sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sporting TV - O inicio e a entrevista: as criticas às TV's dos outros e a Missão Pavilhão

A data histórica não foi tão histórica quanto foi almejado mas foi-o a hora: 19:06. Uma excelente lembrança para assinalar a concretização de um projecto há muito ansiado, a Sporting TV. 

Não tendo podido estar à frente do ecran nos momentos iniciais, foi o primeiro acto realizado assim que entrei em casa: ligar a televisão e mudar para o canal 35. Um acto que certamente foi repetido ontem, vezes sem conta, com muita emoção à mistura, pelos Sportinguistas espalhados pelo país. 

Alguns apontamentos do pouco que me foi possível ver porque, além do adiantado da hora, a emissão de ontem centrou-se na retransmissão da I Gala Honoris, evento a que já havia assistido quase na totalidade, em directo. 

- O logotipo resulta muito melhor em execução no ecran do que da forma como foi visualizado, de forma estática, quando foi anunciado. 

- Algum nervosismo e algumas pequenas imperfeições - ruídos de fundo nalgumas reportagens, o que nem sempre pode ser controlado e sobretudo em alguns programas pré-gravados e ontem anunciados -  nalguns momentos, o que deve ser considerado natural. Trata-se de uma emissão inicial  e se é natural que se exija profissionalismo, também o é que se seja tolerante numa fase como a que estamos a viver. A pior coisa que podemos fazer a este projecto, que nos é tão caro, é sentarmo-nos no sofá de caderno de apontamentos na mão, a anotar erros e imperfeições. 

- Só quem nunca participou ou assistiu a uma emissão em directo não percebe o que os picos de adrenalina e stress podem obrigar a fazer ou dizer um repórter. Ora, a generalidade dos repórteres seleccionados são jovens e com pouca experiência, pelo que juntar o Wilson com o Carvalho não merece outra nota que não a humorística feita por Bruno de Carvalho, quando foi entrevistado. Provavelmente a repórter também não é muito familiarizada com o futebol,  é muito difícil que alguém que o seja cometa o mesmo tipo de gaffe, pelo que, se assim é, a culpa deve ser remetida a quem a colocou lá.

- Há outros pormenores porém, porque podem ser controlados, que merecem mais cuidado. Por exemplo, vários atletas foram entrevistados, alguns deles "à civil", isto é, com a sua própria roupa. Pelo menos um deles exibia um grande logo de uma marca de roupa, a quem acabamos por fazer publicidade de borla. Se isto não é controlável em direto, é-o num programa gravado. A banalização deste tipo de ocorrências acaba por desvalorizar a importância e o poder da imagem da nossa televisão.

- Uma nota lateral para a menção a Moutinho como sucesso da formação. Compreendo a critica pelo lado da emoção e dos sentimentos que o jogador suscita pela forma como saiu e, depois disso, pela forma como se refere ou esquece o clube onde se formou. Mas é indiscutível que Moutinho é um sucesso assinalável para a formação do clube. Ainda há dias vi menções ao jogador pela sua fraca participação no Mundial, é certo, mas inserido num grupo de 50 de quem mais se esperava na competição. Estamos a falar de um jogador que provavelmente se teria perdido noutro clube qualquer, atendendo às suas caracteristicas. Mesmo que assim não fosse, foi o Sporting que acreditou nele, dando-lhe a titularidade desde os 18 anos. Compreendo as dúvidas sobre a referência ao seu nome no nosso espaço televisivo mas o sucesso da formação do Sporting no caso dele é indiscutível.

- A preferência por profissionais experimentados, nestas áreas, paga os seus dividendos. O ex-jornalista da SIC, Nuno Graça Dias esteve sempre muito seguro e em muito bom nível.

A entrevista a Bruno de Carvalho
Foi um presidente diferente do que aquele a que Bruno de Carvalho nos habituou em momentos semelhantes. Devo dizer que este registo me agrada mais e se aproxima mais do que espero de um presidente do Sporting, pelo menos em contraste com o que foram algumas aparições menos felizes dos últimos tempos. E este registo nada tem a ver com um presidente passivo e submisso. E esteve muito bem na forma como relativizou a gaffe mais notória da noite, a já aludida fusão entre Wilson Eduardo e William Carvalho. 

Da excepção à apreciação positiva da prestação do presidente deixo 2 notas:

Missão Pavilhão
O presidente referiu-se ao passado afirmando que o pavilhão só não existia porque não o quiseram construir porque "quiseram transformar este clube num clube de futebol". Uma generalização que não me parece justa nem respeita o rigor histórico que documenta a (i) perda do pavilhão, nos anos 80, ainda com João Rocha na presidência, (ii) a perda da Nave, com a demolição do velho Alvalade até à (iii) transformação do pavilhão projectado para o novo estádio num polidesportivo, para se ir atrás das mais de 50 mil pessoas de lotação para podermos albergar uma meia-final do Europeu e uma final da UEFA, de triste memória. Muitos erros de avavaliação cometidos que conduziram ao estado actual mas nem todos pela razão apontada por Bruno de Carvalho. 

Não tenho falado propositadamente sobre a Missão Pavilhão. Mas lembro que, do que Bruno de Carvalho recebeu em mãos pouco ou nada foi alterado. Lançar a obrigação para cima das costas dos sócios e adeptos é muito menos que os serviços minimos. O pavilhão não tem projecto constituído, não tem financiamento, duas responsabilidades dos corpos sociais, que têm que fazer muito mais do que lançar um peditório. Da forma como está dificilmente não estará condenado ao insucesso.

As criticas às televisões dos outros
As criticas deixadas às televisões dos nossos rivais pareceram-me imprudentes e desajustadas.

Imprudentes porque estando nós a começar estamos obrigados a produzir ao mesmo nível para nos podermos colocar num plano de podermos atirar pedras para os quintais dos outros.

É por isso que me parecem desajustadas as criticas. Quer FCP quer SLB souberam criar condições para a realização das suas TV´s que se ajustam às suas necessidades. 

O FCP soube contornar muito bem as dúvidas que se colocavam sobre a viabilidade de um canal exclusivo, por eventual falta de audiência que o justificasse. Associando-se ao Porto Canal, encontrou um espaço para a difusão institucional na plataforma TV sem grandes preocupações com logistica, beneficiando inclusive de uma imagem já instalada e reconhecida.

O SLB, depois de um começo cheio de altos e baixos no que à qualidade dos conteúdos diz respeito - um caminho que vamos ter que fazer obrigatoriamente com muito melhor nível, o que está longe de estar garantido - soube encontrar uma forma de alargar o alcance das suas emissões a uma clientela mais generalista, com a conquista do espaço que lhe abrem as emissões dos jogos da Liga Inglesa. Um passo ousado que lhe assegura a liderança das audiências dos canais deste género e de forma muito segura. Falta saber se a ousadia pagará o investimento, mas essa é a última das minhas preocupações, claro está. 

E não ficou bem a Bruno de Carvalho menosprezar as transmissões directas dos jogos da nossa principal equipa. Nas razões aduzidas (Não acreditamos propriamente no modelo em que os clubes transmitem os próprios jogos até por uma questão de coerência. Se queremos rigor e verdade desportiva, não nos parece que para esse rigor seja bom os clubes fazerem a transmissão dos próprios jogos) faltam precisamente a coerência porque vamos transmitir os jogos da equipa B em casa e só não fazemos o mesmo fora porque não temos licença para o efeito. E precisamente hoje, vamos transmitir em diferido o jogo da Taça de Honra, numa subalternização à Benfica TV que me parece indesejável.

Depois é bom lembrar que, nos anos que já levam de transmissão, a SportTV está longe de ser uma referência de rigor e verdade desportiva. Nos comentadores que selecciona e nos comentários que estes produzem e até nas imagens que selecciona. 

