quarta-feira, 14 de maio de 2014

Infelizmente a convocatória de Paulo Bento veio dar razão a muitos Sportinguistas

A pré-selecção de jogadores nacionais com possibilidades de representar Portugal no Campeonato do Mundo do Brasil já é conhecida. 

Lista de pré-convocados:

Guarda-redes: Anthony Lopes (Lyon), Beto (Sevilha), Eduardo (SC Braga) e Rui Patrício (Sporting).

Defesas: André Almeida (Benfica), Antunes (Málaga), Bruno Alves (Fenerbahçe), Fábio Coentrão (Real Madrid), João Pereira (Valência), Neto (Zenit), Pepe (Real Madrid), Ricardo Costa (Valência) e Rolando (Inter).

Médios: André Gomes (Benfica), João Mário (Vitória FC), João Moutinho (Mónaco), Miguel Veloso (D. Kiev), Raul Meireles (Fenerbahçe), Rúben Amorim (Benfica) e William Carvalho (Sporting).

Avançados: Cristiano Ronaldo (Real Madrid), Éder (SC Braga), Hélder Postiga (Lazio), Hugo Almeida (Besiktas), Ivan Cavaleiro (Benfica), Nani (Manchester United), Rafa (SC Braga), Ricardo Quaresma (FC Porto), Varela (FC Porto) e Vieirinha (Wolfsburgo).

Ajuste irónico da história
As primeiras reacções não se fizeram esperar. Nota nas nossas hostes para a indignação pelas ausências de Cédric e Adrien e, com menor expressão, por Carlos Mané. Provavelmente muitos dos que agora se indignam passaram os últimos anos a proclamar aos quatro ventos a "falta de qualidade" dos dois primeiros para representar o Sporting. Os mesmos provavelmente que hoje pedem ao "manco" do Carriço que ganhe a Taça Uefa ao SLB, ou destratam o André Martins. Afinal a convocatória de Paulo Bento é apenas um ajuste directo e irónico com os que assim procederam. 

Seguramente que nenhum dos referidos jogadores era então tão mau como advogavam, nem hoje tão bons, ao ponto de deterem o estatuto de incontestáveis na selecção nacional. Pelo menos para já, o futuro é bem capaz de se inclinar para lhes abrir as portas, basta olhar para a qualidade e idade dos que hoje os precedem nas escolhas.

Na cabeça de Paulo Bento
Não me surpreende a ausência de Cédric e Adrien embora a sua presença fosse mais do que justa. Terá pesado na cabeça de Paulo Bento a falta de contacto internacional de ambos os jogadores esta época, com a balança a pender para André Almeida e André Gomes, a somar à possibilidade de maior leque de funções a desempenhar.  No contexto de uma competição curta e intensa como um campeonato do Mundo é um dado a não menosprezar. Veremos qual deles aguenta até aos 23 finais. André Almeida por exemplo é bem capaz de estar atrás de João Pereira e Ricardo Costa na lista de laterais direitos, não me surpreendendo até que este último esteja na cabeça de Paulo Bento para ser titular frente à Alemanha, se atendermos às especificidades desse jogo. 

Também não me surpreende a ausência de Carlos Mané por troca com Cavaleiro ou Rafa. Qualquer um dos dois está alguns patamares acima, quer no plano técnico quer no físico, do nosso jovem extremo, que ainda tem muito que provar. É também muito provável que nenhum dos dois conste da lista final, o mesmo destino que seria provável com Mané.

O caso de Adrien é bem diferente. Se a minha avaliação do critério de Paulo Bento for correcta, a presença de João Mário é muito difícil de explicar, mais parecendo uma provocação. Paulo Bento ainda tem alguma coisa guardada do tempo que passou em Alvalade?

Não está em causa o valor do jogador, longe disso. Porém, no presente perde em quase toda a linha para Adrien. Tem apenas meia época jogada, o que em si mesmo não é determinante. E, embora supere Adrien na forma mais cerebral de decidir, é muito menos intenso e agressivo e perde também na polivalência: Adrien poderia desempenhar com ganho sobre ele qualquer posição no meio-campo.

Sem dúvida que contra todos contou a época em decrescendo da equipa e a última imagem é sempre a mais poderosa. Fosse o inverso e a realidade poderia hoje ser bem distinta. 

A honestidade de Paulo Bento
Teorias da conspiração não faltam. Desde "agente de Jorge Mendes", que por sinal também o agencia, até submissão aos interesses da Nike, patrocinador da selecção. Qualquer uma delas plausível, embora menos plausível quando estamos a falar de Paulo Bento. Não queimarei as minhas mãos por ninguém, mas se há defeito que me parece mais difícil em Paulo Bento é a da falta de independência ou honestidade.  A teoria do empresário é fraca face à realidade: quais dos melhores jogadores não são agenciados por ele? Já para a teoria da Nike fazer sentido teria que aferir quantos jogadores equipavam com aquela marca para não fazer acusações sem qualquer sustentação.

Portugal sempre!
Não será a desilusão provocada pela ausência de Cédric e Adrien que me afastará da selecção. Do ponto de vista estritamente Sportinguista ela até é favorável. É pouco provável que, a estarem presentes, jogassem, estendendo-se porém no tempo a sua indisponibilidade para começarem a época, logo a próxima... Pena pelos jogadores obviamente, porque sei o quão importante seria para eles e como o prémio era inteiramente merecido. Mas, sendo um português orgulhoso da sua nacionalidade, orgulhoso do seu País e da sua História, quando o hino nacional tocar estarei com o nó na garganta e a desejar que, acabe como acabar, a vitória seja nossa.

Ronaldo e mais vinte e dois
Para finalizar, uma análise breve à qualidade dos seleccionados.Como diria o jingle publicitário, há uma linha muito nítida a separar Ronaldo dos restantes. E onde ela se nota mais evidente é precisamente no seu sector, onde a mediania impera. Isso será ainda mais notório se Ronaldo chegar ao Mundial debilitado, como parece estar agora neste momento da época. Isto não é dizer que devamos jogar ao jeito de "Ronaldo e mais dez". Quanto melhores forem as soluções protagonizadas pelo conjunto melhores e maiores serão as possibilidades da selecção.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

As condições que Jardim acha que não tem, Marco Silva e porque não Vitor Pereira?

Não me surpreendeu a conferência de imprensa de Leonardo Jardim que antecedeu o jogo com o Estoril, nem me surpreenderá de todo o interesse do Mónaco e próprio interesse do treinador em ir para o clube do principado.

Sobre as condições que Leonardo Jardim acha que não tem ao ponto de falar em "alteração ao projecto inicial" elas parecem-me evidentes. Nesse sentido o jogo de ontem é um bom exemplo e veio reforçar uma ideia que há muito aqui insisto: as nossas dificuldades aumentam exponencialmente com as melhores equipas. 

O Sporting não tem os mesmos meios que os seus principais adversários e, ao declarar-se candidato ao título, abre mão de uma das suas mais importantes armas no decorrer do campeonato que ontem acabou: a menor pressão face aos seus concorrentes directos. 

Não surpreende por isso que Jardim possa querer o Mónaco, onde pelo menos o dinheiro para assumir candidaturas ao título não faltará. E é bom lembrar que, se a saída de Jardim se confirmar, a quarta vez consecutiva em que não cumpre o contrato, depois de Beira-Mar, Braga e Olympiacos.

O que pode representar a hipotética saída de Jardim?

Pelo menos a interrupção de um projecto desenhado por ele ou com a sua anuência. O ter que começar de novo. 

Recuso-me no entanto a encarar a saída com fatalismo. Sem deixar de lhe estar grato pelo trabalho realizado, não deixo de assinalar, como já aqui disse algumas vezes, que o crescimento da equipa era ainda possível e não estava esgotado. Isto é, esse crescimento parou do lado dele, dependia sobretudo do treinador. Ele próprio a precisar de crescer, porque o que fez ontem a Carrillo é inqualificável. O que ganhou em não esperar cinco minutos pelo fim da primeira parte que não apenas arranjar um bode expiatório?

Fala-se agora em Marco Silva. É um tiro no escuro, se levarmos em conta que o seu trabalho se limita ao Estoril. E o que é necessário para se ter sucesso no Estoril é muito menos complexo do que em Alvalade. E o modelo que lhes trouxe felicidade dificilmente produzirá resultados semelhantes entre nós.

E já agora porque não Vítor Pereira? Seria um treinador à medida das nossas necessidades? E o que temos para lhe oferecer  seria suficientemente atractivo? 

Assisti com muito interesse à entrevista que deu na passada sexta-feira à TVI24 e não deixo de assinalar que ela não seria possível há 2 anos e talvez nem há um. A saída para o extremo oriente deu-lhe uma segurança na pose e no discurso que não lhe via antes. Ou seria apenas a leveza e liberdade de não estar pressionado pelos resultados? O técnico, esse será exactamente o mesmo que já demonstrou qualidade anteriormente.

