigem do sucesso num clube sem tempo nem tolerância

Ontem celebraram-se, entre muitas outras, duas efemérides futebolísticas. Duas efemérides de sinal contrário, uma delas relacionada com o Sporting e a outro pertence já às lendas do futebol mundial. Uma coincidência interessante e que serve de ponto de partida para este post e com especial enfoque na actual situação do Sporting Clube de Portugal.

A coincidência:
A 6 de Novembro de 1986 Alex Ferguson foi nomeado treinador do Manchester United. Realizaria 1.500 jogos, contabilizaria treze Premier League, cinco FA Cups, quatro Taças da Liga, 10 Charity Shields Cup,  duas Champions League, 1 Supertaça de Europeias , uma Taça Intercontinental, um Mundial de clubes. 

Não se pense contudo que Sir Alex teve vida fácil em Manchester, como não havia tido em Aberdeen, de onde provinha. No clube da cidade escocesa de um dos mais importantes portos do Mar do Norte, demorou duas épocas para conseguir chegar à velocidade de cruzeiro nas conquistas. Frequentemente entalado entre Celtic, Rangers e Dundee United, o Aberdeen sairia do atoleiro onde se encontrava encalhado desde 1955, com Ferguson ao comando que daria o título, pela primeira vez na época 83/84, feito repetido na época seguinte. 

Como já vinha vencendo a Taça da Escócia há três temporadas seguidas, os "Dons" haviam carimbado o ingresso na já extinta Taça das Taças. Aí, obrigou a Europa do futebol a perguntar quem eram estes escoceses. Quando a resposta chegou já eles iam de regresso com a conquista da competição, isto depois de eliminar o Bayern de Munich do mestre Udo Latek e dos seus alunos Pfaff, Klaus Augenthaler Dieter Hoeness e Rummenigge. Bateria na final o sempre todo poderoso Real Madrid do mítico Di Stefano como treinador e jogadores Camacho, Juanito, Stielike e Santillana. Como registo curioso, assinale-se no ano seguinte o encontro nas meias-finais com FC Porto de Pedroto e Morais (que viria a ser técnico do Sporting por pouco tempo, vitimado por um acidente de viação) em que os da Invicta levariam a melhor até à final perdida de Basileia, ante a Juventus de Boniek e Platini.

Em Manchester seria bem pior. Já ninguém acreditava que este escocês de  Glasgow seria capaz de interromper mais de duas décadas sem ver o caneco maior da Liga Inglesa. Ia já no seu terceiro ano a ouvir assobios e ler tarjas a espelhar a descrença que se ia instalando, quando arranca do meio da tabela já em Novembro para um final em que deixa a dez pontos o Aston Villa. Para tal seria determinante o ingresso de Cantona e a sua associação virtuosa com Mark Hughes. O resto da história já foi contada acima. Pelo menos o resultado de muitas tardes e noites de glória pontuadas com cânticos personalizados em seu nome e honra.

No mesmo dia de Novembro, mas em 2009, Paulo Bento demitia-se do cargo de treinador do Sporting. Várias vezes apontado como um possível Ferguson à escala leonina, não resistiria a um mau começo de campeonato e seria vitima colateral das guerras internas e de uma presidência infeliz, com má relação com os adeptos e maus investimentos no futebol. O desgaste provocado por quatro anos sem nenhum campeonato nacional fez o resto. É no entanto um dos treinadores com mais tempo no comando técnico e o mais titulado deste século: duas taças de Portugal e duas Supertaças Cândido Oliveira. Sem nenhuma taça que testemunhe, ficou a aposta nos jogadores da casa, que acabaria por se reflectir nos cofres, no prestigio internacional e até mesmo com grande quota de responsabilidade na conquista do Europeu de França, pela selecção nacional.