Convém acrescentar que serão precisamente as transmissões dos jogos do Sporting pela SportTV, ou de outro canal que as venha a produzir no futuro, que o Sporting enfrentará a mais dura concorrência e a mais difícil de contrariar. Quando o Sporting jogar, as audiências da Sporting TV estarão naturalmente às moscas, sendo de esperar que figuras tristes e lamentáveis produzidas pela Benfica TV em momentos idênticos, que hoje engrossam o anedotário nacional, não se repitam no nosso canal. Mas convenhamos que não é fácil ser o responsável pela programação nesses momentos.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Saldos no Colombo são boas noticias. Outras nem por isso

O desmantelar da equipa do campeão nacional foi o aperitivo para este post. Embora o blogue seja obviamente dedicado ao Sporting, a análise do que vão fazendo os nossos principais adversários é incontornável, porque o valor da nossa equipa é-lhes sempre relativo.

A debandada dos melhores jogadores do SLB era inevitável e provavelmente, do ponto de vista das mais avisadas regras da boa gestão financeira, está ser feita no limite da resistência. Os mais pessimistas dizem que é já tarde. Foi no entanto o "aguenta, aguenta" do ano passado que lhe permitiu chegar ao titulo. Do ponto de vista desportivo, que é o que me interessa agora analisar, é uma boa noticia para qualquer adversário, situação onde se inscreve o Sporting.  As saídas já anunciadas de Oblak, Siqueira, Garay, Markovic, Rodrigo, André Gomes, estando ainda em aberto as saídas de Enzo Peres, Gaitan, Cardozo, farão descer vários níveis o valor da equipa que dominou as competições nacionais e que, face ao que era capaz de produzir, a grande surpresa foi não ter feito o pleno, ao perder a Liga Europa com o Sevilha. 

O SLB continuará a ter em Jesus o principal suporte para a sua competitividade, mas teria que ter um defeso mais do que perfeito para que todas as incorporações lhe deixassem no nível que terminou o campeonato passado. Mas mesmo com o nome como o que ostenta, é capaz de se estar a pedir muito a um treinador que já mostrou anteriormente ser capaz de fazer milagres com jogadores quase perdidos - Coentrão é o melhor testemunho - ou de reinventar futuros como fez para Matic, Fesja, Enzo, Gaitan. E mesmo admitindo a que a facilidade de refinanciar vai subsistir, e com isso conseguir preencher os lugares em aberto no plantel, é difícil estimar que pelo menos uma parte significativa do domínio exercido não se desvaneça. Noticias como a de incorporação de Bebé são boas para os adverários, a menos que Jesus consiga o milagre de o fazer crescer numa época o que não conseguiu na totalidade da carreira. A venda de alguns jogadores a desconto ou por valores que a pressa impõe também deve ser assinalada. Continuará obviamente a ser candidato, mas dependerá muito mais do que os seus adversários forem capazes do que anteriormente.

O FCP de Lopetegui começou por ser destacado pela bizarria de uma torre no campo de treinos. A única bizarria deste facto foi o destaque merecido, uma vez que o recurso a estes meios, que permitem a sistematização da informação recolhida nos treinos, é já usada pela generalidade dos clubes, mesmo que de forma menos evidente. Ao contrário da generalidade das opiniões que fui vendo por aí, a contratação do treinador espanhol, sendo arriscada, correspondeu mais do que à busca de um curriculum - o que é sempre fácil para quem tem que decidir - à procura de um perfil. 

O facto de ter apenas sido treinador principal de selecções jovens ao invés de um problema, e face aos resultados obtidos e sobretudo pela qualidade do futebol jogado, vi como uma boa aposta. Porque não creio que seja mais fácil treinar jovens jogadores e obter resultados. E seguramente não é mais fácil treinar equipas de selecção, que se reúnem esporadicamente, muitas vezes conflituando com interesses dos clubes que os jogadores privilegiam, e obter resultados. Se dessa forma eles são alcançados não será, pelo menos em teoria, consegui-los com uma equipa que se treina em bases diárias? Obviamente que não há uma resposta óbvia para a pergunta, o futebol de uma equipa é o produto de uma série de circunstâncias, umas manipuláveis mas muitas delas imprevisíveis e impossíveis de prever ou sistematizar.

O que o FCP de Lopetegui trará a este campeonato é ainda um incógnita, mais ainda se o dispêndio de mais de 7 milhões num jogador tão limitado como Martins Indi - um Maurício muito caro, resumiria - o for da sua autoria e o que tal representaria como testemunho da sua visão do futebol a implantar. Mas a última coisa a esperar serão facilidades. Indi é um nome forte pela selecção que representa, mas fraco em relação aos colegas com divide o estatuto de recém-chegado, com Adrian Lopez e Tello no extremo oposto do holandês do Barreiro. Os melhores anos do FCP foram precedidos de falhanços mais ou menos estrepitosos como o da época transacta. Não menosprezaria nunca a vontade de vencer a todo o custo - expressão que deve ser lida e entendida de forma literal - do clube das Antas. 

Do nosso lado, todos os dias são boas noticias quando nenhum dos jogadores titulares da época passada não são confirmados noutros clubes. Manter um fio condutor entre o que de bom se fez no passado recente e acrescentar-lhe qualidade ao jogo e ao plantel são as tarefas pendentes. Porém, como se sabe, isso dificilmente se consegue sem refinanciar a SAD por via de realizações de mais-valias com os jogadores mais valorizados pelo mercado. Ora até ao momento tal não aconteceu, o que parece estar a travar os passos necessários para fechar o plantel. O ideal seria que a integração dos últimos reforços acontecesse a tempo destes participarem o mais possível na pré-época, nomeadamente nos jogos já agendados. Os movimentos de avanço e recuo no mercado, de que Rafael Martins e Kapino dão nota, podem muito bem estar relacionados com essa indefinição.

Dos 6 jogadores até agora contratados não há nenhum nome particularmente entusiasmante, o que não é particularmente significativo ou definidor, atendendo sobretudo ao desconhecimento que envolve a totalidade dos reforços, excepção feita a Paulo Oliveira. Do meu ponto de vista são jogadores a mais para as limitações financeiras apregoadas (e reais) e que, à excepção de Rosell, não prevêem as saídas mais esperadas. Isto pelo menos a fazer fé no que se vai dizendo pela imprensa, que avança diariamente com o nome de 2 defesas centrais para o lugar de Rojo (confirmado pelos jogadores e agentes mencionados, Rabia e Milosevic) mais a menção de vários nomes de extremos (Gerson Cabral e Kostic) e profusão de nome de pontas-de-lança levam a crer que há mais jogadores, para lá dos mundialistas, a poder sair antes do primeiro dia de Setembro.

Para terminar a boa noticia há muito ansiada: A Sporting TV inicia hoje a transmissão regular. O primeiro dia será assinalado com uma entrevista do presidente, Bruno de Carvalho, de que daremos conta se houver algo de relevante a assinalar.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Mercado: A hora das grandes decisões. Rojo, Simani, William e Patrício.

Agora que o campeonato do Mundo terminou aproximam-se as horas das grandes decisões. Os clubes poderosos já definiram os alvos a atingir para recomposição dos seus plantéis e a necessidade de estes estarem fechados o mais cedo possível para os primeiros compromissos da época tenderão a apressar os negócios.

O Sporting teve quatro mundialistas do seu plantel e é natural que sejam eles os primeiros a estar "sob vigilância". Porém as suas prestações não foram idênticas e esse facto determina avaliações diferentes. Essas, independentemente das valorizações que os jogadores possam ou não ter sofrido, deverão primar sempre pelo máximo realismo. O que infelizmente não acontece quase nunca, sobretudo pelo lado dos adeptos que, ao valor real que o mercado atribui, somam-lhes a ligações afectivas que entretanto se foram criando com a ligação do jogador ao clube.

Fazer preços aos jogadores será das tarefas mais ingratas e difíceis de consensualizar. Mesmo no caso dos valores astronómicos das vendas de Bale, Ronaldo, Suarez, para citar os mais mediáticos, há sempre adeptos descontentes, que preferiam ver os jogadores continuar a ostentar as suas cores ou, na ocorrência dessa impossibilidade, a factura a cobrar deveria ser ainda mais estratosférica.