Bom, para já ainda temos treinador e certamente que ainda voltaremos a falar disto e muito nos próximos dias.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Contratações cirúrgicas II - Quem pode sair, que posições reforçar, que perigos?


Avaliação Prospectiva
Com a análise retrospectiva feita neste post, pretendia-se o enquadramento certo para perspectivar agora as alterações a realizar no plantel. Essas têm de ter em conta o acréscimo de jogos e sobretudo a necessidade de elevar a resposta competitiva da equipa. Esse necessidade decorre da constatação inevitável que o que foi feito este ano, tendo surpreendido e ficado acima do que se estimou inicialmente, está aquém dos objectivos anunciados para a nova temporada.

Que jogadores do actual plantel devemos contar para o próximo ano?

Que jogadores podem ser vendidos, significando mais valias?

Que posições reforçar?

Quais as principais fragilidades na ida ao mercado e principais perigos?

Estas são as perguntas que a seguir se tentarão responder.

Para a presente análise serão seguidos os seguintes critérios: 2 jogadores por posição, seguindo o modelo de Leonardo Jardim: 1 Guarda-redes, 2 laterais, 4 centrais, 4 médios, 2 avançados, para um plantel entre os vinte e quatro e vinte e seis jogadores. Quando falo em modelo não me refiro ao habitualmente apontado 4x3x3, mas sim um 4x4x2. A definição nem é minha, mas concordo inteiramente com ela. Martins não joga a 10 porque para isso teria que fazer outro tipo de movimentação mais abrangente, que não se podia ficar entre a meia-direita e a linha de fundo, é um segundo avançado.

Cenário ideal
Num cenário ideal o Sporting manteria todos os seus melhores do actual plantel, aproveitaria a valorização conseguida por uma boa época para colocar no mercado os restantes, seja em vendas directas ou trocas com outros clubes, tentando desonerar futuras aquisições. Simultaneamente reforçaria o plantel, visando introduzir maior concorrência interna e suprir falhas. Mas os cenários ideais existem apenas num mundo ideal, que está muito longe do real.

Convenhamos também que não é possível prever num post, ou até em vários, todos os cenários que possam ocorrer na preparação de uma época: Ainda por cima num ano de Mundial de Futebol, em que alguns jogadores do Sporting serão chamados a participar. Daí que tenha definido dois cenários que, não sendo os ideais, seriam pelo menos razoáveis.

Cenário I : Venda de um jogador importante com elevado retorno financeiro
A venda de um jogador com elevado retorno financeiro é um sacrifício por vezes necessário para recapitalização da SAD e liquidez para reinvestir. Ocorrem-me 2 jogadores dentro desses parâmetros: Rui Patrício e William Carvalho. Não equaciono a venda de Montero por me parecer de mais difícil substituição que qualquer um dos 2 atrás anunciados e cujos valores de uma possível venda não se devem comparar. Desta forma o Sporting perdia um anel, mesmo que muito precioso, mas mantinha as restantes jóias e nem precisava de cortar os dedos.

Dispensaria Wélder, Magrão, e negociaria Hélton, Capel, Wilson Eduardo. Eventualmente Rojo e Slimani, se valorizados pelo Mundial. O mesmo faria com Maurício por uma boa proposta. A sua prestação acima das expectativas não iludem as limitações mais do que evidentes. 

Incorporaria do lote da equipa B Esgaio para médio-ala, porque não o vejo como defesa lateral. Faria regressar Rinaudo, Reis, Viola e Tobias Figueiredo, este melhor e mais fiável que Rúben Semedo.

Imagino que algumas destas opções sejam muito questionáveis e até polémicas, em particular as dispensas. O meu ponto nesta análise é que o Sporting precisa de um incremento de qualidade e jogadores que até possam ter sido importantes este ano, como Maurício ou até mesmo Slimani, dificilmente o poderão ser no contexto do próximo ano.

Não sei quanto possa vir a evoluir no próximo ano o argelino mas a relação dele com a bola nos pés é péssima e o nosso jogo decresce de qualidade quando cede à tentação de procurar o seu jogo de cabeça, que, ainda por cima, nem é assim tão eficaz. A diferença da prestação da equipa e do número de oportunidades criadas e de golos concretizados da primeira volta não se explica apenas por isso, mas também. Reconheço contudo que o modelo de jogo de Jardim impõem um jogador com as suas características que até no mercado nacional pode ser encontrado e com ganho.

Capel é demasiado caro para o produto final das suas correrias e ainda por cima regrediu, facto que imputo mais ao actual modelo que ao jogador. O próprio William não é ainda tão bom como o julgam e pode vir a ser, nem o agora esquecido Rinaudo é tão mau ou dispensável como o parecem ver agora.

Teria assim que adquirir 1 guarda-redes para o lugar de Patrício, ou um médio 6 caso William partisse, um lateral-esquerdo para concorrer com Jefferson, 1 central, um segundo avançado, ou 2 pontas-de-lança conforme o descrito abaixo.

Guarda-redes: Boeck, Patrício ou 1 aquisição (em caso de saída de Patrício)

Laterais-direitos: Cédric e Piris

Laterais-esquerdos: Jefferson e 1 aquisição 

Centrais: Dier, Reis e Tobias, 1 aquisição. Rúben Semedo de prevenção na B, onde estaria Tobias sempre que não fosse convocado. Nesta idade precisa sobretudo de jogar.

Médio (posição 6) William/aquisição e Rinaudo e João Mário

Médio (posição 8) Adrien e André Martins

Médio-ala (posição 7 e 11) Carrillo, Mané, Esgaio mais 1 ou 2 aquisições

Segundo avançado: Montero e Viola

Ponta-de-lança (posição 9): 2 aquisições (que podia ser apenas 1 se Slimani permanecesse ou se se considerasse Montero para 9, ficando nesse caso em aberto a aquisição de um segundo avançado. 

Algumas dúvidas sobre o papel a conceder a Iuri Medeiros, Chaby e Chikabala. Os dois primeiros porque o esquema deste ano de Jardim dificilmente os favorece. Isso é tanto assim que Jardim "se esqueceu" de ambos durante a época e ainda foi buscar Chikabala. Integrá-los num projecto credível numa equipa da I Liga seria preferível a mais um ano de estagnação na equipa B. E o egípcio terá que mostrar ao que veio.

Uma ressalva: ao contrário do que pensam grande parte dos Sportinguistas parece-me muito difícil que a venda de Patrício ocorra por valores superiores a sete/dez milhões de euros. As razões estão fundamentadas neste post e neste post escritos há muito tempo, mas cuja conjuntura não me parece ter sido alterada.

Cenário 2
O Sporting não vendia nem Patrício ou William mas abria mão de dois ou três jogadores com valor de mercado abaixo destes, mas com valorização, como Adrien, Cédric, Jefferson, num exemplo aleatório. Não me surpreenderia muito a partida de Dier, embora a achasse absolutamente lamentável, a ocorrer. Mas com o contrato a expirar em 2016 e sem jogar pode muito ser o próximo Ilori. Manteria o critério acima descrito para dispensas, incorporações e vendas. Este cenário parece-me o menos interessante por implicar a saída de um número considerável de jogadores titulares, desarticulando a base da equipa.


Dificuldades e fragilidades que o Sporting enfrentará

Orçamentos e liquidez
Não é um caso singular entre os clubes, embora tenha as especificidades que lhe são próprias. Mas no fundo as regras são semelhantes, há necessidade de realizar mais-valias para poder enfrentar os custos. Associada à menor capacidade de obter receitas, face aos concorrentes directos, é constitui um forte empurrão para mercados emergentes e no mercado nacional dificilmente consegue competir com eles.

Relações com o mercado
Voltarei a este tema, porque me parece merecer atenção particular. Fica apenas uma pequena nota dando conta das minhas dúvidas relativamente ao posicionamento do clube face aos diversos actores, os - empresários, os fundos, etc. Sem colocar em causa a necessidade de outra regulamentação fica a minha dúvida relativamente à estratégia de isolamento face ao que são as regras  e meios que estão disponíveis para os demais. 

Exposição ao mercado africano
Os mercados emergentes - africano, asiático e periferia europeia - são consideravelmente menos onerosos que os "mercados de primeira". A importância de um scouting refinado é crucial, bem peneirados, conseguem-se excelentes negócios dos quais Montero é um exemplo de excelência. Porém, as probabilidades de risco aumentam exponencialmente. A inadaptação de uma "importação directa" face às diferenças sócio-culturais entre a origem e o destino é mais fácil de apontar, mas outras há.

