Fim de linha para Rui Borges? E o que fará Varandas a seguir?
É certo que o futebol é mesmo uma caixinha de surpresas, mas é muito difícil sair do sítio onde Rui Borges ficou depois da derrota com o Académico de Viseu. O Sporting disse adeus ao campeonato pelo segundo ano consecutivo desde que Rui Borges decidiu imprimir o seu “cunho pessoal”. Neste momento poucos duvidarão que Rui Borges dificilmente cumprirá o seu contrato e muitos têm já como certo que o atual treinador do Sporting não chegará sequer ao Natal.
Duas coisas me parecem importantes sobre Rui Borges. Do ponto de vista humano, parece ser uma pessoa bem formada, e a sua atitude profissional esteve sempre acima de qualquer reparo. Apesar dos títulos conquistados, porém, o seu nome nunca foi consensual entre uma fatia generosa de sportinguistas, por duas razões que parecem estar na origem da desconfiança: o discurso pouco atrativo e nada mobilizador, demasiado contrastante com o do seu antecessor, e as origens futebolísticas modestas, sem grandes referências.
O que temos visto este ano é uma nítida degradação da capacidade competitiva da equipa, e isto ainda antes de defrontar os grandes rivais. O percurso em plano inclinado trouxe-nos a este momento: parecem já longínquas as conquistas do bicampeonato e da dobradinha, e nem a boa campanha na Champions da época transata parece contar.
O divórcio dos adeptos com o treinador resultará de falta de memória? Recorde-se o que sucedeu com Rúben Amorim, que, na primeira época (na verdade, só meia) e na terceira, colecionou dois quartos lugares. Os sportinguistas souberam então ser pacientes e até compreensivos, e essa paciência foi o alicerce de duas épocas de hegemonia sportinguista no futebol nacional. Porque é diferente agora a reação?
Alguns dos motivos já ficaram descritos, a começar pela falta de confiança no treinador. A desconfiança inicial é agravada por sinais que vincam a impossibilidade de Borges alterar o rumo dos acontecimentos e que, pior, deixam a sensação de que a situação ainda se pode agravar. Ao invés de se resolverem, os problemas da equipa mantêm-se ou agravam-se. Os sportinguistas deixaram de sentir que há rumo e ideias capazes de inverter o momento.
É aqui que entra o papel da SAD e, muito em particular, de Frederico Varandas. O desmantelamento de um plantel vencedor nunca foi bem explicado, e sobejam as dúvidas sobre se o presidente não se terá enganado no diagnóstico que o levou a preferir o treinador aos jogadores mais talentosos e carismáticos, para muitos as caras das vitórias. Enganado ou não, a verdade é que Varandas já não tem na mão a carta do passo atrás. Saberá melhor do que ninguém se subsiste uma das condições imprescindíveis para equacionar a continuidade do treinador: o plantel ainda está com ele e confia nele?
Varandas também não ignorará as suas próprias responsabilidades. Tendo optado por uma temerária reformulação drástica do plantel, pode sentir-se tentado a prolongar a presença de Borges no comando da equipa, pelo menos enquanto não sentir o terceiro lugar em risco. Mas isso acarreta riscos elevados. Quando ocorrerá o último momento a partir do qual a perda é irreversível? E, quando se tornar necessário mudar, quem estará disponível à altura do cargo?
Um dos muitos rumores em circulação é o recurso a um treinador interino (Tiago Fernandes?) enquanto se espera por uma solução do agrado do presidente (Abel? Jardim?). Seria um erro crasso e contraditório com o que Varandas afirmou recentemente, ao confessar o erro de ter substituído precipitadamente Keizer quando não tinha uma opção melhor. Os jogadores veem um treinador interino como alguém sem autoridade ou impacto nas suas carreiras.
O que Varandas certamente não ignorará é que um ambiente apodrecido em torno da equipa torna Alvalade irrespirável, sem falar do reflexo que a falta de vitórias tem nas receitas indispensáveis para manter o clube numa rota de sustentabilidade. Nem ignorará que, depois do treinador, é ele quem estará na primeira linha da contestação.
Não sabemos como nem quando terminará o consulado de Borges no Sporting, mas sente-se no ar que Varandas se verá obrigado, mais cedo do que tarde, a escolher novo treinador. Sabe melhor do que ninguém o que é fazer uma má escolha e o que é presidir com um treinador vitorioso e carismático que lhe sirva de escudo, algo que Borges nunca conseguiu ser. Um treinador vitorioso, todos querem; o carisma é uma espécie de bónus, um para-raios para os momentos de tempestade. Dificilmente deixará de ter presente essa característica na hora de nova escolha.

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