Devo dizer que não sou esse género de adepto. Primeiro percebo bem a dificuldade que sente quem tem de tomar decisões no contexto em permanente mudança, como são os mercados de jogadores de futebol. Uma hesitação ou precipitação podem significar a perda de milhões.

Depois também tenho os meus jogadores preferidos, mas não lhes exijo mais do que profissionalismo, para amar o clube estamos cá nós, os adeptos. Depois tenho a percepção da volatilidade das suas carreiras, da voracidade com que estas são promovidas ou trituradas, muitas vezes ao arrepio de qualquer racionalidade. A gratidão que por vezes se lhes exige é muitas vezes, por conveniência, rapidamente esquecida em nome de outros valores. Depois não olho para nenhum jogador como insubstituível ou que se sobreponha à importância do colectivo. Afinal o futebol é isso mesmo, uma modalidade colectiva.

O exemplo recente de Oblak é um extremo que obviamente merece censura, não tanto pela transferência em si, mas pela forma pouco civilizada que o jogador encontrou para terminar uma ligação que até foi feliz. Mas, no essencial, sou incapaz de censurar um profissional que vai atrás de melhores condições para si e para sua família que não sabe se voltarão a ocorrer. Qual de nós se manteria fiel à ligação profissional actual se uma Google, Microsoft, grande banco, escritório de advogados, etc, lhe oferecesse um contrato que lhe assegurasse independência financeira para o resto da vida?

Voltando aos nossos mundialistas, o respectivo percurso ditou situações diferentes para cada um deles, embora a situação de Rojo e Slimani se assemelhem. Ambos sofreram consideráveis apreciações, com menções elogiosas várias, estando a viver provavelmente um momento irrepetível das suas carreiras. Dessa forma será muito provável que lhes chovam propostas tentadoras. Dificilmente o Sporting não venderá, correndo o risco, se não o fizer, de ficar com dois jogadores contrariados e que dificilmente conseguirá que o mercado volte a olhar para eles com o mesmo apetite.

Por norma, porque os agentes e clubes compradores sabem como se movimentar, estas chegam primeiro aos jogadores e em números irrecusáveis, para depois se regatear cada cêntimo aos clubes que detêm os seus direitos. Não vale a pena estigmatiza-los, tecer grandes considerações morais , porque é precisamente o que o Sporting faz quando se encontra na mesma posição.

Pelos números que se falam, Rojo significará uma valorização que andará perto do quadruplo do que custou. Não é um jogador ainda acabado, mas é seguramente melhor hoje do que quando cá chegou, mas ainda distante dos melhores jogadores das posições que desempenha. Porém, tem potencial, caso os treinadores que se venham a cruzar com ele lhe consigam fazer compreender melhor o jogo e ele consiga também perceber melhor que o uso da força damente é tão importante como a do corpo. A sua saída não me parece dramática e pode ser suprida por um jogador de valor idêntico e de salário mais baixo. Esse jogador pode até já estar no quadro de profissionais do clube, Dier.

Slimani é um caso notável de sucesso para o scouting do clube. Sem saber exactamente quanto custou, (já vi vários valores entre 300 e 500 mil euros) vale hoje mais de dez vezes mais. Quanto a mim trata-se de uma valor inflacionado pelo mercado que o Sporting pode muito bem aproveitar e, não o fazendo, a sua depreciação para valores mais racionais será inevitável.. Da minha percepção do que vale, qualquer valor acima de 5 milhões, mais do que um negócio feliz seria um excelente negócio. Pelos valores que se falam - iguais ou superiores a 10 milhões - seria o melhor negócio de sempre do Sporting, tendo em conta o "valor da mercadoria" e o valor recebido. Até porque não estou certo que seja titular de caras com Marco Silva...

William está a meio caminho dos seus colegas acima mencionados. Não se valorizou no Mundial mas também não terá visto o seu valor depreciar. Mas valores próximos da sua cláusula de rescisão deverão ser praticamente impossíveis de ver cair nas secretárias da SAD. Basta olhar para o que se está a pagar por essa Europa fora por jogadores como Kroos, Kedira, etc. Falta saber se o jogador tem propostas em carteira e se estas lhe mexeram com a cabeça, isto é, com o seu grau de comprometimento com o clube.

Patrício é "worst-case cenario" personificado. Teve um jogo infeliz numa selecção infeliz e a lesão não lhe permitiu desfazer a má impressão deixada. Um dos possíveis lugares de destino, o Mónaco de Jardim, teve em Romero um dos melhores jogadores do torneio, obrigando os seus responsáveis a ponderado juízo sobre o seu substituto, sob pena de ficarem mal perante os adeptos. Os valores de transferência dos melhores do torneio contrariam também os que acham que "Patricio só devia sair por valores acima de 15 milhões". Cláudio Bravo por exemplo vai por 12 milhões para o Barcelona. Patrício é também um problema para a SAD que poderia (desejaria) substituí-lo por um guarda-redes "bom e barato". Neste cenário, e mantendo o que sempre disse, 7,5 milhões seria um bom negócio, pelo menos o possível.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Missão calções - De Rinaudo a Rei nada, com Viola no mesmo saco

Do primeiro jogo de preparação, realizado nos Açores, há poucas conclusões directas a retirar. O contrário é que seria de estranhar, atendendo às características do próprio jogo e adversário. Marco Silva priveligiou uma equipa inicial de jogadores da época passada para depois fazer entrar paulatinamente alguns dos novos jogadores. Fica a nota positiva para a generalidade - Rosell até teve honras de titularidade - o que, sem poder ser excessivamente valorizado, é sempre melhor do que o inverso.

Mas há ilações a tirar da primeira lista de convocados. Rinaudo, Viola, Salomão e Miguel Lopes dificilmente integrarão o plantel principal. O caso de Salomão só é assinalável pelo facto de o ano passado ter visto prolongado o seu contrato por cinco anos (até 2019) para agora, pelo menos aparentemente não contar. Miguel Lopes tem uma relação de custo/qualidade relativamente elevado e um contrato a meias com o FCP que está longe de beneficiá-lo e à relação com o clube. 

Já o caso de Rinaudo é diferente. De Rinaudo e mais 10 até à situação de dispensado foi um sopro. A ascensão improvável e meteórica de William retirou-lhe espaço, mas é precisamente a possibilidade deste sair que a sua permanência fazia sentido. Não estamos a falar de um jogador qualquer, pese a necessidade de ajustar alguma postura no seu jogo. O caso do compatriota Viola é algo semelhante. Não serão seguramente critérios estritamente técnicos a presidir à decisão de os afastar.

Um outro dado definitivo sobre o jogo dos Açores: o equipamento. Tinha reservado uma opinião definitiva para um melhor visionamento, que a apresentação na Gala não proporcionou. As imagens televisivas e as que os jornais difundiram ontem confirmaram o pior receio. O verde mudou para um tom mais claro o que, associado aos calções no mesmo tom torna difícil a identificação imediata de que "o Sporting está a jogar". Que o diga um pai aflito, que ontem, numa esplanada onde aterrei por acaso, tentava esgrimir argumentos que convencessem o seu petiz de que aquele jogador (provavelmente dos recém-chegados) com aquele equipamento eram do Sporting.

Por decoro e por comedimento não me voltarei a referir ao tema. A escolha foi infeliz e os calções pretos significariam um remediar da situação. Nem que para isso se tenha de constituir uma "Missão Calções" para a qual contribuirei de bom grado.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

BES: um credor em apuros pode contaminar o Sporting?

Quando começaram os primeiros rumores sobre uma crise na holding empresarial não financeira do grupo BES comecei a escrever o presente artigo. Porém, rapidamente se percebeu que a doença era maior do que parecia e a forma virulenta como se espalha leva a recear o pior. O artigo, já extenso, ficou reduzido às presentes linhas, por grande parte do que aí era explanado ter perdido actualidade ou deixar de fazer sentido.