O caso concreto do Sporting há um risco acrescido e que aumenta sempre que vejo apontados novos reforços como Anderson Esiti, do Leixões, que dizem estar já contratado, Nuno Rocha, Marítimo, Gazhal, do Nacional. A ser verdade isso aumentaria o contingente de africanos, numa época em que o periodo decisivo de campeonato ocorrerá em simultâneo com o CAN 2015, cujas eliminatórias começaram no final do mês passado. Aqueles jogadores juntar-se-iam a Héldon, Schikabala, eventualmente Dramé, apontado como fazendo parte do próximo plantel, e Slimani. Quantos jogadores poderiam estar ausentes entre meados de Janeiro e Fevereiro?

A vertigem da experiência
Um dos principais problemas apontados ao plantel do Sporting é a sua juventude e inexperiência, em particular para os compromissos internacionais. Ambas são um facto e podem ser um problema, mas não tem necessariamente um carácter inevitável, como se de uma sina se tratasse. Mais importante que a experiência é o talento, a inteligência, o conhecimento do jogo e respectivas funções a desempenhar e o compromisso com o colectivo.

Vantagens
O Sporting detém hoje um poder negocial de que não dispôs há 1 ano atrás: uma casa arrumada, um clube novamente respeitado, um treinador prestigiado e  os palcos e respectiva  banda sonora da Liga dos Campeões assegurados pelo menos por pelo menos três jogos. Assim o saiba fazer reverter a seu favor.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O que nos interessa saber da contratação de Lopetegui

O FCP anunciou ontem a contratação de Julen Lopetegui para o lugar de técnico principal. Uma escolha que surpreendeu a generalidade da critica e até dos adeptos, azuis-e-brancos ou não.

Como adversário do FCP o que retenho desta contratação:

O timing da comunicação poderá ser considerado como uma tentativa - bem sucedida, parece-me - de colocar os adeptos a pensar no futuro, assim tirando o foco do annus horribilis e dando-lhes mais do que pensar do que escrever nas paredes das casas de alguns correlegionários. Assinale-se porém que não se trata de uma decisão de cariz populista. Seria mais fácil a Pinto da Costa, neste momento, apresentar um nome seguro na praça, com curriculum.

O que de mais importante retenho é que parece estarmos na presença de uma decisão pensada e amadurecida. Por trás do perfil do treinador há uma ideia de jogo, que se baseia num modelo que dá importância à posse e circulação de bola, que cola bem com o estilo de jogo do clube da Invicta, por oposição a outros critérios, como o futebol da força e da altura. A decisão de um novo técnico, este ou outro qualquer, envolveria sempre um risco elevado, esta decisão tem um cariz estratégico que é importante reter.

Mais importante do que o curriculum ou a experiência, porque nos falam do passado e de uma realidade muito diversa da que o treinador basco irá encontrar no FCP, será a idealização de um modelo que sirva as necessidades da sua equipa no contexto muito especifico do campeonato português e que seja adaptável, compreendido e interpretável pelos jogadores à sua disposição.

O nome, este ou outro qualquer, não nos diz nada sobre o sucesso da decisão que, inevitavelmente se terá que traduzir em resultados, e está dependente de uma imensidão de factores, que não dependem apenas do treinador, mas também da qualidade do plantel que lhe será colocado à disposição. 

Mas parece-me pelo menos sensato não menosprezar o FCP e a respectiva candidatura ao próximo campeonato. Não sé porque seria incorrer no mesmo erro que o FCP cometeu com o Sporting este ano. Depois do que sucedeu esta época, a vontade e a importância de voltar a ganhar é agora mais premente. Ao Sporting certamente que interessava mais um FCP sobranceiro e acomodado da época passada que pensava que para chegar a campeão qualquer treinador pegaria de estaca.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Finalmente as contratações cirúrgicas I - Avaliação retrospectiva

Introdução:
Finalmente as contratações cirúrgicas. Finalmente porque o post sobre o tema já foi prometido diversas vezes e porque, estando escrito e reescrito já várias vezes, corre o risco de ir parar ao caixote do lixo sem ver a luz do dia. A demora não foi intencional, mas talvez o post se torne mais oportuno, uma vez que falta apenas um jogo para se encerrar a época e as últimas exibições deixam muitas interrogações sobre o quão profunda têm de ser as cirurgias entretanto anunciadas.

Uma vez que o post se tornou demasiado extenso, vi-me obrigado a dividi-lo em 2. O presente é uma avaliação retrospectiva. Fica o próximo para breve avaliação por sectores ao plantel que termina a época, complementada com a análise prospectiva do que pode ser a sua reconstituição face aos novos desafios para a época 2014/15.

Enquadramento
O que são contratações cirúrgicas? A expressão é curiosa uma vez que uma cirurgia tanto pode ser uma delicada microcirurgia vascular intracraniana como uma amputação a envolver o indispensável mas prosaico serrote. O que umas e outras e as demais cirurgias têm em comum é que todas exigem conhecimento muito especifico, que requer formação especializada e regular ao longo do exercício da função. Julgo que deve ser o paralelismo que se pretende fazer com o uso da expressão. Diagnosticar as falhas e supri-las usando de conhecimento e experiência acumulados. 

Ao dar conta pública de que o Sporting iria fazer "mexidas cirúrgicas" Bruno de Carvalho reclama para si e a equipa que o acompanha nas decisões essa aptidão e o que a generalidade da opinião pública percepciona é que haverá poucas mudanças no actual plantel. Isto é, no balanço das entradas e saídas, os movimentos serão reduzidos e os estritamente necessários.

A pergunta, inevitável, surge: o Sporting detém, no seu seio, esse conhecimento para o reclamar? Dos 3 elementos do núcleo duro (Bruno de Carvalho, Inácio e Virgílio) apenas Inácio possui experiência, Bruno de Carvalho e Virgílio não. A experiência é porém, para mim pelo menos, um factor hiper-valorizado. Mais importante, naqueles lugares, são a percepção do que é o jogo, quais são as necessidades para implementar um modelo que sirva as ambições do clube, e os processos que levam às de tomadas de decisão e estas propriamente ditas.

Análise Retrospectiva
São os resultados o principal factor de avaliação de que a generalidade da opinião pública se serve para apreciar o trabalho quer dos treinadores, quer dos dirigentes. E é em função dos resultados alcançados que agora se avalia o trabalho feito pela SAD (Bruno de Carvalho, Inácio e Virgílio) porque são eles os responsáveis pelas decisões de contratar e vender. E, uma vez que os resultados excederam as expectativas, a avaliação generalizada é muito positiva, quer no interior do clube, quer mesmo pela generalidade da critica e mesmo dos adversários.

A decisão estruturante da época foi a chamada de Jardim. Isto não é dizer que só esta decisão nos conduziria aos resultados alcançados, ou mesmo que estes não podiam ser melhores, porque isso seria mera especulação sem qualquer sustentabilidade. É reconhecer o papel fundamental do técnico e, por via disso, quem foi responsável pela decisão. Uma decisão feliz e corajosa, se atendermos, pelo menos eu assim o entendia, que Jesualdo tinha qualidades importantes para aquele momento em que o Sporting se encontrava.

Quanto a incorporações de novos jogadores, atente-se ao quadro das contratações realizadas na preparação da época que ainda decorre:

Maurício, Jefferson, Piris, Shikabala, Magrão, Héldon, Slimani, Welder, Vitor, Montero, Cissé. 

Numa avaliação rápida do que foram as respectivas participações individuais na época do clube facilmente se constata que a percentagem de acerto é de 50%: Maurício, Jefferson, Piris, Slimani e Montero do lado bom, Cissé Shikabala, Magrão, Héldon e Wélder do lado dos falhanços. Shikabala, Magrão (diz-se que vai ficar) e Héldon têm ainda a possibilidade de, no próximo ano, desfazer a impressão negativa. A fazer a ponte, numa posição neutra, fica Vítor, que demonstrou potencial mas teve poucas oportunidades. Cissé e Welder têm que, passe o exagero, renascer para se apresentarem a um nível incomparável superior e assim poderem ser olhados como opção.

A ordem de chegada dos jogadores é importante. Maurício, Welder, Jefferson e Montero foram os primeiros a chegar. Piris, Vitor e Slimani chegam depois. Isto porque certamente por se percebeu que Welder, Cissé e mesmo Magrão não estavam à altura do que deles era esperado. Provavelmente também porque às saídas de Bruma e Ilori correspondeu uma maior disponibilidade financeira e porque entretanto se foram registando saídas que aliviaram a folha salarial.

Ainda no âmbito desta retrospectiva assinale-se o sucesso na decisões de reintegração de William de Carvalho, indiscutivelmente a revelação da época a nível nacional, bem como de Wilson Eduardo.

Mais importante do que a contabilização de más decisões serve esta constatação para atestar como é falível e contingente a actividade de contratar jogadores. O sucesso depende de imensas variáveis e nem todas passíveis de serem controladas por quem decide. Serve também para que se perceba que a promessa de contratações cirúrgicas per si não assegura o seu acerto.