Passou quase uma década desde então. O Sporting vive novamente um período conturbado e tantos têm sido os momentos semelhantes que deveria começar a equacionar incluir a palavra na sua heráldica institucional. Apresta-se a entregar a um novo treinador, um quase desconhecido, a responsabilidade de o resgatar a seu segundo período de maior jejum e o relógio continua a contar. Se quer dirigentes e adeptos não perceberem que um treinador é uma peça importante, mas apenas uma peça de uma engrenagem, o seu nome será mais um, apenas. 

No actual momento que o Sporting vive o treinador e até mesmo os jogadores são frequentemente usados como peças de xadrez num tabuleiro "politico" onde debatem interesses de pessoas, grupos e grupelhos. É provável que a tolerância seja reduzida e o tempo que o Sporting precisa para se reconstruir dos escombros dos últimos meses não venha ser concedido. Se for esse caso o Sporting nunca encontrará o seu Ferguson. E até a memória de Paulo Bento com apenas quatro troféus secundários parecerá um oásis muito longe de alcançar.

Terá sido por acaso que o período de domínio leonino do futebol luso tenha surgido da estabilidade dos anos de Joseph Szabo e tenha terminado após se iniciar a dança de cadeiras, mano a mano com a instabilidade directiva, que tem marcado a liderança técnica no Sporting?

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Pedimos desculpa por esta vitória, o caos volta já a seguir

Foi fechada da melhor forma a semana futebolística do Sporting, tão recheada de eventos. De todos o despedimento de Peseiro e a contratação de um novo treinador dominaram as nossas atenções. Mas não só as nossas mas, como é óbvio, a de todos os que vivem do futebol e à sua volta.

O despedimento do treinador e o que se vai dizendo de Keiser é o exemplo acabado de como para muita gente o Sporting é um clube maldito e que só o simples mencionar do seu nome lhes provoca as maiores descargas de bílis. Isto apesar de o clube andar arredado há muito das grandes vitórias. Por isso certamente que o melhor seja pedirmos desculpa pela vitória nos Açores, que a tantos deve ter custado a deglutir. E nesses tantos, infelizmente, contam-se alguns cada vez mais infelizes de se considerarem Sportinguistas... Não deve haver cera disponível para tanta vela posta a pedir que o caos se volte a instalar.

Sobre o jogo propriamente dito, há muito pouco a dizer de diferente do que se vinha dizendo. Não há milagres e nenhum treinador iria conseguir mudanças substanciais só pelo simples facto de calçar as chuteiras e dar um treino. Foi mais ou menos isso que fez o Tiago Fernandes. Mas fez mais alguma coisa. Promoveu Lumor, fazendo com isso que Acuña assumisse maior preponderância no nosso jogo. O jovem treinador foi feliz e teve a estrelinha que têm aqueles que não se conformam com o destino. Essa opção acabaria por ser decisiva para o resultado final, quer pelo golo, quer pela acção do médio argentino ao longo do jogo. A falha de Lumor no golo é bem menor que a de Renan, que estava de frente para o lance, embora se deva considerar também que a acção do vento favoreceu o movimento do homem que faz o golo, José Manuel.

Se ninguém esperaria nota artística de uma equipa que ainda anda à procura de o ser, não há quem possa reclamar do seu empenho perante um cenário completamente desfavorável, que se agravou consideravelmente com o tempo e o resultado. Com a agravante de que, no segundo tempo, a equipa ter que lutar contra o vento, embora com a tarefa facilitada pela expulsão infantil de Patrick. Se aquela veemência toda era por causa de um penalty claro, deveria ver o seu castigo agravado com uma ida compulsiva ao oftalmologista. Pelo menos... 

O resto do jogo a partir do golo que nos dá a vitória foi uma ilustração de quão incipiente são as defesas desta equipa perante qualquer adversário e até de si mesma. Quando se olha para a classificação é quase inacreditável que quem joga tão poucochinho esteja onde está e de esperanças intactas. E que até consegue dar a volta ao resultado a jogar com chuva e contra o vento...