Como grande parte dos Sportinguistas saberá, o Sporting, no inicio da gestão de Bruno de Carvalho, concluiu um acordo de reestruturação financeira, cujo âmbito é seguramente mais complexo e cuja total amplitude me escapa. A mim e creio que à maior parte dos Sportinguistas porque, de forma básica mas realista, a génese da nossa ligação ao clube não foi nem nunca será a discussão de relatório e contas, participações económicas, reestruturações financeiras. Se o fazemos é por necessidade de compreender uma parte vital da vida do clube, desde sempre mas cada vez mais ligada à sorte que se joga entre as quatro linhas.

Na sua essência, a reestruturação financeira visava restabelecer o rácio de solvabilidade do clube, com o aumento dos capitais próprios, sendo para tal determinante a integração da participada SPM na SAD do clube. Especulou-se também sobre um possível hair-cut sobre o passivo detido pelos credores - BES e BCP - o que não vi confirmado em lado nenhum, mas cuja possibilidade tanto agitou os nossos rivais...

A fusão da SPM, detentora do Estádio José Alvalade, era também um instrumento vital para a manutenção da maioria do capital da SAD, mesmo depois da conversão das famosas VMOC's em capital. Toda a operação era também crucial para o cumprimento das normas de fair-play financeiro que a UEFA obriga.

Nesse acordo seguramente que ficaram firmadas as condições de financiamento de tesouraria pois, ao contrário do que é o mito do papão dos bancos na blogosfera - aliás muito semelhante a outros, como os empresários, os fundos, etc. - são eles que permitem a liquidez necessária para satisfazer grande parte dos compromissos assumidos. Esta não será uma realidade exclusiva do Sporting, estende-se também aos seus rivais, com as devidas diferenças ditadas em função da especificidade de cada um dos clubes.

No ponto actual do processo desencadeado pela crise no grupo BES é ainda demasiado cedo para perceber que implicações reais possam vir a incidir no relacionamento credor/cliente. Porém, há uma evidência preocupante: o terramoto que está a fazer tremer o grupo surge num momento em que a reestruturação financeira não está concluída uma vez que a supracitada fusão da SPM na SAD está ainda por fazer. 

Lembre-se que a fusão foi aprovada há mais de um ano pelos associados na  AG de 30 de Junho de 2013. Várias vezes foi afirmado, quer directa, quer indirectamente, que havia sido requerida a isenção de impostos, (valores próximos de 500 mil euros), ao ministério da Economia e que, essa isenção estava ainda pendente. Esse pedido de isenção pressupunha o acompanhamento de um documento da Sec. de Estado da Cultura - não era suposto que os dois ministérios dialogassem entre si, ao invés de o requerente ter de andar a penar entre ministérios? - de forma a que os impostos de selo e IMT não fossem tributados ao clube. Esta semana o jornal "O Jogo" estimava que o processo estivesse concluído em Setembro, embora não justificasse o prazo. Atendendo a que grande parte do País, instituições oficiais incluídas, se apresta para fechar e ir a banhos, talvez esteja aí a razão.

É este o documento que faltará para completar o processo de fusão e por sua  vez a reestruturação financeira se tornar definitiva e os seus termos e consequências entrarem em vigor. Mas, passado um ano da sua aprovação em AG, é legitimo perguntar porque é que este processo, de vital importância para o clube, se arrasta há tanto tempo. É apenas este o documento em falta ou há ainda outras condicionantes para satisfazer? Quando foi requerido o referido documento à Sec. de Estado da Cultura e quanto tempo é legitimo esperar ainda mais sem qualquer resposta?

Num cenário de derrocada do BES, que não se pode, em bom juízo, afastar, o valor em dívida pelo Sporting àquela entidade bancária seriam a menor das preocupações para nós, num primeiro momento. Esse seria primeiro um problema dos credores do banco. Mas uma hipotética interrupção de disponibilidade do banco teria como resultado a falta de liquidez de tesouraria. Isso sim, seria um problema sério talvez represente, no actual cenário, um perigo real. No momento actual seria um pesadelo para a actual gestão ter que encontrar uma alternativa para os serviços agora prestados, sabendo como se sabe das dificuldades da generalidade das entidades que concedem crédito. 

Se uma catástrofe como a invocada - a derrocada do BES - se pode considerar um fenómeno extremo, de ocorrência improvável, já uma degradação paulatina da solidez do banco e, consequentemente do nível dos serviços que presta, é mais do que razoável esperar. A questão que se coloca é se tal impedirá a total satisfação do acordo de reestruturação feita com o Sporting. Poder-se-á pensar: "certamente que há documentos assinados e o clube tem constituída uma posição sólida perante um possível incumprimento".

Sendo isto verdade, não é menos verdade que a história documenta situações semelhantes cujo cumprimento nunca chegou a ter lugar, seja da parte de credores, seja do lado dos devedores. E, verdade seja dita, para tal acontecer, tanto faz que reestruturação esteja ou não fechada. Uma situação a acompanhar com alguma cautela. Até porque as consequências do que está a suceder no BES nos poderão atingir de diversas formas e ângulos sendo que, pelo que o Sporting representa para os Sportinguistas, as noticias dos últimos dias estão longe de ser boas para nós, mesmo que não representem um perigo eminente.

Falar do BES é falar também da accionista da SAD, a Holdimo, cujo principal accionista é Álvaro Sobrinho, de certa forma também ele envolvido no vórtice do BESA (BES Angola). Com dois lugares assegurados na SAD, por força do favor concedido ao clube - não há como vê-lo de outra forma -  de que também é sócio e adepto, quando aceitou a troca dos passes de jogadores por capital, voltamos a ouvir falar dele há dias. Tal como havia sido prometido, entregou um autocarro novo e a brilhar, constituindo a surpresa da noite na recente gala. 

Faltará, para fechar o circulo do que foi prometido, a bancada nova na Academia, para que o anunciado mini-estádio, onde os jogos da equipa B e demais formação, terão lugar seja realidade. Atraso que não lhe poderá ser assacado uma vez que o clube, em noticias recentes no site, assumiu a responsabilidade, dando conta primeiro da falta dos estudos de viabilidade de solo e, mais tarde, dos respectivos projectos de arquitectura e respectivo licenciamento.

Com 20% da SAD, Álvaro Sobrinho é um nome que seguramente aparecerá inscrito nos próximos capítulos da sociedade que gere o futebol. Veremos que consequências que a sua elevada exposição ao BES terá nesse relacionamento, esperando obviamente que nenhuma delas afecte a ligação ao clube ou prejudique este.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Afinal o inferno de Dante (& Cia.) foi escrito por um alemão*

Capa da revista Lance, hoje
“Cada povo tem a sua irremediável catástrofe nacional, algo assim como uma Hiroxima. A nossa catástrofe, a nossa Hiroxima, foi a derrota frente ao Uruguai, em 1950”. Assim descrevia Nelson Rodrigues, jornalista brasileiro, autor de poderosas crónicas sobre o futebol, o Maracanazo de 1950, quando o golo de Alcides Ghiggia impôs o mais ensurdecedor dos silêncios num estádio lotado de mais de 200 mil espectadores.

“Dizem que o silêncio não tem voz. Que silêncio é silêncio… Foi talvez o barulho pior que ouvi na minha vida. Foi um silêncio que vem de dentro, apocalíptico, de ‘amargedão’. Parecia que o mundo todo tinha parado. Foi a primeira vez que como adulto eu chorei. Chorei com a impressão de que não tinha mais nada para fazer na vida. Que os meus dias na terra não contavam mais. Isso foi um sentimento geral e custou muito a digerir.” Carlos Heytor Cony, escritor e jornalista 

Parece um exagero comparar a derrota com um dos mais terríveis exemplos da bestialidade humana mas, como dizia também  Bill Shankly "Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte. Fico muito decepcionado com essa atitude. Eu posso assegurar que futebol é muito, muito mais importante!". Se há algum sitio na terra onde esta asserção faz sentido talvez o Brasil seja o lugar perfeito. Porque talvez como em mais nenhum país do mundo quando a selecção nacional joga é todo o país que está em campo. 