Do lado das dispensas saliência para o elevado número de situações resolvidas. Neste capitulo porém, não deixo passar uma certa retórica, que me pareceu estratégica, de desvalorizar e até diabolizar os jogadores cuja situação acabou por se tornar problemática, como Jeffren, Elias e Labyad. Essa estratégia rendeu pelo menos dividendos internos. Mas, a menos que me demonstrem o contrário, não me pareceu uma decisão feliz. Mal comparado é o mesmo que um comerciante desvalorizar os seus próprios produtos e, pior, retirá-los de exposição e ainda assim querer receber pelo menos o valor gasto. Não discuto as respectivas decisões de prescindir dos serviços de Jeffren, Elias e Labyad, mas sim o método.

Não deixo também de dizer também que o marroquino contratado ao PSV, pese a necessidade de complementar a sua formação e colmatar as lacunas evidentes, podia muito bem ter sido o 10 que Martins nunca será. Capacidade física, técnica, potencial, disponibilidade competitiva e intensidade tinha-os, faltou-lhe o que acima foi dito sobre a sua formação, mais a possibilidade de crescer num ambiente favorável, o que não sucedeu no tempo que esteve por cá.

Falta, para terminar este capitulo, a aposta na formação, isto apenas no que diz respeito à equipa principal. Este é um capítulo que me sugere reacções ambivalentes. É indiscutível para quem olha no plantel que são os jogadores da casa que constituem a coluna vertebral do plantel e que a extraordinária época de William e o aparecimento de Carlos Mané perspectivam continuidade. A minha dúvida é se, num ano como o que agora está prestes a terminar, apostas em Maurício e sobretudo em Magrão, não podiam ter sido feitas em Dier e João Mário, respectivamente. Ou saber o que veio fazer Héldon que Mané ou Eduardo não fizessem. Dier é o mais difícil de todos de sustentar pela época realizada por Mauricio. Magrão é mais fácil e torna-se ainda mais evidente em cada aparição. O mesmo se pode dizer relativamente a Cissé versus Betinho. As oportunidades concedidas ao guineense no inicio de época e depois na B são no mínimo questionáveis.

Vêm aí novos adjectivos para a língua portuguesa?



Não foi um golo qualquer. Foi um golo marcado da forma como se vê na imagem e que trouxe o Real Madrid de volta ao mundo dos vivos na Liga Espanhola, salvando-o de um funeral em sua própria casa. E foi o quinquagésimo da época, uma marca verdadeiramente assombrosa. Quem gastou os elogios com o  sprint de Bale vai ter que inventar novos adjectivos para língua portuguesa para classificar este golo de Ronaldo.

sábado, 3 de maio de 2014

Foi com o Nacional mas não foi bom

Alguma expectativa para observar o jogo que marcava o nosso regresso à Madeira. É verdade que o facto de ambas as equipas não terem nada a perder tanto poderia significar um jogo displicente de um ou ambos contendores, como um espectáculo agradável de seguir. Nem uma coisa nem outra foi o que acabou de se verificar. O jogo acabaria por ser um espectáculo de futebol pouco interessante no que à qualidade de jogo diz respeito, embora não se possa negar que foi um jogo competitivo.

Num plantel tão curto como o nosso é natural que ausências em simultâneo de Adrien e Rojo criassem dúvidas sobre a reposta que a equipa daria perante um dos adversários que mais dificuldades costuma impor aos três grandes. Desta vez não seria muito diferente. Como é habitual em equipa de Manuel Machado, o Nacional foi muito eficaz em partir o jogo e sobretudo a equipa do Sporting. Colocando extremos muito abertos e encostados acima conseguiu colocar os laterais quase sempre mais preocupados com as tarefas defensivas e desse modo sem poderem apoiar o meio-campo e os extremos em particular. 

Do ponto de vista defensivo demos sempre muito espaço ao adversário. Slimani não conta para o processo defensivo, Magrão não o faz com a intensidade necessária e Carrillo é muito intermitente. Assim o Nacional contou quase sempre com superioridade numérica. Quando tal não aconteceu o Sporting foi sempre demasiado sofrível na criação de jogo de ataque ou na finalização. Não ter marcado qualquer golo e ter empatado a um golo diz quase tudo. As férias estão aí e a cada jogo que passa mais elas parecem ser desejadas e necessárias.




terça-feira, 29 de abril de 2014

Atitudes irreflectidas, racismo e pena de morte no futebol

Apresento desde já as minhas desculpas aos leitores por, com a colocação deste post, entrar em incumprimento ao que aqui havia prometido ontem. Porém sou permeável à actualidade, especialmente quando ela nos traz temas tão fracturantes e que me são caros como o racismo, a xenofobia ou a pena de morte.O post sobre as contratações cirurgias virá a seguir.

Começo pela atitude exemplar de Dani Alves. Sem queixinhas e sem perder a concentração deu uma lição de superioridade moral ao seu agressor - sim, o racismo é uma forma de agressão - a quem terá dado muito que pensar. Uma atitude seguramente impensada, reacção à flor da pele, mas de grande alcance.

Depois, a medida drástica e exemplar do Villareal, identificando o autor e banindo-o do clube, ao extinguir a sua ligação como associado. Atitude merecedora dos mais rasgados elogios pela prontidão, mas também pouco reflectida. 

E se no próximo jogo em casa os sócios do Villareal, ou pelo menos os que partilham do mesmo sentimento do ex-sócio, se solidarizam e repetem o mesmo gesto? 

Expulsam todos ou demitissem os corpos sociais? 

Quem ganharia com o que sucederia? 

Provavelmente perdiam todos, porque ninguém sairia satisfeito com o desfecho, incluindo o próprio Daniel Alves.

Há muita hipocrisia e demasiado "politicamente correcto" quando se abordam estas matérias e o futebol não constitui excepção, apesar dos bons exemplos que dá com frequência. Já vivi o suficiente para perceber que entre tiradas grandiloquentes e as reacções emocionais e primárias quando temos que lidar directamente com as questões deste tipo vai uma grande distância. Costumo dizer entre amigos que só sabes se és racista quando o teu filho(a) entrar em tua casa com um individuo de outra raça como namorado(a) ou noivo(a). Esta questão é válida para pessoas de todas as raças, pois o racismo não é exercido exclusivamente de brancos para negros.

Sou obviamente contra qualquer tipo de exclusão, sectarismo ou intolerância, especialmente nas que se baseiam nas diferenças da cor da pele, da origem, do credo politico ou religioso. Mas sou suficientemente perspicaz para perceber que a sua origem radica numa amalgama muito grande de factores socioeconómicos e até de ordem pessoal e cuja análise não cabe aqui. Temas que estão  permanentemente no topo da actulidade em todas as sociedades, a espanhola de forma muito particular. Não podia deixar de ser de outra forma, num país que tem no seu seio uma legião de desempregados e está permanente pressionado nas suas fronteiras por uma outra legião: a de auto-expatriados africanos.

Por assim perceber o problema entendo também que estas matérias carecem de pedagogia adequada que escapa às atitudes drásticas como a que foi tomada pela direcção do Villareal. Atitudes que na prática significam a condenação à morte da ligação afectiva mais importante que um adepto pode ter com o seu clube do coração: ser sócio de pleno direito. O futebol não ganha nada com penas de morte e o radicalismo não se combate devolvendo o mesmo tratamento.

Quando o clube espanhol identificou o seu associado tinha outra possibilidade, antes de tomar a decisão que tomou. Dar a oportunidade ao seu associado de se redimir, pedindo desculpas a Daniel Alves, lembrando-lhe que a sua atitude, perpetrada no seu próprio estádio, mancha a imagem de todo um clube. 

É algo como isto que espero que o Sporting faça, caso algum dia seja chamado a lidar com um problema semelhante. O futebol, mesmo que ainda muito remotamente, é desporto e o desporto é das actividades que mais tem contribuído para o aprimorar o  sentido de Humanidade e para a existência de um mundo mais suportável.

Aproveito o tema para falar em Rúben Semedo. Sendo grave a atitude que tomou na sequência da sua expulsão, terá que se haver inevitavelmente com as consequências. Que estarão longe da irreversibilidade das apressadas sentenças de morte que o acto, feio e impensado, está longe de justificar. Pergunto-me muitas vezes se quem profere estas sentenças alguma vez teve a idade do Semedo ou, se teve, perdeu entretanto a memória para ter autoridade para ser agora tão implacável.

Aguarde-se pela decisão da SAD para ver se o episódio merece mais comentários*. Tão importante como exercício da disciplina é também a avaliação da importância da reincidência deste tipo de comportamento, percebendo as razões que as motivam. Esta é a mesma instabilidade que se nota também no desempenho em campo, alternando, por vezes no mesmo jogo exibições de grande potencial com reiterados erros de palmatória de jogador vulgar.

