A revolução, a dúvida e o prazo de validade de Rui Borges
Poucos serão os sportinguistas que ainda não terão ficado surpreendidos com a revolução que a SAD, com o beneplácito do treinador (?), decidiu empreender no plantel da equipa. Contrariamente ao que seria expectável — e desejável? —, o Sporting decidiu prescindir, como prioridade, dos jogadores mais talentosos, em vez dos que, por falta de talento ou de utilidade, poderiam ser considerados excedentários.
Ainda sem recuperar da surpresa, a interrogação que fica desde já é o que esperar do Sporting nesta época, que leva já duas jornadas. Se ficássemos pela amostra que esses dois jogos deixaram, a desilusão não poderia ser maior. Os problemas detetados nas equipas de Borges desde que chegou ao Sporting não só se mantiveram como se agravaram, especialmente do ponto de vista defensivo: a equipa expôs-se em demasia e deixou-se agredir por adversários que não têm, ou não deveriam ter, valor suficiente para representar um perigo tão grande na conquista dos respetivos três pontos. Tanto assim foi que, dos seis pontos "obrigatórios", dois ficaram pelo caminho e têm agora de ser recuperados, se o Sporting ambiciona voltar a festejar a conquista do título.
Esta é, para mim, a grande dúvida e a principal fonte de apreensão neste momento: sem consistência defensiva, é possível ser campeão? Não existe uma fórmula matemática que responda com segurança a esta questão, mas, na ausência dessa característica tão importante, o Sporting fica obrigado a um nível de acerto e de eficácia ofensiva enorme e de difícil sustentação ao longo de um campeonato tão longo. Não é impossível, mas é seguramente uma tarefa mais árdua do que a que esperam as equipas equilibradas em todos os momentos do jogo. E é precisamente esse equilíbrio que parece estar a faltar, neste momento, à equipa de Rui Borges.
Depois da surpresa da revolução, seguiu-se o espanto perante uma prestação notável nos jogos de preparação, protagonizada por uma equipa em que muitos dos jogadores recém-contratados e chamados a papéis de destaque mal se conheciam entre si. Os poucos golos sofridos anunciavam consistência e solidez defensivas; os muitos golos marcados, eficácia e pujança ofensivas. Nada que a cruel realidade dos jogos a doer não tardaria a desmentir.
Com naturalidade, depressa três questões passaram a estar na ordem do dia:
As entradas dos novos jogadores acautelaram, na tal revolução, as saídas registadas?
Faltam ainda alguns dias para o fecho do mercado, pelo que algumas saídas e entradas são possíveis — o que, a acontecer, obrigaria a reescrever este parágrafo. Do ponto de vista do valor e do potencial, as escolhas feitas mereceram elogios. Mas, para já, parece continuar a faltar um jogador que tenha na organização, no pensamento e na ligação do jogo uma das suas melhores características — alguém capaz de impor pausa e discernimento ao nosso jogo ofensivo. Do ponto de vista da organização defensiva, parece haver pulmão e músculo mais do que suficientes para a tarefa. O que falta, por ora, terá de vir do gabinete técnico chefiado por Borges.
Com uma alteração tão profunda na estrutura da equipa, é possível dotá-la, em apenas uma pré-época, das ferramentas indispensáveis para formar um conjunto vencedor?
Quanto à questão temporal — mais propriamente a escassez de tempo que medeia o arranque da época e as provas oficiais —, não faltam exemplos de sucesso, embora os de fracasso, total ou parcial, sejam muito mais numerosos. Caberá à SAD e a Rui Borges explicar melhor a escolha deste caminho, em oposição à política, até agora seguida, de sucesso desportivo e financeiro através de transações cirúrgicas. Se um dos objectivos era ser campeão nacional em volume de negócios, esse está plenamente conseguido; mas, obviamente, ninguém em seu perfeito juízo imagina que esse fosse o objectivo.