Por isso a derrota de 1950 também teve repercussões sociais, na forma como os brasileiros se viam como povom, quando o sentimento antecipado de vitória garantida correspondia ao da "maior vitória do povo brasileiro, depois da independência desde a independência, em 1822." redundou no maior fracasso. O Waterloo dos Trópicos, segundo Paulo Perdigão, autor do livro Anatomia da Derrota.

“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado e, mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu no coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida, reduzidos a uma pobre cinza de fogo apagado. E, de repente, chegou-me a decepção maior, a ideia fixa que se grudou na minha cabeça, a ideia de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino. A vil tristeza de Camões, a vil tristeza dos que nada têm que esperar seria assim o alimento podre dos nossos corações." José Lins do Rego, escritor, da sua crónica "A derrota", escrita dois depois do fatidico dia 16 de Julho.

O que representará para o Brasil a humilhação a que a sua selecção foi ontem sujeita? 

Não sabemos, estamos demasiado perto da "tragédia" para o perceber. Seguramente que não há tempo suficiente  na vida humana para apagar da memória o "schrecklich Mineirazo" (horrivel Mineirazo). Porém ninguém como os brasileiros saberá tão bem sofrer profundamente, viver eternas quartas-feiras de cinzas, cantar a desgraça, dança-la e acabar a rir-se dela. E quem sabe, daqui por 64 anos, repetir a lição de fair-play, levando os sobreviventes alemães da actual selecção pelo braço a Belo Horizonte, como fizeram este ano com Alcides Ghiggia, eternizando o seu nome na calçada da fama no... Maracanã. 

 *post escrito tendo como base este artigo

terça-feira, 8 de julho de 2014

Mais uma vez Ryan Gauld

O Record pega hoje numa crónica que Gordon Strachan produziu ontem para o Daily Record sobre o que ele pensa sobre o jovem jogador que o Sporting contratou há uma semana e a sua partida para Lisboa. 

O Record sintetiza em poucas linhas

“Precisamos deixá-lo seguir em frente e não transformá-lo em algo que ele não é. Não vamos cometer o mesmo erro que o Brasil cometeu com Neymar”, argumenta o selecionador escocês, confessando-se “preocupado” com a alcunha que os antigos companheiros colocaram ao agora médio do Sporting: Mini-Messi. “Quem necessita desta pressão?”

a versão integral do texto de Strachan, actual seleccionador escocês que aqui vos deixo:

I was surprised and delighted to hear about Ryan Gauld’s transfer to Sporting Lisbon last week.
He’ll be given a superb education in Portugal and it will be fascinating to see how he develops.
What we should do now is give him time to settle in and see how he gets on. He’s moving to a country with a different way of life and a different style of football.
With the weather and facilities over there he’ll train twice as much so it will be exciting to see how good he can get.
Scots will be looking at this move and wondering if this kid is going to be our attacking talisman in France in two years time.
But we should just back off and let’s see how he gets on. I already worry Ryan has too much expectancy on him just because of his nickname.
Whoever called him “Mini Messi” wants to have a good look at himself. Who needs that pressure?
I played against a boy at Under-15 I thought was the best player I’d ever seen. His name was Graeme Payne but it all went wrong which can happen with kids. You need a bit of luck.
However, Gauld is giving himself as good a chance as he can to become a top player because he’s prepared to work hard and to listen. I’m told he’s also good with people which helps.
We need to let him get on with it now and not build him up into something he is not. Let’s not make the same mistake Brazil has with Neymar."
Depois da leitura do veredicto de Strachan, (os sublinhados são meus) convido os leitores a lerem (ou relerem) o que eu escrevi a propósito do mesmo tema 

"Um conselho sobre Ryan Gauld, "o pequeno Messi"? Esqueçam-no!"

E digam-me lá se o Gordon Stracham, cujo texto bate mais ou menos os mesmos pontos principais do meu,  também merece alguns dos comentários aqui deixados na ocasião.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Suspensão de sócios - Revolta na Academia - A informação e o custo de Gauld - O sorteio

Para o post de hoje elegi quatro temas que decorrem ainda do fim-de-semana, tempo que me  imponho de relativo afastamento das inúmeras plataformas digitais, de forma a produzir o necessário descanso e distanciamento. Apesar de já imensamente discutidas nos diversos fóruns, a sua menção aqui permite-me o registo dos temas, que me parecem importantes, e da minha opinião sobre os mesmos.

Suspensão de sócios
Não é muito comum a acção disciplinar sobre sócios, pelo que o caso teria sempre que suscitar algum impacto. Como todos sabem-se trata-se da conclusão de um processo disciplinar com origem nos acontecimentos ocorridos numa sessão de esclarecimento, aquando do processo que levou à queda da anterior direcção e consequentes eleições. A medida é grave como o foram os actos praticados. Tivessem os anteriores órgãos disciplinares actuado nas muitas vezes em que actos de gravidade semelhante ou até de maior grau ocorreram e certamente que aqueles não teriam tido lugar.

O caso ficaria encerrado se a Juve Leo, de cuja organização fazem parte os visados, não viesse agora reclamar do processo que levou à sentença proferida. A ser verdade o que é afirmado no comunicado da claque, isto é, que os sentenciados não foram ouvidos no decorrer do processo, qualquer pessoa, mesmo sem o curso de direito, percebe que o processo não foi bem conduzido. Se houver apelo, facto que não estou certo de estar previsto no regulamento disciplinar, a decisão será difícil de sustentar. Se os regulamentos não o previrem, restará aos visados recorrer aos tribunais civis, onde, se aqueles argumentos forem verdadeiros, a sentença será anulada. Facilmente se conclui que um acto impensado e reprovável não pode ser resolvido de forma ligeira, como parece ter sido o caso em presença e as ondas que agora novamente se levantam não indiciam nada de bom para o bom nome do clube. De tudo o que foi dito, isto parece-me o mais importante. Evitável.

Revolta na Academia
A noticia de um jornal sobre a uma pretensa revolta na Academia recebo-as em primeiro lugar com desconfiança. A forma como as noticias aparecem nos jornais estão longe de obedecer ao mero interesse jornalístico, correspondendo, bastas vezes a outras conveniências menos óbvias. No caso concreto não sei que credibilidade atribuir à noticia em causa. Ainda assim, porque o tema me é caro, aproveito para discorrer umas linhas sobre a matéria, com as declarações de Bruno de Carvalho como pano de fundo.
O presidente veio a este propósito dizer que "a formação está calmissíma", acrescentando que "não há uma via verde, pura e simplesmente, porque se é da formação." Ora é preciso que o contrário não seja verdade também. E, se é verdade que, como também disse BdC, os jovens jogadores têm de "evoluir e demonstrar que são melhores" não é menos verdade que os jogadores que chegam têm responsabilidades ainda mais acrescidas.

Creio que esta questão tem alguma premência pelo facto de, com excepção de Tanaka, os jogadores contratados até ao momento serem todos mais ou menos da mesma idade que os compõem a equipa B, acrescendo o facto de terem origem, Tanaka incluído, em campeonatos emergentes, de valor inferior ao nosso. Sem colocar em causa à priori o valor dos contratados, este será com certeza um factor que acrescerá na apreciação do acerto da sua contratação. Se, com as características acima descritas, muitos deles não conseguirem ser as mais valias pretendidas, não passando do banco ou da bancada, esta questão voltará com intensidade redobrada.

Uma nota final neste ponto. Muito se falou do valor de Gauld, quase todo ele baseado num único vídeo. E se o jogador que acabássemos de contratar fosse este?


A informação e o custo de Gauld
Bruno de Carvalho insurgiu-se também contra "os disparates que foram escritos" a propósito da contratação de Gauld. Obviamente que tudo isto não aconteceria se o Sporting divulgasse os valores da transferência. Uma informação que se tornará obrigatória no relatório e contas trimestral e que este adiamento, até prova do contrário, ao invés de favorecer o clube, permite a especulação que, como o próprio presidente dá a entender, é aproveitada por terceiros para prejudicar o clube. O mesmo se poderia dizer da falta de comunicação do despedimento (?) de Abel, da sua substituição por Barão, sendo os Sportinguistas confrontados com a noticia no Record.