*P.S.- O Abel, tão veloz em anteriores episódios, talvez até de menor gravidade, foi tão lesto a crucificar os intervenientes que, mandaria o bom senso, dissesse qualquer coisinha mais do despachar para canto o que se passou à frente dos olhos.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Candidatura ao título e contratações cirúrgicas

Os Sportinguistas já não conseguem pensar noutra coisa: a época que aí vem. E justifica-se, há pouco mais a fazer do que cumprir calendário. Pouco mais que é tão só ganhar os jogos todos que faltam e que são ainda por cima com duas das melhores equipas do campeonato. Um bom teste ao profissionalismo, concentração e compromisso dos jogadores com a camisola.

A ansiedade em querer antecipar o futuro também se justifica. Mesmo o mais optimista percebe que o plantel actual precisa de mais do que um mero facelift para estar à altura do objectivo primordial já assumido pelo presidente: ser candidato ao titulo. A esse acrescentar-se-á obrigatoriamente uma presença condigna na Liga dos Campeões, objectivo mínimo que não pode cingir-se a qualquer dimensão etérea, o que implicará na prática prosseguir na UEFA. As restantes competições nacionais, Taças de Portugal e Liga não deixarão de ser também olhadas com a ambição natural de um clube como o Sporting: ganhar!

Essa ambição natural que lhe é inerente pelo seu próprio estatuto de grande não deve porém deixar de ser avaliada de forma relacional com as dos seus concorrentes directos, SLB e FCP. Nesse sentido, e para encurtar no latim, o Sporting manterá seguramente o estatuto de outsider. Isto é, o menos candidato de todos os três. A distância que nos separa é ainda grande, mesmo que se possa encurtar se contarmos com os indispensáveis saber e sorte. 

E que distância é essa?

É a distância dos orçamentos que impõem quase ditatorialmente a sua lei, à qual dificilmente se pode fugir. O Sporting tem esse problema a dobrar, o que lhe torna a missão duplamente difícil. Não seria fácil ultrapassar 1 competidor, ultrapassar dois afigura-se extraordinariamente complicado. É também a distância dos pontos de partida de cada um. O Sporting está a fazer um longo e difícil caminho de regresso e reorganização, assim esperamos, situação bem diferente das dos rivais. Dois factores que contam e muito a em nosso desfavor.

O SLB
No que a candidaturas diz respeito o SLB continuará a ser o primus inter pares. Depois de um ano traumático, a chegada ao título dá a estabilidade para planear. Se o conseguiram o ano passado em circunstâncias mais difíceis é provável que o consigam outra vez, agora em condições mais favoráveis. A dúvida maior advém do que conseguirá manter e transportar para a época 2014/15 nos recursos humanos disponíveis. Jorge Jesus parece de pedra e cal e tudo mudaria se esta "certeza" se alterasse. Fica por saber quantos jogadores tidos como cruciais na performance da equipa se manterão. 

Convém não descurar da análise o que de muito bom Jorge Jesus construiu. Mesmo contando com algumas flutuações na classe de alguns jogadores, o treinador tem à sua disposição um lote superior ao que tradicionalmente se entende como onze titulares. O melhor exemplo pode ser dado com a substituição de Matic. O sérvio já foi para Inglaterra, Fesja pegou de estaca mas nem sequer joga neste momento, sem que com isto a equipa tenha oscilado muito. Conseguirá o mesmo se Rodrigo, Gaitan, Sálvio, Rodrigo, Garay, Siqueira - para falar apenas nos mais desejados - também abalarem até Setembro? Dificilmente, creio, mas deixarão seguramente, mesmo depois de tapados os buracos mais prementes, disponibilidade financeira para "voltar a ir aos caramelos".

O FCPORTO
Quem diria que a grande incógnita fosse nesta altura o FCPorto? Mas que também não convém desprezar. O lote de jogadores à disposição é superior em número e qualidade ao nosso. Há ali jogadores que, com outro enquadramento, podem render muito mais do que renderam na presente época. Crucial será a decisão do lugar de treinador. Não me surpreenderia uma decisão conservadora, como o já muito comentado regresso de Fernando Santos. 

Esqueçamos o nome, olhemos para o perfil. Não entusiasmará muito o topo sul do Dragão mas, depois do sucesso de experiências ousadas com AVB e Vítor Pereira, e o arrojo personificado na chamada de Paulo Fonseca ter acabado com estrondo e decepção, o recuo estratégico para alguém com mais estrada e calos parece quase natural. Estrada calcorreada e calos curtidos no campeonato português, bem entendido. Já experiências com estrangeiros ou até mesmo em Marco Silva deixam mais interrogações que certezas. O treinador do Estoril tem um trabalho meritório mas, do futebol do Estoril ao do FCPorto, distam muito mais do que os mais de 300 km que terá de fazer de autoestrada. 

Nós, o Sporting
O presidente já veio dar conta que não haverá revoluções, apenas operações. Contratações cirúrgicas, nas palavras do próprio. O Sporting tem de acrescentar quantidade e qualidade. Espera-se que haja mais jogos, não apenas os das competições europeias, mas que a carreira nas provas nacionais seja mais duradoura. A actual classificação permitirá, em teoria, chegar mais longe na Taça da Liga. Deseja-se mais sorte com o sorteio de adversários na Taça de Portugal. Sim, inclui ter melhor sorte caso nos calhe um jogo na Luz, o mesmo serve para o Dragão e demais estádios. 

Quantidade não é problema difícil de resolver. Numa perspectiva imediata é isso pelo menos o que se consegue da equipa B. Não muito mais do que isso pois não vejo quem possa significar uma mais valia de forma consistente e não apenas um fogacho aqui e ali. Pensar de outra forma é ou não ter visto nada da equipa B e não perceber as diferenças de ordem física e técnica que ainda separam muitos daqueles miúdos da afirmação plena. Se é certo que num nível acima, num colectivo melhor identificado e trabalhado, pode haver melhor rendimento, é certo que a qualidade dos adversários e desafios também aumenta exponencialmente. 

Quando se fala em qualidade estamos no campo da abstracção e subjectividade. A palavra de Jardim parece-me aqui fundamental, embora me pareça que, das contratações que aparentam ter o seu dedo - Magrão e Héldon - ele não foi muito feliz. 

E porque é que é importante? 

Porque me parece que Jardim gostaria de ter jogadores com outras características que não existem por ora no plantel, e que se adaptem melhor ao modelo que idealiza. E outros, como Vítor (não é um craque mas podia ter sido muito mais útil do que foi) ou André Martins não têm lugar ou não têm as características que ele entende necessárias. Com pena minha, porque acredito que um 4x3x3 com William ao centro, André e Adrien em cada um dos lados, todos os jogadores, incluindo o André, jogariam mais confortáveis, como o Sporting seria mais equilibrado. Aos extremos pedir-se-ia mais jogo interior e entre linhas, de apoio e aproximação ao ponta-de-lança, e não apenas as paralelas à linha lateral em organização ofensiva.

Este será a questão decisiva do nosso próximo campeonato. Os recursos são limitados. São mesmo exíguos por comparação com os dos adversários. No campeonato nacional podemos ficar apenas com as sobras dos outros grandes, embora a boa época este ano tenha aumentado a nossa margem no mercado, quer em credibilidade quer em perspectivas para afirmação de um profissional. Isso empurra o Sporting para o mercados de terceira e quarta escolha e obriga a uma prospecção ainda mais cuidada. Se é certo que a possibilidade de um erro é menos onerosa que "elias e pongóis" o mesmo não quer dizer que seja isenta de riscos.

É desses riscos, da qualidade existente e da que ainda falta, de que versará o próximo post. Não apenas porque o presente já vai longo mas também porque o tema contratações habitualmente canibaliza todas as atenções.

domingo, 27 de abril de 2014

As vitórias de recentes de Mourinho e o sexo

Mourinho é um treinador que suscita polémica. Ele mesmo faz questão de alimentar a fogueira. Hoje conseguiu mais uma vitória fazendo pouco mais para a conseguir do que esperar pelos erros dos adversários. Naturalmente que as reacções não se fizeram esperar, quase sempre marcadas pelos extremos, como não podia fugir à regra.

Respeito, como não podia deixar de ser, quem pensa de outra forma, mas grande parte das vezes ver este Chelsea jogar é uma grande estopada, um verdadeiro suporífero. Duvido que haja quem goste mesmo do que vê, ainda que perceba que gostam dos resultados.

Isto faz-me lembrar uma velha discussão sobre a função do sexo no quadro de discussão da interrupção voluntária da gravidez nos anos 80 ocorrida na Assembleia da República. Na sequência da discussão Natália Correia, dedicaria um poema a um deputado de uma bancada rival, que havia afirmado que "o acto sexual é apenas para ter filhos".