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Despedir Peseiro: necessidade imperiosa ou erro estratégico?

Comecemos pelo principio: a escolha de José Peseiro para treinador do Sporting foi um rotundo erro. Não tanto pelas suas capacidades como treinador, mas pela ausência de tolerância a que estaria condenado pelo seu historial, particularmente o que ficou escrito na época 2004/05. A aura de azarado desaconselharia sempre a sua contratação num clube onde a história das últimas décadas está marcada também pela falta de sorte nos momentos de decisão. Tanto assim é que a rotura nesta mais recente ligação é potenciada por algo que nenhum treinador consegue evitar: os erros individuais. Não fora as falhas clamorosas de André Pinto e não estaríamos agora envolvidos em mais uma crise.

Mas se não fosse agora é muito provável  que a crise se estabeleceria mais adiante, noutra derrapagem qualquer. Ao contrário das expectativas criadas, só por milagre este seria o ano do Sporting. Os milagres por vezes acontecem, mas para isso é preciso um trabalho competente que manifestamente não foi feito desde o início da época e isso é cada vez mais perceptível à medida que esta avança. Preparação deficiente, plantel construído às prestações e cheio de fragilidades. Juntar a tudo isto uma comunicação "pateta alegre", que apontou ao título numa conjuntura altamente desfavorável, só serviu para confundir criar expectativas que nem em momentos de maior estabilidade foram cumpridas.

Todos os ingredientes para uma passagem meteórica de Peseiro estavam na panela, a cedência à pressão dos adeptos fez o resto. A decisão de Frederico Varandas parece ter muito mais a ver com a submissão a essa pressão do que sustentada na racionalidade. Um estádio vazio e ainda assim cheio de lenços brancos, uma derrota com quase uma segunda equipa de um Estoril de divisão secundária parecem estar na origem da rotura. Decisão que, pela declarações recentes, já estava tomada. Quer por não ser este um treinador escolhido pela actual direcção quer sobretudo pela paupérrima qualidade das exibições. Não se sabia era o timing em que ocorreria. Um grande sinal de falta de empatia é o facto de não haver aparições publicas de presidente e treinador registadas em imagens.

Ora o timing escolhido (?) tem todos os ingredientes de tragédia à espera de acontecer. Talvez o único treinador que aplacasse a impaciência e irracionalidade da turba fosse Leonardo Jardim. Mas o técnico madeirense tornou-se num peixe demasiado grande para as nossas redes. Ao passo que nós, o Sporting, somos precisamente a antítese de um clube atractivo para qualquer treinador, excepto, claro está, para os Vercauterens desta vida. Todos eles conhecem o passado recente e as dificuldades que enfrentarão. Nomes como por exempo, Rui Faria ou Paulo Sousa dificilmente arriscam a sua estreia a solo no futebol nacional nas condições que os esperariam.

Até ao jogo com o Chaves o Sporting tem jogos de quatro em quatro dias (Sta. Clara fora, 4/11, Arsenal fora, 8/11, Chaves casa, 11/11. Não há nenhum treinador do mundo que seja capaz de alterar o que quer que seja numa equipa que revela tantas insuficiências colectivas. Quando surgir algum espaço para treinar e tentar introduzir alterações entre 11/11 e 25/11, o Sporting poderá estar ainda mais longe dos seus rivais do que Peseiro nos deixou.

Frederico Varandas precisará muito mais do que de sabedoria na escolha do novo técnico. Apesar do futebol sofrível de Peseiro, o que será lembrado daqui em diante é que foi despedido a dois pontos da liderança. Inclusive por aqueles que pediam a cabeça do treinador desde a data do anúncio da escolha de Sousa Cintra. Ou pelos que, por razões consabidas, contestam o actual presidente desde a  comunicação da sua candidatura. Já o culpavam da presença do treinador, culpavam-no de não o despedir vão culpá-lo de o ter feito, bem como da escolha do seu substituto. 