Sorteio
Não fazem muito sentido as declarações de ocasião dando a entender que o calendário não importa, uma vez que todos têm que jogar com todos, etc, etc. Grande parte do destino do campeonato fica decidido no seu primeiro terço. Não tanto o campeão mas sim a performance competitiva das equipas, sendo muito raro, para os lugares que o Sporting disputa, assistir a recuperações depois de falhanços iniciais. Os últimos anos têm até acentuado a tendência que, nos lugares da frente, duas ou três jornadas consecutivas a perder pontos arredam uma equipa do título.

O sorteio deste ano foi algo semelhante ao do ano passado, as duas primeiras jornadas diferem apenas nos locais onde se disputam. Nesse sentido, não se pode dizer que tenha sido particularmente agreste para os nossos interesses. Os jogos mais difíceis não são seguidos, permitindo por exemplo, e em teoria, que um mau resultado não se some a outro.

Mas as candidaturas e favoritismos afirmam-se nas quatro linhas. Não me parece, ao contrário do que ontem afirmou Inácio, que o Sporting parta na pole-position. Esta afirmação não só não faz qualquer sentido, levando em linha de conta os meios e os plantéis dos adversários, como não me parece ser a melhor estratégia. Grande parte do bom desempenho da época passada nasceu da desobrigação de fazer tanto como os principais rivais.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Equipa B: Abel foi de carrinho!

A saída de Abel Ferreira é já um facto consumado e antes de me alargar em mais considerações fica o meu repúdio pelo acto e pela forma como os Sportinguistas tomaram conhecimento.

O acto
O Sporting está obrigado a fazer melhor do que comportamento que teve para com Abel ou com qualquer outro profissional. Deixá-lo orientar o primeiro treino e despedi-lo no segundo é reprovável. Isto depois de um interregno de praticamente dois meses para tomar decisões! Fazê-lo a um profissional com oito anos de casa é-o ainda mais.

A noticia
Saber a noticia pelo Record (sim, leram bem), sem que até ao momento haja qualquer nota oficial do clube no site ou por qualquer outro meio é, no mínimo, desagradável.

Morte anunciada
Há muito que Abel já tinha caído. Tinha-se percebido isso na recente entrevista de Litos, a dar conta do convite do Sporting e da respectiva nega. Isto com Abel sob contrato, o que torna este processo ainda menos edificante para o nome do Sporting.

O que se quer para e da equipa B?
(i) Com três treinadores em três anos
(ii) Com um corrupio constante de jogadores a entrar e a sair, 
(iii) Sem nenhum jogador a ser promovido directamente à equipa principal este ano, 
(iv) Com jogadores de curriculum, origem e trajectos inferiores a serem incorporados, sem que a sua acção em campo justifique a preferência, 
é caso para perguntar o que se pretende para a equipa B.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Um conselho sobre Ryan Gauld, "o pequeno Messi"? Esqueçam-no!

Gauld Rush
A contratação de Ryan Gauld  provocou enorme agitação quer entre os Sportinguistas, quer no seio da comunicação social de ambos os países, chegando mesmo a ter honras de noticia fora do espaço circunscrito aos dois países. Uma surpresa, cujas repercussões da sua chegada aqui se tentará analisar.

A pergunta que todos fazem: o que viu o Sporting neste miúdo praticamente sem provas dadas, ao ponto de, a actual administração, fazer o seu mais vultuoso investimento até ao momento? 

Talento, seguramente. Embora o futebol se faça maioritariamente sem ele, o talento representa a capacidade diferenciadora e é a sua busca que motiva os movimentos mais ousados e o dispêndio mais oneroso no futebol actual. É por isso também, por causa do talento (e da falta dele), que se coleccionam as maiores alegrias e os maiores desgostos.

O caso de Ryan Gauld é sério: não fizeram por menos, podiam ter começado pela comparação com um conterrâneo, por sinal também pequeno e talentoso: Gordon Strachan. Não, apontaram logo para uma das estrelas mais brilhantes do céu futebolístico, Leonel Messi.

O cemitério do futebol está cheio de novos "qualquer coisa"
A pior coisa que se pode fazer a um jovem jogador é colar-lhe o epíteto de "novo Messi", "novo Ronaldo", novo "qualquer coisa". As comparações inevitáveis são injustas e afunilam as possibilidades de fazer o seu caminho. Os grandes jogadores escrevem o seu próprio nome nos passeios da fama das avenidas do futebol, os outros tentam ser como eles. Seria hoje Messi quem é se, quando apareceu, lhe chamassem o "novo Maradona"? Ou a Ronaldo "o novo Eusébio"? E perceber a injustiça da comparações é lembrar que estamos a comparar um jogador que apenas dá os primeiros passos com um dos melhores de sempre da história do futebol. Mal comparado, é o mesmo que dizer que um miúdo que aprendeu a escrever é o "novo Pessoa"! Quantos não conhecemos já assim e de que hoje não ouvimos sequer falar?

O risco é minha profissão
Uma percentagem muito elevada dos comentários sobre o acerto ou equívoco da contratação de Ryan Gauld não merecem qualquer crédito. É impossível fundar um juízo positivo ou negativo sobre um jogador que nunca se viu jogar, aqui se incluindo os que dão a sua opinião baseada na observação de vídeos. 

A única garantia na aquisição de um qualquer jogador é um certo grau de risco, que no caso de Gauld é elevado. À sua idade, com poucas provas dadas, junta-se o seu físico, a chegada a uma nova realidade (país, cidade, futebol, clube, métodos de treino) e sobretudo o preço pago e a fama já carimbada em alcunha que o precede. 

Garantias 
Todo o investimento de risco deveria ter garantias. No futebol, dada a sua imprevisibilidade e aleatoriedade, elas não existem. Há no entanto o conforto vago nas palavras de quem o conhece os jogadores e na aposta de quem os contrata. 

Começando pelo fim, o risco assumido pela administração da SAD certamente que foi ponderado. À possibilidade de falhar e os danos consequentes para a sua credibilidade sobrepôs-se a apreciação do valor do jogador, que deve ter resultado de observações aturadas. É seguramente um acto de fé, mas terá que ser mais do que apenas isso.

Do lado de quem o conhece destaco duas opiniões: a do seu treinador e a de Helena Costa, a treinadora portuguesa que ficou famosa pela sua passagem meteórica pelo futebol francês. Às suas aptidões (treinadora e scouter do Celtic) junta maior distanciamento relativamente ao jogador e o conhecimento especifico do futebol português, que certamente falta a Jack McNamara, o antigo treinador de Gauld.

Jack McNamara: "O Ryan irá com toda a certeza ser uma das maiores estrelas da nossa selecção, não tenho dúvidas nenhumas. Tive sorte de, na minha carreira, treinar bons jovens jogadores, mas nenhum como ele. Tu olhas para ele e parece que estás a olhar para um "copinho de leite" mas ele voa sobre os mais impetuosos "tackles", aventura-se na molhada para cabecear, e parece ficar todos dias mais rápido e forte."

Helena Costa: "É um jogador bastante criativo, de baixa estatura, com boa visão de passe e muito forte no um para um. Parece-me uma boa contratação para o Sporting. É muito rápido, ágil e imprevisível mas o Messi é de outro planeta, há aqui algum exagero na comparação"

O que esperar da chegada de Gauld?
Pouco, quase nada. Contrariar a expectativa, esquecer a alcunha, o preço pago, é a melhor forma de ajudar ao sucesso de Ryan Gauld. É esse o meu conselho, que é de borla, uma vez que ninguém o solicitou. Mas parece-me o mais ajustado à realidade. Gauld pode até ser excepcional e disso dar provas no imediato, mas o mais natural e expectável é que seja um investimento para o futuro, para aparecer na plenitude dos seus recursos daqui a dois, três anos, correndo bem. Não mais nem menos que a bitola de exigência que devemos ter para com os miúdos da nossa formação com a mesma idade.