Como não sou do Chelsea nem faço parte da legião de fãs do Mourinho o futebol que os vejo praticar assemelha-se em muito ao que deve ser mero cumprimento da função reprodutora, desprovido de emoção e até mesmo de prazer. Um mero truca-truca, como diria a Natália Correia, sem paixão ou poesia. Nem o sexo é apenas isto nem o futebol pode ser condenado a uma visão tão redutora.

Quanto a Mourinho o seu curriculum fala por si. Continuo no entanto a estranhar que tenha tantos aficionados entre Sportinguistas. Mourinho foi funcionário do Sporting num momento em que ninguém se lembraria dele para nada. Essa passagem seria decisiva para conhecer Robson e começar a sua carreira de treinador, mesmo considerando que Mourinho se fez a ele mesmo. Esse favor Mourinho pagou-o sempre com frieza, indiferença e muitas vezes com desprezo e falta de respeito. Com que coerência podem exigir a outros profissionais que representem o clube o que desculpam a Mourinho

sábado, 26 de abril de 2014

A minha homenagem a Tito, o marechal tranquilo

O mundo, o do futebol em particular, recebeu com choque e consternação a noticia do falecimento de Tito Vilanova. Eu não lhe fiquei indiferente.

O meu coração não tem espaço para dois amores. O Sporting, no que a clubes diz respeito, não apenas o preenche na totalidade como frequentemente o transborda. Por isso não tenho segundo clube, aí sou o mais promíscuo e devasso. Hoje gosto de um, amanhã de outro e a maior parte das ocasiões não chego sequer a gostar. Mas há uma linha condutora nessas preferências de ocasião há quase sempre pontos em comum: ou a paixão contagiante dos adeptos, ou um jogador ou treinador da minha preferência, quase nunca o facto de ganhar muito ou pouco e quase sempre o futebol praticado. O Barcelona pelo privilégio de ter visto jogar a melhor equipa de sempre, até por razões de afinidade com a cidade e região, é um desses amores. Por isso o choque pela morte de Tito Vilanova também me chocou mais do que a morte de alguém muito conhecido.

Do antigo treinador conheço apenas o que é público. A imagem que construí dele corresponde inteiramente à que hoje vejo projectada nos órgãos de comunicação social: mais do que um grande treinador, um bom ser humano. Sei o quanto isto é comum dizer-se de quem acaba de morrer, os cemitérios estão cheios não só de insubstituíveis mas também de defuntos magníficos que em vida fizeram, muitos deles, questão de ser precisamente o oposto. Não será certamente por acaso que o Barcelona elegeu a fotografia de um Tito de polo, calças de ganga e sapatilhas. Tito deu sempre ares de grande descrição.

Tito deixou a sua marca no futebol espanhol. Como adjunto de Guardiola conheceu todas as vitórias possíveis. Na fugaz passagem pelo posto de comando conseguiu a tão famosa Liga de todos os recordes, tendo no seu encalce nada mais nada menos que o Real de Mourinho, por muitos considerado o melhor do Mundo. Se há mérito que deve ser reconhecido ao "marquês", como era conhecido,  é o facto de ter recebido uma obra prima e assim a ter continuado, sem a desvirtuar. Daí o titulo do post. Tito foi um marechal que sobriamente soube perceber e preservar  as ideias mestras onde o sucesso do seu clube se construiu. Isto quando muitos esperariam que, com a partida do criador, tudo se desvanecesse. 

Seria o pior e mais impiedoso dos adversários a derrubá-lo, com toda a indiferença e crueldade que se lhe conhece: o cancro. Justamente no momento em que se pareciam abrir para ele as portas de uma carreira de sonho no clube do seu coração.

No futebol não há insubstituíveis, the show must go on. Por isso os meus pensamentos vão para os familiares e amigos, que terão que lidar com a perda irreparável. Tito deixa dois filhos ainda bastante jovens e para eles não há banco, plantel e contratações como recurso, ninguém poderá substituir o que Tito representaria para eles. 

Se é nos pormenores que nos revelamos Tito deixou-nos algumas pistas. Seja na carta de despedida do cargo de treinador, que pode ser lida aqui, como na forma como decidiu marcar os seus últimos momentos. Antes de ser internado, certamente sabedor do que o esperava, Tito foi capaz de um pormenor revelador da sua natureza: pediu a um amigo que fizesse as diligências necessárias para poder oferecer à mulher um presente - um relógio - que certamente sabia ir marcar a sua despedida. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O comunicado: o que se sabe e o que fica por saber

O Sporting acabou por emitir um comunicado (ler aqui) visando o esclarecimento das acções tomadas pelo Conselho Directivo sobre o jornal do Sporting, tendo como pano de fundo o despedimento do que restava do corpo de redacção da referida publicação.

Ficamos assim, através da sua leitura, a saber que :

1- O processo de despedimento envolveu sete trabalhadores (e não 8, como aqui havia sido reportado, seguindo as fontes disponíveis) e que tal se insere num processo de restruturação e ajustamento da gestão de conteúdos e plataformas de comunicação.

2- As medidas tomadas correspondem a um modelo definido pelo CD visando melhor organização, maior qualidade e rigor na informação institucional. 

3- A gestão de conteúdos e plataformas de comunicação ficam concessionadas à empresa YoungNetwork Group.

4- Os elementos que virão a trabalhar na área actualmente concessionada terão que ser obrigatoriamente sócios do Sporting.

Alguns comentários avulsos ao comunicado:

1- O despedimento tem implicações mais abrangentes, não se circunscreve apenas ao Jornal do Sporting.

2- O actual comunicado podia muito bem ter sido prévio à divulgação da noticia pelos órgãos de comunicação social, tendo em conta que a elaboração do seu conteúdo não estava pendente de nenhum dado estratégico que não pudesse ter sido divulgado anteriormente. Não é muito importante, é uma questão de forma, mas que evitaria muita da especulação que surgiu sobre o tema.

3- É abordada a existência de um modelo mas cujos contornos não se conhecem e que, valha a verdade, não precisam de ser detalhadamente divulgados. Mas trazer ao conhecimento geral de sócios e adeptos da estrutura que se pretende para esta área - Comunicação e Marketing - ajudaria não só a perceber melhor o que se pretende fazer e o que vai mudar. Por exemplo:

- O Jornal do Sporting, qual é a sua viabilidade? 

- Qual é a sua importância para a relação com adeptos e sócios, nomeadamente com os de faixa etária mais elevada, que são assinantes há décadas e não usam nem usarão as plataformas mais modernas como as digitais?

- O site do clube vai ser remodelado quer no layout quer na variedade de conteúdos, mas sobretudo no que diz à qualidade da informação produzida?

4- Fica-se a saber da concessão dos serviços mas nada é dito sobre o tempo de concessão. Mais importante do que isso é não se perceber qual o(s) critério(s) que presidiu à decisão:

Porquê a YoungNetwork Group? 

Que experiência tem a referida empresa na gestão de conteúdos e de plataformas de comunicação? 

Porque não foi feita uma consulta de mercado?

Ao despedimento dos funcionários e à sua contratação corresponderá não só a esperada melhoria dos serviços prestados, mas também à economia de recursos financeiros? Eles são quantificáveis?

5- A questão de serem apenas elegíveis sócios do Sporting a trabalhar nesta área levanta-me ainda mais dúvidas, algumas delas preocupantes: 

- Como é que a referida empresa chega o conhecimento e como recrutará esses elementos? 

- É-lhes cedida uma lista de sócios elegíveis pelo CD? 

- Aceitam-se candidaturas espontâneas? 

- O facto de ser sócio do Sporting é maior garantia do que ser um bom profissional de comunicação? 

- Se a referida empresa vai cobrar os serviços ao Sporting, se vai ter que pagar aos colaboradores de que necessitará e ainda terá lucro, não seria menos oneroso para o clube assegurar os serviços pelos seus próprios meios, recorrendo na mesma aos préstimos dos associados, muitos deles disposto a fazê-lo pro bono?

6- Esta mudança tem pelo menos um mérito: deixará de ser possível o tradicional "desculpismo". O clube tem agora, como cliente, a capacidade de exigir a qualidade dos serviços que lhe prestam. Parece-me contudo que os problemas de que a área da comunicação enfermavam, poderiam ser dos recursos humanos à disposição, mas passavam também muito pela coordenação e gestão que, ao longo dos anos tem sido deficiente, isto para ser económico e simpático.

7- Convenhamos que muitas destas questões nem são assim tão importantes. Mais importante me parece:
 
- A forma como o CD tomou as decisões, sem se preocupar por exemplo com a transparência das medidas agora tomadas. As intenções podem ser as melhores, o critério adoptado afunila a margem de actuação de quem as toma: os resultados têm também que ser também os melhores sob pena de serem questionadas as decisões e quem as tomou.

- A avaliar pelas reacções gerais o estado do clube balança entre o total alheamento, o deferimento tácito, ou pelo aplauso e aclamação, sem qualquer análise ou raciocínio critico. Sabemos por experiência própria o resultado a que isso pode conduzir.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

terça-feira, 22 de abril de 2014

E depois do último despedimento, que futuro para o Jornal do Sporting?