Para se compreender inteiramente esta decisão de Frederico Varandas neste timing - que equivale a deitar fora uma espécie de seguro de vida - tem que se perceber o efeito da pressão dos adeptos sobre os órgãos sociais, em particular numa direcção à procura de afirmação num dos piores contextos internos de que tenho memória. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

“Se Varandas olhar para o vizinho do lado, não deverá ficar muito tempo"

Luís Filipe Vieira ontem na TVI:

"Se Varandas olhar para o vizinho do lado, não deverá ficar muito tempo".

É fácil de perceber o que pretende. Não é mais que um pedido de socorro, à espera de resposta que desvie o foco incómodo sobre a ruína e sem vergonhice que levou o nome de uma grande instituição do passado orgulhoso à imundice. Temos pena, ao contrário de tempos recentes, não lhe vamos dar mão. É chafurdar, é chafurdar...

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O que nos disse o presidente de "um clube ingovernável"

Surpreendeu muita gente e indignou outros o titulo da entrevista a Frederico Varandas. Obviamente que o Expresso tem de vender nas suas várias plataformas e iria escolher para o título uma "punch line". Talvez fique para outra vez a reflexão sobre a efectividade do titulo, mas ninguém ignora que a miríade de facções, sensibilidades e personagens de sensíveis a inchadas, é um factor que frequentemente enfraquece o clube. 

Mas tal não acontece tanto por causa da existência de várias formas de olhar a realidade, que faz da pluralidade Sportinguista uma riqueza, mas pela importância que os adeptos frequentemente conferem a quem as profere. São poucos os que hoje actuam e se pronunciam no universo Sportinguista de forma independente. O mais comum é reconhecermos nas opiniões o serviço prestado a um determinado interesse ou personagem, ou o receio de hostilizar a opinião do grupo a que pertencemos. É até comum sentirmos mais fidelidade nessas relações que no que aos interesses reais do Sporting diz respeito. E aí sim, o Sporting torna-se ingovernável, pelo excesso de ruído e irracionalidade à sua volta. 

"Não contem comigo para alimentar este circo."
A entrevista é oportuna e esclarecedora relativamente ao tipo de liderança que Frederico Varandas quer impor. Um estilo que contrastará de forma significativa com o que o precedeu. A frequência das intervenções até agora já assim o confirmam. Não haverá pois entrevistas frequentes, confissões de estados de alma via redes sociais, promoção pessoal à custa da exposição mediática que o cargo confere, críticas por essa via aos jogadores. Parece-me uma boa noticia, excepto para aqueles que viam no presidente do clube um guia espiritual, um pai ou uma mãe ausentes, líder de banda ou seita religiosa. Ou pelos que precisavam de frases fortes para se relacionarem com o clube ou até mesmo para bramir nas redes sociais. 

Se com esta nova atitude os protagonistas no Sporting voltarem a ser os atletas tanto melhor. E aqui e nomeadamente no relacionamento com os adeptos, há um grande trabalho a fazer, mesmo considerando as melhorias recentes. Mas ninguém admitirá que o silêncio seja a resposta sempre que o Sporting seja posto em causa. Obviamente que aqui não me refiro a qualquer obeso, jornalista de vão de escada que se use o nome do clube para se promover. O presidente do Sporting não deveria nunca descer à mesma pocilga onde estes seres se espojam.

"Sou muito pragmático e não me interessa nada do que ficou para trás, negócios Gestifute. Sim, o Jorge Mendes ajudou neste caso e os interesses do Sporting ficaram defendidos."
Pragmatismo talvez seja a palavra certa. É-me indiferente a quem o Sporting paga comissões nas transferências desde que os seus interesses  sejam defendidos. A Jorge Mendes cabe defender os seus e ao presidente do Sporting elegemos para defender os nossos. Os termos do negócio com o Wolverhampton foram explicados. 