Que impacto na Formação?
Não sou um dogmático no que diz respeito à formação. O Sporting, ou qualquer clube que tenha da sua formação uma visão estratégica, não se pode auto-limitar a esperar pelos jogadores que forma ou lhe aparecem em Alcochete. A prospecção, de jogadores de qualquer idade, é um factor decisivo para conseguir os melhores jogadores pelo melhor preço. 

Mas, na chegada de Ryan Gauld, há uma implicação directa que não pode deixar de ser contemplada:

O êxito do jogador torna-se de necessário a imprescindível para justificar o dispêndio e o tratamento de privilégio que lhe está a ser concedido: entrar para o plantel principal de caras com um contrato seguramente melhor do que os demais. De outra forma está-se a dizer aos jogadores da formação que, para lhes ser proporcionado o mesmo prémio, eles não só têm que ser muito melhores, como ainda por cima têm de receber menos.

Não menos importante é a constatação da dificuldade que o Sporting denota em conservar os seus melhores talentos até poder deles retirar o proveito que devia. Uma dificuldade que não é nova, mas que se acentuou nos últimos tempos com as partidas de Bruma e Ilori, as dificuldades na afirmação de Dier, a recente nega com Matheus Pereira. Nomes a juntar a Braima Candé, Moreto Cassamá, Idrisa Sambú, Ricardo Tavares que não são sequer a totalidade de jogadores internacionais ou com valor que o Sporting viu voar num ano para outras paragens.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A Gala Honoris Sporting, a transmissão e ainda os equipamentos

Uma breve resenha sobre a Gala Honoris, a transmissão e os equipamentos, uma vez que a hora tardia a que terminou não dá tempo para muito mais.
I Gala Honoris Sporting
Antes da apreciação à Gala a minha opinião sobre o conceito. 

O facto de não ser apreciador de galas ou de forma mais genérica de cerimónias de carácter vincadamente formal não obsta a que as entenda necessárias. O Sporting passar a instituir uma organização do género para celebração do seu aniversário, fazendo da ocasião um momento de exaltação do nome e legado do clube, aproveitar o ensejo para premiar os que, pelo seu trajecto, se destacaram dos demais, chamando a si também parceiros e instituições não me provoca qualquer rejeição. Já cerimónias de vão de escada para celebrar a passagem do aniversário ou homenagear sócios com meio século de ligação ao clube é que me parecem desajustadas.

Mas reservar para este tipo de eventos fechados - apresentação da NOSSA camisola - acontecimentos que devem estar abertos a generalidade de quem queira e não apenas de quem possa aceder é, quanto a mim, um erro. Ao contrário do que tanto se pretende difundir, em particular os nossos rivais, o Sporting é um clube com raízes e implantação popular, o fervor clubistico alimenta-se destes momentos de presença maciça e não tanto em ambientes restritivos - o preço, as férias, a conjuntura, tempo de renovação de GB's limitam o acesso à maioria - onde a etiqueta e o protocolo imperam.

Quanto à Gala propriamente dita pareceu-me, dentro do que o género impõe, bem organizada, quiçá um pouco longa. Mas quem vai a este tipo de eventos tem de estar preparado para isso. Tem tudo para ser um sucesso, ainda por cima se atendermos ao gosto nacional, de que os Sportinguistas não parecem divergir, pelas praxes, cerimónias e oportunidades para dar uso aos dispendiosos trajes e demais adereços de ocasião. O momento alto da noite terá sido, quanto a mim, a surpreendente apresentação do novo autocarro, momento muito bem preparado.


A transmissão "televisiva"
Gorada que foi a possibilidade de juntar o aniversário do clube à emissão inaugural do canal de televisão a opção pela emissão online constituía a possibilidade de avaliar a capacidade instalada para emissões ao vivo. Era uma prova de fogo, tendo em conta as dificuldades que os inúmeros momentos mortos impunham, que me parece ter sido bem superada. 

Ainda os equipamentos
Altamente decepcionante pensar sequer na possibilidade de o equipamento principal do Sporting não contemplar os calções pretos. Espero que se tenha tratado de um problema momentâneo de fornecimento e não uma ideia para vingar. Dessa forma transformava-se o equipamento principal num semi-alternativo, uma ideia de todo infeliz. Se é razoável admitir a ideia de inovações de gosto duvidoso para a nossa tradição nos equipamentos alternativos, a ideia de invenções no equipamento principal desgosta-me. As comparações com clubes menores, por mais respeitáveis que sejam e alguns até não o são, são óbvias e inevitáveis.

terça-feira, 1 de julho de 2014

As novas camisolas, o que dizer?



Ao que parece são estes os novos equipamentos para a época 2014/15. As reacções não se farão esperar eu mantenho o que venho dizendo há algum tempo:

"É sempre assim em cada ano, as alterações acontecem de forma um pouco aleatória, replicando-se na generalidade das equipas fornecidas pela marca, ao arrepio de uma linha mais tradicional, que seria mais consensual, mesmo tendo em conta que estamos a falar do Sporting. Trata-se de uma concessão que a generalidade dos clubes foi fazendo em busca de maiores receitas, mesmo aqueles com imagem mais forte e globalizada. 

Confesso que as minhas camisolas preferidas são as que mantêm uma ligação mais vincada com as imagens vintage, por ser aquelas que me fazem lembrar o tempo em que fui conquistado pelo meu Sporting. O fenómeno actual de todos anos haver novo equipamento não é por isso o mais sedutor, mas compreendo-o à luz da necessidade acima identificada. O mesmo sucede com a publicidade nas camisolas, uma intromissão que todos fomos mais ou menos tolerando mas que facilmente dispensaríamos."
Dito isto a apreciação aos novos equipamentos:
Camisola principal:
Afasta-se muito do que é a imagem da primeira camisola listada conhecida - as listas parecem-me  demasiado largas falta-lhe o preto que, não tenho a certeza, parece-me obrigatório - e também da que foi usada nos últimos anos pelo que, à primeira vista a surpresa é quase um choque. Veremos como fica vestida e com os calções e meias e sobretudo no campo.

Camisola alternativa:
Em ano de Campeonato do Mundo no Brasil sê brasileiro é a reacção epidérmica. Essa semelhança óbvia pode ter bons resultados comerciais. Depois daquela camisola café-com-leite da Reebok será muito difícil dizer mal de uma camisola alternativa. A minha, sei lá se não mesmo a principal, será sempre a Stromp que, por razões regulamentares, não pode ser assim considerada, pelo menos para os jogos da UEFA.

Os primeiros passos de 108 anos de história, 108 anos de enorme orgulho!

Em 1902, por iniciativa de Francisco da Ponte e Horta Gavazzo e de seu irmão José Maria, foi fundado oSport Clube de Belas, na sequência de umas férias de Verão passadas naquela localidade, em que Eduardo Ferreira Pinto Basto e seu irmão Fernando centralizaram as atenções dos rapazes em férias, jogando a bola no pátio da Quinta do Bonjardim, propriedade dos seus avós maternos, Marqueses de Borba. As actividades do Clube não foram muitas, assinalando-se somente um grande encontro de futebol travado com um grupo de rapazes de Sintra, e disputado em 26 Agosto de 1902 nos Seteais, na presença do Rei D. Carlos, da Rainha D. Amélia e do Príncipe D. Manuel, além de vários Dignatários da Corte. O grupo de Sintra, reforçado com alguns ingleses e ainda com João e Francisco Vieira, irmão do nosso Jorge Vieira, não conseguiu vencer, tendo-se jogado duas partidas com o intervalo de 25 minutos com dois êxitos do Sport Club de Belas que marcou três golos.
O entusiasmo foi enorme, a equipa sobrevalorizada, e isso os levou a convidar, de novo, o grupo de Sintra para outro encontro, que se veio a realizar a 14 de Setembro de 1902.

