De Pote a Bragança, o fim de uma era dourada
Há quase uma unanimidade em reconhecer que à saída de Pedro Gonçalves corresponde o fim de uma era no Sporting. Para a grande maioria dos Sportinguistas vivos foi seguramente o melhor período de sempre: nos seis anos de verde e branco o Sporting não só voltou aos títulos, mas também foi a equipa que mais venceu e convenceu.
Antes de qualquer consideração há que registar de forma dolorosa que os últimos momentos de uma era dourada fecharam com a imagem do jogador em Alvalade a acenar timidamente e de longe para as bancadas, colado à ideia transmitida pelo treinador que o mágico de Vidago não passava agora de um jogador acomodado. Algo falhou na gestão desde processo de transição. Seguramente que a ocasião merecia uma outra dignidade e peso porque Pote não será mais um mas um entre muitos.
Pote foi o último a sair dos grandes jogadores que tivemos o orgulho e sorte de nos ver representar. Estamos perante uma mudança radical naquela que era até agora a política desportiva seguida pela SAD e que tantos dividendos trouxe ao Sporting recentemente. Às mudanças cirúrgicas, procurando continuidade, há agora o corte abrupto.
São muitos os rumores sobre o que terá estado na base de uma inflexão tão drástica. Mas mais importantes que o "diz que disse" é a constatação de que a SAD detém a legitimidade para executar as políticas desportivas que lhe parecem melhor adequadas em cada momento e que serão sempre os resultados que validarão as decisões tomadas.
Ainda assim, é importante notar que não parecia ser esta a estratégia delineada quando, no passado mês de outubro e, mais recentemente, em março, decidiu renovar respectivamente com Pote e Trincão. E abandonar o Sporting para ir "em busca de novos desafios" também não parecia ser a inclinação de nenhum dos dois talentosos atletas. Talvez o tempo se encarregue de fazer aquilo que nem o clube nem os atletas quiseram até agora fazer: esclarecer os adeptos.
Convém salientar que se ainda é cedo para avaliar os custos desportivos desta guinada repentina, há certamente consequências económicas e financeiras que não parecem saltar à vista, mas existem. Senão vejamos: Pote renovou com o Sporting há menos de um ano, o mesmo tendo acontecido com Trincão. A pergunta é óbvia: quanto pagou o Sporting de prémio de assinatura e eventuais assessorias nestes processos de renovação? O que terá acontecido para, de repente, prescindir destes dois jogadores, ignorando o investimento feito, quando, ainda por cima, como se percebeu pelas movimentações, não suscitavam grande apetite ao mercado? E podíamos dizer o mesmo de Diomande, cuja renovação ocorreu em janeiro.
Neste talvez derradeiro registo de Pote cabe também o adeus a Bragança. Não teve a preponderância de Pote mas um ADN de leão certificado pelos vinte dos seus vinte e sete anos de vida vividos de verde e branco e de leão ao peito. O momento de chegada à equipa principal e o calvário vivido por duas lesões gravíssimas terão sido um muro demasiado alto que se erigiu entre ele e a afirmação plena do seu inegável talento.
Honrar a memória dos que nos deram tanto é um dever que teremos de cumprir com a mesma paixão com que projetamos o futuro. Que os que tomaram o lugar dos que agora guardamos no álbum emoldurado a ouro estejam à altura do seu legado e nele escrevam novas histórias. Mas julgo ser claro para muitos, nos quais me incluo, que os níveis de tolerância para com um plantel tão jovem e marcado pela inexperiência terão de ser bem maiores do que aqueles devotamos aos que acompanhámos nos anos mais recentes.