Wolverhampton paga €18 milhões pelo Rui Patrício e o Sporting encaixa €14 milhões; os outros €4 milhões serão para os intermediários, sendo que a Gestifute, que era credora de €7 milhões do clube, abdicou de três. E o Rui abdicou de €1 milhão, do ano de contrato que restava do Sporting, e de €5 milhões, pelo prémio de assinatura. 

Longe de me deixar satisfeito pelos números envolvidos, atendendo ao valor de Rui Patrício, não deixam de ser valores muito semelhantes ao que havia sido negociado anteriormente em condições muito  mais favoráveis que as actuais. Mais do que um negócio é uma contenção ou prevenção de danos maiores. Avaliarei oportunamente a habilidade negocial de FV, assim o clube possa voltar a ter uma posição negocial forte na mesa de negociações, que manifestamente não é o caso das rescisões.

"Estes casos do Benfica são uma vergonha para o futebol português, uma vergonha"
Com esta frase lapidar ficou-se a saber que o Sporting não irá mudar as suas reivindicações relativamente aos vários processos a correr na justiça, fá-las-á provavelmente de forma diferente. Fica-se para já por saber como serão as relações institucionais entre os dois clubes e qual será o relacionamento com os demais clubes e instituições que o tutelam. Era bom que a menção "en passant" ao processo cashball deva ser tida por nós como um sinal de despreocupação... 

"Sinto-me satisfeito com a qualidade do jogo? Não. Nem eu, nem o grupo, nem o treinador"
Falar sobre um treinador que muitos adeptos colocaram a a cabeça a prémio desde o primeiro dia seria sempre matéria sensível. Se vai falar de um treinador que não se escolheu, como foi o caso, mais ainda. Mas a matéria era incontornável, tão incontornável como passível de milhentas interpretações. Além do óbvio que se lia - que o futebol não estava à altura do mínimo desejável e possível  - ficou a desvalorização do momento actual por força do contexto com dois objectivos claros: apontar o foco no futuro e aliviar a pressão sobre a actual direcção pelo facto de não ter tido outra possibilidade que não "herdar a criança".

"O empréstimo obrigacionista está montado e intermediado pelo banco Montepio, com cerca de €30 milhões para emitir em dezembro"
Este anúncio, já conhecido do dia anterior à entrevista, veio desmentir rumores postos a circular, sabe-se lá com que realismo ou que intenções ocultaria, de que ambos os dossiers seriam adiados. Num momento em que os resultados no futebol são o que são, uma escorregadela aqui seria a primeira grande derrota de FV. Viria dar razão ao seu "amigo" Ricciardi que "que até foi o único a não me dar os parabéns", segundo FV. Mais do que isso seria um foco de profunda preocupação. Porque quem não tem dinheiro não tem vícios e eu quero que este meu vicio passe de geração em geração  e dure até à eternidade.

sábado, 27 de outubro de 2018

Peseiro precisa de fazer um nova versão de si mesmo

Não foi uma história com final feliz a primeira temporada da série Peseiro em Alvalade e a segunda temporada em curso foi realizada sob condições pouco favoráveis para que haja um final alternativo. Não é preciso repisar tudo o que foi o final da época transacta que levou  ao desmoronar do edifício que sustentava o futebol leonino. Mas o futebol tem uma memória selectiva quando os resultados não aparecem. No caso do Sporting é até um pouco estranho porque bastou um resultado invulgar - o de Portimão - para fazer regressar a descrença e até a contestação. 

É um facto que nada está perdido mas a percepção conta mais que a aritmética. Mas, mais do que os pontos perfeitamente recuperáveis que separam o Sporting do topo da liga, é a impressão de que não será com o nível do futebol exibido nos últimos confrontos que o Sporting fará face aos seus objectivos.