E, por último — e talvez a pergunta que mais ocupa a mente dos sportinguistas —, será Rui Borges o treinador indicado para este momento e capaz de levar a bom porto a enorme tarefa que não só aceitou como ajudou a criar?
É quase um lugar-comum dizer hoje que Rui Borges tem uma margem de tolerância muito curta e uma imagem muito desgastada junto de boa parte dos adeptos sportinguistas. Isso resulta de um rotundo zero de títulos numa época em que decidiu impor "o seu cunho pessoal" e de uma derrota ignominiosa na final da Taça de Portugal.
O grande mérito de Rui Borges na conquista do tão ambicionado bicampeonato e dobradinha — arrancando o Sporting de um luto que poderia ter sido traumático — foi, precisamente, o bom senso de não operar uma revolução, optando antes por aproveitar as ideias base do seu antecessor e alterar, de forma cirúrgica, aquilo que lhe parecia merecer correcção. A conjuntura não podia ser mais adversa: o Sporting acabava de perder o seu melhor treinador em sete décadas, bem como aquele que era tido como o seu sucessor natural. Borges superou o exame com distinção.
Na segunda época — a tal do cunho pessoal —, alguns dos sinais de que a equipa havia perdido as suas melhores qualidades ganharam cores mais garridas. E mesmo o tão importante segundo lugar deixou dúvidas sobre se se devia ao mérito da equipa e do seu treinador ou à incompetência do seu eterno rival. Os últimos dez jogos deixaram uma imagem débil, sombreando o brilho de uma boa época europeia : em abril, o Sporting entregou o campeonato, perdendo o dérbi em casa e somando depois empates frente às duas equipas que haveriam de ser despromovidas, Tondela e Aves. Sobre a derrota na final da Taça, já tudo foi dito.
| Data | Competição | Jogo | Resultado |
|---|---|---|---|
| 24/05/2026 | Taça de Portugal – Final | Sporting 🆚 Torreense | 1–2 ❌ |
| 16/05/2026 | Liga | Sporting 🆚 Gil Vicente | 3–0 ✅ |
| 11/05/2026 | Liga | Rio Ave 🆚 Sporting | 1–4 ✅ |
| 04/05/2026 | Liga | Sporting 🆚 Vitória SC | 5–1 ✅ |
| 29/04/2026 | Liga | Sporting 🆚 Tondela | 2–2 🤝 |
| 26/04/2026 | Liga | AFS 🆚 Sporting | 1–1 🤝 |
| 22/04/2026 | Taça de Portugal – meia-final | FCP 🆚 Sporting | 0–0 🤝 |
| 19/04/2026 | Liga | Sporting 🆚 Benfica | 1–2 ❌ |
| 15/04/2026 | Champions League – quartos-de-final | Arsenal 🆚 Sporting | 0–0 🤝 |
| 11/04/2026 | Liga | Estrela 🆚 Sporting | 0–1 ✅ |
Balanço dos últimos 10
- 🟢 4 vitórias
- 🟡 4 empates
- 🔴 2 derrotas
- ⚽ 17 golos marcados
- ⚽ 9 sofridos
- 4 jogos sem sofrer golos
Vamos ver do que é capaz, este ano, Rui Borges. Sendo verdade que "isto é como acaba e não como começa", também o é que "candeia que vai à frente alumia duas vezes". Neste momento, só Rui Borges pode salvar Rui Borges — isto é, compete ao treinador acrescentar mais datas ao seu prazo de validade. Não que alguém na SAD tenha dado qualquer indicação de que a cabeça do treinador está no cepo. Mas, depois de tamanha revolução, com a consequente perda de talento e de jogadores carismáticos, tem de haver resultados que legitimem a operação. E, quando estes não surgem, é o treinador que fica sempre mais exposto. Mas também a SAD — isto é, Frederico Varandas — poderá sair chamuscada.