Prepararam um festival desportivo e compraram valiosas medalhas que deviam ser disputadas por diversas modalidades: corridas de bicicletas, de sacos, pedestres e o jogo de futebol. Com faltas de alguns dos convocados e com o reforço que o grupo de Sintra apresentou dessa vez, o resultado foi estrondoso (14-0), e a fama de Francisco Gavazzo como guarda-redes, que o anterior encontro ainda mais vincara, foi-se por água abaixo e a verdade é que Francisco Gavazzo nunca mais quis jogar a guarda-redes!

No Museu Mundo Sporting, pode ver-se a medalha conquistada por Francisco Vieira neste encontro.

Nesse inverno, os irmãos Pinto Basto e Carlos Villar fundariam o Foot ball Club Swifts, que a partir de Janeiro de 1905 se viria a chamar Club Internacional de Foot Ball; enquanto isso, nos princípios de 1904 já a maioria dos apaniguados do Spot Club de Belas, residentes da área do Campo Grande, centrou neste Bairro o convívio, ainda que sem actividade desportiva de Clube. A ideia foi-se ampliando, os seus componentes foram cimentando a amizade e, sem solução de continuidade, só com uma mudança de 'rótulo', todos se passaram para o Campo Grande Foot-Ball Club que se fundara nesse ano, numa das habituais reuniões da Pastelaria Bijou, da Avenida da Liberdade, sob a influência dos irmãos Gavazzo, José Alvalade, Alberto Lamarão, António Felix da Costa Junior, Carlos Bom de Souza Carneiro, Eduardo Mendonça, Fernando Barbosa, José Stromp, Frederico Kohn e Carlos e Fernando Motta Marques.

O local exacto das conversas havidas para a concretização da fundação do Campo Grande Foot-Ball Club foi o quarto de Francisco Gavazzo, à data situado no belo Solar da Família Pinto da Cunha, ainda hoje existente no fim do Campo Grande, à esquina da Alameda das Linhas de Torres. O campo desportivo ficava na Quinta do Visconde de Alvalade, no Sítio das Mouras, junto à Assistência Nacional aos Tuberculosos, com serventia pelo nº 27 da Alameda das Linhas de Torres, à data, nº 12 da Alameda do Lumiar. Este campo situava-se nos terrenos que depois foram conhecidos como Lumiar-A, utilizado também pelo Grupo Desportivo 'Os 13' e pela CUF, anos mais tarde.

Este Campo Grande Foot-Ball Club tinha como sócios jovens das melhores famílias de Lisboa e funcionava, já, com algumas estruturas, pois tinha uma Direcção de que José Alvalade era o tesoureiro e Francisco Gavazzo o secretário, o qual substituído por seu irmão José, quando ele viveu em Paris. A quota mensal era de 300 reis, efectuavam-se Assembleias e as respectivas actas eram redigidas.

Como pormenor é de notar que o equipamento desportivo era o mesmo que tinham trazido do Sport Club de Belas (camisas de flanela branca, calções azuis e cinto e meias da mesma cor) mas, normalmente jogavam com qualquer camisa branca pois foram raros os encontros em que se equiparam a rigor. O Clube teve uma actividade interessante, não só no futebol como corridas e saltos (o Atletismo da época), ténis e, algumas vezes esgrima com a colaboração dos irmãos Martins, filhos do Mestre de Armas António Martins. Era, de facto, um Clube de elite cujas festas tinham requintada elegância pois reunia também os familiares dos sócios que, como se disse, pertenciam às melhores famílias lisboetas.

A última festa do Campo Grande Fott-Ball Club teve lugar em 19 Março de 1906, com atraente programa, tendo figurado na assistência nomes sonantes da Sociedade, como o Marquês de Borba, Conde da Esperança, Visconde de Maiorca e o Visconde de Alvalade. Estiveram presentes cerca de 500 pessoas! Nesta altura da vida do Clube notava-se já uma divergência de opiniões quanto à localização da Sede pois que os de Lisboa queriam que ela ficasse na Baixa e os do Campo Grande, neste local.

Igualmente se notava disparidade de critérios quanto às finalidades do Clube que os primeiros desejaram primordialmente apontar para festas sociais e os do Campo Grande para as práticas desportivas. Esta situação de efervescência deflagrou logo a seguir pois que, em 12 Abril de 1906, José Alvalade organizou um piquenique à Quinta do Correio-Mor, em Loures. A lista elaborada pelo Visconde de Alvalade não incluía os nomes da facção de Lisboa e esse foi o pretexto para que, em 13 Abril, no 1º andar das Cocheiras dos Condes de Sabrosa, à Rotunda, se tivesse realizado uma efervescente Assembleia na qual José Gavazzo, em seu nome e de seu irmão, declarou demitir-se no que foi imitado por vários dos presentes. José Alvalade secundou esta atitude e proferiu as palavras que estão na origem do Sporting 'Eu vou ter com o meu avô e ele me dará dinheiro para fazer outro Clube'.

O Visconde de Alvalade disponibilizou dinheiro e terrenos, de tal modo que em Maio nasce o Sporting Clube de Portugal. Para concretizar o seu sonho, também os jovens fundadores (José Alvalade tinha, imagine-se, 21 anos) contribuíram com as quantias que podiam. A data da Assembleia Geral na qual se elegeu a primeira Direcção foi 8 Maio de 1906 e como nota curiosa deve-se dizer que o Clube não tinha ainda, nessa data, o seu nome definido! Foi nela que José Alvalade proferiu a frase que ficou célebre: ‘Queremos que o Sporting seja um grande Clube, tão grande como os maiores da Europa’. A esta frase histórica, juntou a cor verde da esperança.

Esvaziou-se, assim, o Campo Grande Foot-Ball Club, que findaria pouco depois.

Os dissidentes do Campo Grande Foot-Ball Club que acompanharam José Gavazzo e José Alvalade para o lançamento desse novo Clube, ainda que continuidade, afinal, do Sport Club de Belas e do Campo Grande Foot-Ball Club, que se extinguiram, foram 17, completando assim os 19 futuros 'leões':

 José Alfredo Holtreman Roquette (José Alvalade) 
 José Maria da Ponte e Horta Gavazzo
 Frederico Seguro Ferreira 
 Alfredo Augusto das Neves Holtreman (Visconde de Alvalade) 
 Fernando Soares Cardoso Barbosa
 José Stromp
 Henrique d’ Almeida Leite Júnior 
 John Henrique Scarlett
 Eduardo Francisco Quintela de Mendonça
 Afonso Botelho
 António Stromp
 Augusto Barjona de Freitas
 Augusto Carlos Cruz Seguro
 Francisco da Ponte e Horta Gavazzo
 Francisco Stromp
 Sérgio Rolin Geraldes Barba
 José Seguro Borges de Castro
 José Cordeiro Ferreira Roquette
 João Serrão de Moura

Só na Assembleia Geral de 1 Julho de 1906 ficou firmada a designação de Sporting Club de Portugal, embora José Alvalade preferisse Grande Sporting Club de Portugal.

Temos pois presente de que estas duas datas são históricas no Clube pois que se a fundação é de facto, em 8 Maio de 1906 a existência do Sporting Club de Portugal é de 1 Julho de 1906.

E assim se viveu até 1920, ano em que, numa Assembleia Geral para reforço dos Estatutos, António Nunes Soares Júnior propôs, e por maioria foi aprovado, que se considerasse como data da fundação 1 Julho de 1906, na rigorosa defesa da verdade, que não se encontra em grande parte de outros clubes desportivos, cujos dirigentes foram recuar a data da fundação dos seus clubes a pretexto das mais paradoxais descobertas das origens.

A história tem vindo a dar razão a José Alvalade, e os dirigentes que se seguiram tudo têm feito para preservar não só esse seu desejo, mas sobretudo consegui-lo através dos princípios e valores constantes nos primeiros Estatutos do clube, em 1907.

O Sporting Clube de Portugal de hoje, mais de um século depois da sua fundação, honra as suas origens, sendo uma fortíssima potência desportiva nacional, a quem o país muito deve, não só na razão dos títulos internacionais conquistados, mas pelo seu ecletismo e excelência dos seus praticantes, sendo um clube conhecido e respeitado na Europa e no Mundo."

(in site do clube)

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