Ora é precisamente aqui que estamos: quais são mesmo os objectivos realizáveis para uma equipa que nasceu da desestruturação do seu departamento de futebol e que compete tão afincadamente com os seus rivais directos como com a sua desorganização e caos interno? Talvez seja essa a matéria a ,carecer de maior esclarecimento, porque nada pode ser pior do que traçar objectivos sobre noções irrealistas e cheias de equívocos.

É talvez por aqui que a época começa por correr mal. Por uma comunicação irrealista relativamente aos objectivos, quando Sousa Cintra aponta o Sporting como candidato ao titulo em contraste com o ponto de partida a instabilidade interna e um plantel francamente desequilibrado e notoriamente inferior aos competidores directos. No outro extremo ficam as recentes declarações de Peseiro em que "perder por poucos" parecia ser o objectivo do jogo com o Arsenal. Declarações inadmissíveis e desmobilizadoras e que soam em tom desafinado com a ambição dos adeptos de um clube que sempre tiveram como exigência mínima futebol atractivo, mesmo nos momentos de menor fulgor.

Peseiro tem também escolhido as dificuldades sentidas na organização da época. Dificuldades essas que foram bem evidentes no estágio mais marcado pelas anulações em cima da hora do que pela qualidade dos adversários e exibições promissoras. Outro dos motivos invocados tem sido a profunda mudança no plantel registada no plantel. Mesmo reconhecendo a validade de ambos os motivos é preciso ver algo de mais afirmativo em campo à medida que o tempo se distancia do inicio da época para que não soe a desculpas de mau pagador de promessas. 

Sirvamo-nos como exemplo duas equipas de clubes com responsabilidades menores que a de José Peseiro. Quer o Rio Ave quer o Santa Clara reformularam os seus plantéis. Em consequência tiveram inícios de época complicados, mas paulatinamente foram-se equilibrando e estão agora a ladear o Sporting. A avaliar pelos últimos jogos o Sporting tem seguido uma trajectória oposta. Após o que se pode considerar um bom resultado no dérby, ao invés de sair mais confiante e moralizado e dar nota disso na evolução do futebol exibido o Sporting estagnou num nível que, a manter-se, será altamente comprometedor. E aí já nem estamos a falar de ambições de títulos mas de uma presença minimamente condizente com o seu estatuto de histórico e grande do futebol nacional.

Peseiro precisa agora de se reinventar. Depois de um futebol de vertigem na época de 2004/05 sem títulos, mas de futebol sedutor, temos agora uma nova versão demasiado contida, um futebol de receios e atilhos. A continuidade deste nível dificilmente dará outros frutos que não o recrudescer da contestação até ao insustentável para ele é de igual cariz para a direcção recém empossada. Será possivel essa reivenção, um Peseiro 3.0 no curto prazo?

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Um Arsenal de problemas a caminho

No que a problemas diz respeito temos o arsenal completo. Dispensaríamos por isso de ter que enfrentar agora precisamente o Arsenal de Londres, que ontem carimbou a sétima vitória consecutiva na Liga inglesa e décima no tal das competições que se encontra envolvido. E algumas delas, duas para ser mais exacto, foram alcançadas com uma mudança radical na equipa titular. Provavelmente é o que vai acontecer amanhã, repetindo o que já havia acontecido nos jogos anteriores da Liga Europa.

Soluções é o que mais abunda neste Arsenal de Emery. Soluções ao nível individual, colectivo e cambiantes tácticas. Este ano já jogaram em 4-4-2 como em 4-2-3-1, como ontem por exemplo. Quem tiver possibilidade de ver o jogo de ontem, com o Leicester, tem uma boa oportunidade para acabar de vez com o mito de que o duplo pivot está a acabar com o jogo do Sporting. Esse é um problema que o Arsenal não tem, apesar de utilizar esse recurso. O problema, é bom de ver, não é o modelo mas a sua concepção e a respectiva adaptação dos jogadores. Mas é sobretudo a ausência de dinâmica, com os pivots, que deviam lançar o jogo, a receber demasiadas vezes a bola de costas para o sentido ideal do jogo, desencontrados ou sem conseguir contactar com os apoios para a progressão.