Não é de agora, há muito tempo, infelizmente demasiado, que o jornal do clube não consegue atrair novos leitores, apesar das várias tentativas feitas nesse sentido pelas diversas direcções. Há pouco mais de um ano foi dado um passo que se julgava determinante, o formato digital, sem que se tivesse conhecido resultados encorajadores.

É fácil atirar as culpas para os potenciais destinatários, os sócios e adeptos, mas a reflexão impõem-se: 

Os conteúdos e a periodicidade são suficientemente atractivos? 

Como é gerido o jornal e por quem e qual a sua experiência na área?

O formato papel e agora digital da publicação continuam a fazer sentido?

Não é possível alargar a publicação a outras plataformas?

Tendo em conta a ameaça permanente à sua manutenção, e sem prejuízo da avaliação acima sugerida, não era aconselhável, por exemplo, a indexação de uma verba das quotas para que o jornal chegasse a todos os sócios, de forma a que a mais antiga publicação europeia do género continuasse a constar do nosso património colectivo?

Isto vem a propósito da noticia que desde ontem circula dando conta do despedimento colectivo do que restava do corpo redactorial do referido jornal que, ao que se diz terá sido substituído pela empresa YoungNetwork, a mesma que trabalha com Bruno de Carvalho desde o momento da sua candidatura. 

O "diz-se que" só surge aqui porque até ao momento não existe qualquer comunicado oficial do clube informando os sócios, o que se lamenta. Provavelmente ela surgirá mas a destempo, tendo a informação chegado por via indirecta, quando podia uma pequena nota no site do clube ter feito toda a diferença.

O facto de se tratar de uma empresa de confiança do presidente parece-me natural, não podia ser o inverso. Porém apenas como situação de recurso e não como decisão definitiva. Não apenas porque o processo de atribuição de competências editoriais em nome do clube deve ser transparente, auscultando o que o mercado tem para oferecer. Mas também porque, a acontecer uma concessão ou outsourcing, há uma mudança radical de modelo de gestão que não pode passar sem se ouvir o que os sócios têm para dizer.

Aguardemos. Mas, tal como disse em ocasiões anteriores, o Sporting tem entre os seus sócios e adeptos, dos melhores profissionais na área que poderiam ser ouvidos ou até mesmo considerados para dinamizar um sector - informação institucional e marketing - que há anos, muitos mesmo, sofre por uma gestão moderna e profissional.

Um nota final mas incontornável:

Não conheço nenhum dos profissionais envolvidos. São os últimos oito de um grupo de sessenta abrangidos por medida idêntica. Lamento o que este este fim abrupto representará nas vidas dos envolvidos. Num grupo tão extenso de pessoas é natural que existam muitos que nunca mereceram a honra de trabalhar no clube. Mas para outros este momentos não é apenas o final de um trajecto profissional num momento particularmente difícil para ficar desempregado, é também o fim de uma ligação especial ao clube do coração. 

Para muitos trata-se de o fim de uma ligação de algumas décadas, não tendo logrado  ao  longo deste tempo, por falta de melhores decisores, melhor enquadramento para as suas qualidades e ambições. É porém de todo indiscutível que o actual molde de funcionamento era até já embaraçoso para a imagem do clube, como se pôde verificar por exemplo na sua última edição.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Onde se começou a decidir o campeonato 2013/14

O ano passado, em pleno verão, no auge da desilusão encarnada, dizia a um amigo benfiquista que o segredo do sucesso desta época estaria na decisão de manutenção ou não do treinador, Jorge Jesus. Estou em crer que ele não me levou muito a sério, provavelmente pensou que o meu vaticínio era um desejo de maldição a estender-se por mais uma época, depois do final catastrófico da de 2012/13. 

Obviamente que, como adepto do Sporting, não tinha qualquer interesse na continuidade de Jorge Jesus. Mas também não me apetecia nada vê-lo mudar de armas e bagagens aqui mais para Norte, para a Invicta. Esse teria sido seguramente o destino do treinador, pois não acredito que Pinto da Costa deixasse passar essa oportunidade. A ter acontecido, podíamos muito bem ver-se estender por mais alguns anos a hegemonia do FCPorto. 

Não deixa por isso de ser paradoxal e até caricato que grande parte da nação benfiquista que há menos de um ano estava na disposição de carregar pessoalmente as malas de Jorge Jesus até ao Dragão, estivesse ontem a celebrar efusivamente uma vitória que, a ter-se cumprido a sua vontade, dificilmente teria acontecido.

Grande parte das decisões do campeonato começam-se a desenhar antes do seu  início e o deste ano não andará muito longe disso. A constituição das equipas técnicas foram obviamente decisivas. Juntaria como momentos de decisão do campeonato a jornada da ida à Luz: a derrota, da forma como foi, deixou marcas em ambas as equipas, impondo-lhes trajectórias opostas: o SLB passou a jogar com a confiança que aqui e ali lhe ia faltando e o Sporting não voltou ao melhor que já havia conseguido. Três momentos que antecederam esse jogo contribuíram também para o desfecho: 

(i) O empate com o Nacional. Apesar do mau jogo o Sporting devia ter ganho esse jogo;

(ii) O empate com a Académica. O mesmo que o com o Nacional, acrescido do facto de se William ter ficado impedido de jogar na Luz;

(iii) A má surpresa de Jardim para o dérby;

O SLBenfica, agora campeão, começou a sê-lo no momento em que decidiu manter Jesus. Não que não o pudesse ser com outro treinador qualquer, mas seria muito difícil chegar alguém que conhecesse tão bem o plantel, que contratasse exactamente os mesmos jogadores, mantivesse a mesma identidade e sobretudo o futebol praticado tivesse a qualidade com o que a sua equipa acaba o campeonato. É verdade que foi exactamente isso que Jesus fez no primeiro ano e que chega à Luz mas os tempos eram radicalmente diferentes.

A razão deste meu vaticínio é também por aqui: há um momento antes e depois de Jesus no SLB: Entre o titulo de 2004/05 e o primeiro de Jesus o SLB coleccionou terceiros e quartos lugares. O final da época havia sido demasiado traumático, especialmente o final da Taça de Portugal, e manutenção de Jesus, sendo um jogada arriscada, significava não ter que começar tudo de novo. O risco da jogada pagou bem.

O FCPorto decidiu interromper o ciclo de Vítor Pereira por o julgar esgotado, sem nunca valorizar o facto de o treinador ter conseguido triunfar mesmo perante a cada vez menor qualidade dos seus plantéis. Pinto da Costa e a sua tão incensada super-estrutura acabaram sendo apanhados de surpresa com a ida de Vítor Pereira para o Oriente, talvez cansado de servir de para-raios à volta do qual se abrigavam todos os que com ele dividiam responsabilidades. Com sorte podem ter arranjado um novo bode expiatório com Paulo Fonseca, mas o trajecto das últimas duas épocas revela que têm havido mais jeito para vender do que para comprar. Não se pode sequer falar em desinvestimento, atendendo ao número de jogadores adquiridos e dinheiro despendido.

Curioso que hoje, nas análises que vi a este campeonato, do qual ainda faltam duas jornadas, falou-se quase sempre de SLB e FCP e muito pouco do segundo classificado, o Sporting. Isto mesmo quando se reconhece justiça na classificação, que já não poderá conhecer alteração no que ao pódio diz respeito. 

Há várias razões para que tal suceda. Desde logo os interesses instalados, para quem o regresso do Sporting aos lugares cimeiros e à luta pelo titulo é uma maçada. Grande parte desses interesses são precisamente os de SLB e FCP, obviamente. 

Depois há uma natural desconfiança que este Sporting 2013/14 seja um epifenómeno que o próximo campeonato se encarregará de normalizar. Essa desconfiança tem também alguma razão de ser: há ainda grandes diferenças entre os plantéis dos três rivais, diferenças essas que este ano foram atenuadas pela conjunção do excelente trabalho de Leonardo Jardim e pela "debacle" do FCPorto. Mas este final de campeonato tem revelado um Sporting algo esgotado de soluções para contrariar o melhor conhecimento do nosso jogo e o facto de sermos levados mais a sério. O jogo da última jornada, em Belém, é um bom exemplo.

Esse é grande desafio da próxima época que, tal como esta, terá que começar a ser ganha desde já: contrariar a ideia de que o Sporting é apenas "uma agradável surpresa" e tornar certo que somos uma "incómoda certeza". O plantel actual é demasiado curto, quer em quantidade quer sobretudo em qualidade, especialmente para lutar pelo principal objectivo - que terá de ser sempre o título - ou para assegurar uma presença condigna na Liga dos campeões. O desafio também estará novamente nas mãos e sobretudo na cabeça de Leonardo Jardim em reinventar o modelo de jogo, quando o actual dá ares de estar algo estafado. 

sábado, 19 de abril de 2014

Ascender aos céus europeus em sábado de aleluia

Poucas linhas para falar do jogo que há pouco acabou por confirmar o segundo lugar e, por consequência, o regresso pela porta grande às competições europeias. E essas linhas devem-se sobretudo ao que foi hoje alcançado, já que o jogo foi demasiado fraco para merecer a interrupção das merecidas férias pascais.