A generalidade dos sportinguistas aceitou como boa a limpeza levada a cabo no plantel do Sporting. Limpeza que como aqui se refere elegeu como prioridade os jogadores mais importantes do clube, aqueles que estão umbilicalmente ligados, na sua maioria, aos êxitos do período da liderança de Varandas.
ResponderEliminarO Sporting tinha urgência nessa limpeza e, talvez por isso, vendeu quase todos com grande desconto. O caso de Trincão é o mais chocante: o valor recebido - 37,5 milhões de euros - quase não deu para pagar o jogador que o irá substituir - se conseguir, o que não me parece - Salazar de seu nome.
Os dois jogos mostraram que a equipa é forte e eficaz a atacar e que tem capacidade goleadora. Mostraram que a equipa não sabe controlar o jogo, fazendo uma gestão inteligente da bola, e não sabe defender, mostrando uma enorme incapacidade para controlar o meio-campo.
Rui Borges é um treinador derrotado. Tão derrotado quanto estava na parte final do campeonato passado. Incapaz de alterar o rumo dos acontecimentos e vitima de opções pré-determinadas que aplica de forma mais ou menos cega, independentemente do que se passa no jogo. Ganhámos ao Guimarães mas não me recordo de ter assistido a um jogo tão mau como foi a segunda parte. Cada vez que Rui Borges mexeu na equipa a equipa piorou. Um padrão. Devo referir que aos 76 minutos sai porque o jogo se tinha tornado num penoso castigo.
Os sócios do Sporting talvez merecessem uma explicação por quem tomou esta bizarra decisão de liquidar a equipa existente. Quem mantêm Bragança à parte e Pote à parte, quando já se percebeu - para quem não tinha fundadas dúvidas desde o início - de que os jogadores que vieram não são da mesma qualidade. Os grandes reforços são afinal Flávio Gonçalves e Nel - mas, condenado a jogar pouco pelo conservadorismo de Rui Borges - além do Altimira, cujo desempenho - não sendo o Palhinha - tem sido bastante bom, com um erro ou outro.
Precisávamos de um bom guarda-redes, de um patrão para o meio-campo - que vai para Carnide - e de um treinador diferente daquele que geriu penosamente a equipa na segunda volta do último campeonato e na Taça de Portugal.
Veremos se isto se compõe. Há muito estrago feito, lá isso há.
Não me parece que Rui Borges tenha condições para continuar no comando da equipa. Pela má qualidade do trabalho feito na segunda parte da temporada que mostrou um conjunto de limitações que o treinador de Mirandea não mostra capacidade para corrigir. Más substituições, adopção de posturas defensivas após se encontrar em vantagem, com sucessiva perda de pontos. Duvidosas opções na gestão do plantel, com uma hierarquia não baseada no mérito. Excessiva - ou será total? - submissão às opções desportivas da SAD.
ResponderEliminarInexplicável quebra nas segundas partes como se viu agora nestes dois jogos, num rigoroso remake da temporada passada.
A sua continuação no lugar foi o erro capital da preparação da temporada desportiva. Infelizmente não foi o único.
A SAD e Rui Borges - eternamente escudado na frase oca que utiliza permanentemente: os jogadores querem seguir outros caminhos - nunca irão explicar a mudança radical que promoveram.
ResponderEliminarHoje dia 31.08 dois proscritos em Alvalde foram finalmente afastados: Pote e Bragança, sujeitos a um tratamento inaceitável.
Varandas afasta os culpados dos desaires da última temporada - os bodes expiatórios- mesmo sem os conseguir vender imediatamente. Bragança, se a coisa se.pudesse estender mais uma semana, talvez pudesse sair por um saco de torresmos e umas bifanas. Uma vergonha.
Há comportamentos que lembram outros tempos, não muito antigos, em que o poder de servir o clube se confundiu com o poder de tratar o clube como coisa sua. Acabou como se sabe.