Aguardo com alguma curiosidade as opções de Emery, sobretudo relativamente a Mezut Ozil. O seu papel na derrota da equipa de Adrien foi determinante e alguns momentos roçou o brilhantismo. Para lá chegar passou no entanto por algumas dificuldades nos momentos iniciais. Porém, a partir do momento em que o virtuoso alemão de ascendência turca começou  a internar-se no seio das linhas Foxes, os problemas sentidos para ligar o jogo gunner acabaram e com ele surgiram as oportunidades e os golos com toda a naturalidade. E, saliente-se, em abundância suficiente para contornar o embaraço de um auto-golo concedido por um infeliz Hector Bellerin.

Até ao começo do recital de Ozil o Leicester estava a aproveitar muito bem a projecção dos laterais gunners, com Vardy e Ieanacho a moverem-se muito bem no espaço deixado vago, criando enormes dificuldades aos centrais da casa. A repetir-se este cenário, abre-se a oportunidade para abertura de espaços para a subida ao centro de Bruno Fernandes e Nani, aproveitando a velocidade de Jovane e o desposionamento provocado pelas deambulações de Montero nas laterais.
Do ponto de vista defensivo esperam-nos grandes dificuldades. Mesmo sem Ozil, a presença entre linhas de Aubemeyang e Lacazette são suficientes para nos criar imensos problemas. O sentido de baliza do gabonês conhecemos já nós sobejamente da última passagem pela Liga dos Campeões. 

Creio contudo que o maior obstáculo do Sporting são as suas próprias dificuldades, expressas até agora nos últimos resultados. O contexto actual é de desconfiança interna e quando as fraquezas começam por aí as dificuldades crescem exponencialmente. Quem sabe não tem neste jogo com um adversário poderoso uma boa oportunidade para mostrar serviço e conseguir o doping anímico que as exibições não têm fornecido, e dessa fora desanuviarmos os nosso arsenal de problemas.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O que nos dizem os SMS

Um grupo editorial da nossa praça revelou ontem alguns dos sms trocados entre o presidente deposto e o seu braço direito, André Geraldes. 

Através da sua leitura percebemos a fractura irreparável que então existia entre o que deveria se o líder do clube e grupo de trabalho da nossa modalidade mais representativa. Dessa forma é possível perceber a desorientação e o "deus dará" que então grassava no seio do clube e que prenunciava o pior: o Sporting era uma desgraça para acontecer. Como foi com o Sporting funcionou a lei de Murphy:

"Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível"

Mas dizem-nos outra coisa, também importante e que não pode passar despercebido: a forma descarada como informação que deveria estar à guarda da justiça e que, para satisfação de interesses particulares, é exposta na praça pública.

Ao contrário do que possa parecer à vista desarmada ou até para alguns produtores de guiões de ficção cientifica verde e branca, nada disto favorece o Sporting. Nem o de antes nem o de agora. Ou se quiserem de forma mais clara, nem a gestão passada nem a actual. Antes pelo contrário e julgo que para o perceber nem é preciso fazer um desenho.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O regresso de Sousa Cintra



Já aqui havia dito que o grande erro de Sousa Cintra foi não ter aceite o preço que o Atlético de Madrid ofereceu por Gélson Martins. Hoje, na entrevista ao Record Sousa Cintra confirma a proposta - e acentua assim, face às circunstâncias, a impressão do erro cometido - mas insiste num outro, talvez de maior monta: a ideia de que somos tão candidatos como os demais. Até parece que não esteve em Portimão e não viu os jogos que se seguiram. Ou que não lê as noticias mais recentes, quando afirma que o Sporting vai ganhar todos os processos das rescisões. 

Seja como for é um documento importante de um dos actores mais relevantes do incrível verão que marcará para sempre a vida do Sporting, pelo que a sua publicação e leitura é obrigatória

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