E se o jogo foi fraco tal se deve ao mérito do Belenenses pela forma como preparou o jogo. Linhas recuadas, abdicando de avançado fixo para com isso garantir superioridade numérica sobre o nosso meio-campo. Dessa forma não conseguimos ligar o nosso jogo, ficando sempre muito longe da área azul, facto que Leonardo Jardim nunca encontrou solução para contrariar. Não é demais lembrar que este Belenenses criou grandes dificuldades quer a FCP quer a SLB. Outra razão de fundo para a falta de qualidade do jogo foi indiscutívelmente o péssimo estado do relvado, pouco favorável a grandes recitais futebolísticos.

É muito difícil fazer grandes destaques individuais positivos. Excepção feita a Patrício que, quando foi preciso esteve sempre no lugar certo e na hora certa. E André Martins pelo inconformismo demonstrado em não se deixar cair na mediocridade geral.

Sobre o árbitro direi apenas que foi mais uma demonstração da falta de qualidade que Cosme Machado habitualmente faz questão dar testemunho por esses campos fora.

Não há nada de especial a comemorar com este segundo lugar, que devia ser encarado como a normalidade para um clube como o Sporting Clube de Portugal. Mas se é verdade que os segundos lugares não se comemoram não deixa também de ser verdade que este regresso à normalidade é um feito notável, atendendo ao que foi o ponto de partida. Por isso esta é hora de dar os parabéns a todos quantos tornaram este momento possível.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Feliz Páscoa com Gabriel Garcia Marquez

2 razões para este post: a oportunidade para desejar uma Páscoa Feliz a todos os que lêem este blogue e lembrar Gabriel Garcia Marquez, esse grande escritor colombiano, ontem falecido. Gabriel Garcia Marquez foi jornalista e a crónica que abaixo se partilha foi escrita por ele, num mês de Abril de 1950, retratando uma das suas primeiras idas ao futebol. 

Nesse jogo Garcia Marquez falaria do craque brasileiro Helénio de Freitas, um craque saído em desgraça do Botafogo, com passagem curta pela Argentina, até chegar ao país do café e mulheres bonitas ao Juniores de Barranquilla. Aí haveria de cruzar com Alfredo Di Stéfano, hoje símbolo do Real Madrid, então jogador do Millionários.

Dois anos volvidos Garcia Marquez voltaria a ver Helénio no mesmo estádio. A crónica desse momento, mesmo que breve, condensa um pouco do que é o futebol e as suas contradições.

"No primeiro dia do mês em curso escreveu-se nesta secção uma crónica sobre abril. Esperava este jornalista que no transcurso desses trinta dias acontecessem algumas coisas interessantes, entre elas, que Pafúncio se fartasse com um pratarraz de feijão com arroz no boteco do Perico; que Clark conseguisse seduzir a Srta. Lane sem necessidade de transformar-se em Super-Homem e que Tarzan deixasse de praticar as suas piruetas atleticamente selvagens.

Parece que no que já transcorreu do mês nada disso aconteceu, como não acontecerá no que falta dele, segundo se pode suspeitar. Quanto ao casamento de Ingrid Bergman, as últimas notícias dão a entender que o Director Rosselini ainda espera saber com quem se pareça a criança antes de lançar ao pescoço a coleira conjugal. Em síntese, a única coisa que parece ter dado certo naquela crónica de saudação aprilina foi a comprovada reivindicação do Dr. Heleno de Freitas no gramado do campeonato nacional. Um acordo que poderia encher de orgulho o próprio dr. Gallup, não tanto por sua precisão, mas pela circunstância especial de que quem revelou a notícia a respeito do jogador brasileiro jamais se sentou nas bancadas de um estádio.

Tenho o costume – e isso pode ser uma das formas da inclinação pelo desporto – de observar, nas tardes dos domingos, o rosto daqueles que deixam o estádio. A tarde em que o dr. De Freitas se apresentou pela primeira vez, é muito possível que, se ele tivesse a capacidade de entender certas interjeições castelhanas, teria regressado ao Brasil no primeiro avião. 

O tempo passou e no domingo seguinte, depois de treinar incansavelmente com os companheiros, o dr. De Freitas deve ter chegado à conclusão de que, mais do que tais práticas desportivas, lhe seria melhor uma prática metódica e consciente da gramática castelhana. Foi talvez por isso que lhe correu melhor a sua segunda apresentação, mostrando-se já capaz de compreender que a gritaria vinda das tribunas não era de aprovação, mas de descontentamento. 

Foi já na sua nova apresentação em Barranquilla, de volta de Cáli, que o dr. De Freitas se mostrou capaz de conjugar perfeitamente os tempos simples do verbo “fazer”. “Farei milagres”, declarou à imprensa, ao dar-se conta de que o público queria exactamente isso. Que fizesse milagres. E, segundo me contam alguns que estiveram nesse dia no Estádio Municipal, o que o brasileiro fez foi uma milagrosa actuação. Praticamente, disseram, o dr. De Freitas – que deve ser um bom advogado – redigiu nesta tarde, com os pés, memoriais e sentenças judiciais não apenas em português e espanhol alternadamente, mas também citações de Justiniano no mais puro latim clássico.

Agora ninguém mais discute que Abril foi o mês definitivo para o dr. De Freitas, e isso porque ele aprendeu a traduzir para o espanhol toda essa gíria que tanto prestígio lhe deu em seu país de origem. Como diz um grande contista nosso: “O importante é a gramática.”

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Dois domingos atrás o público de Barranquilla foi ao Estádio Municipal com o único objectivo de presenciar a volta do dr. Heleno de Freitas. Tenho a impressão de que, mais que as mãos para aplaudir, os adeptos levavam as gargantas para apupar. Não seria o mesmo Heleno de há dois anos o que naquela tarde iria aparecer no relvado. Era um homem completamente diferente, dois anos mais velho, já passado pelo torno de uma consciente e multitudinária análise, cujos resultados ainda são desconhecidos, o que impediu a todos que entendem de futebol atrever-se a dizer se Heleno é um génio ou um embuste sem o perigo de ter de se retratar no domingo seguinte.

Os dirigentes do Junior mais uma vez trouxeram o advogado brasileiro aos relvados colombianos, e com isso demonstram possuir um inteligente conhecimento da psicologia colectiva. Um público que paga para ver um espectáculo de qualidade é, de certa forma, um público sem esperança, ao qual nenhuma atracção promete o futuro. No entanto, sendo Heleno o que está na proa, o adepto vai ao estádio como quem leva no bolso um bilhete inteiro de lotaria. Porque com Heleno não existe meio-termo. Se se comporta como charlatão, o público sabe que comprou um bilhete em branco que lhe dá a oportunidade de vaiar. Em nenhum caso uma partida da qual participe Heleno tem probabilidade de se transformar num logro, porque vaiar, da mesma maneira como aplaudir, é uma forma colectiva de reconhecer publicamente um facto.

Os adeptos devem ter observado, através das fotografias que foram publicadas na imprensa local, que Heleno parecia não ter feito outra coisa no Rio de Janeiro senão engordar. De volta à capital brasileira, onde foi recebido como o personagem principal de um filme de bandidos, com revólveres e socos de ida e volta, o “mestre” – ou o palhaço – descuidou-se na sua dieta, guardou no armário, juntamente com o calção e demais artefactos do ofício, a prática diária de ginástica sueca, e ficou à espera de que lhe fosse dada uma absolvição, absolvição que chegou de onde ele menos esperava, ou seja, da episcopal equipe de Régulo Matera. Mas então Heleno começara a engordar. E o público de Barranquilla, que percebeu isso desde a sua chegada, rompeu todos os diques para se permitir mais uma vez o prazer de vaiá-lo.

Como, semanas atrás, me arrisquei a dizer, o Júnior de Barranquilla agora está completo. Quando vencer, será uma equipa admirável, bem-ajustada, com um moral de cimento armado. Se perder – e oxalá isso aconteça poucas vezes - Heleno se tornará mais uma vez o farsante, o palhaço. E com isso o público ficará feliz, já que no futebol se segue a regra de que, quando a equipa ganha, os adeptos também ganham, mas quando perde cabe à equipa enfrentar sozinho a borrasca da derrota. Neste último caso, os adeptos limitam-se a pagar as apostas e a dizer – no caso do Júnior de Barranquilla – que enquanto Heleno de Freitas estiver na Colômbia a culpa é dele e não das camisolas vermelhas às listas brancas.

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