Ronaldo e a Selecção
Ao contrário do que parecia ser a expectativa dominante, o percurso da selecção portuguesa no Mundial de 2026 está longe de constituir uma surpresa. A equipa já havia dado sinais preocupantes ao longo da qualificação, com exibições tão pobres como algumas das registadas como na goleada aos pobres azerbaijanses. Pobres em futebol, entenda-se, porque em riqueza material os azerbaijaneses estão longe da condição destes pobres lusitanos que habitam este rectângulo à beira do Atlântico.
Grande parte do debate centra-se hoje em Cristiano Ronaldo e na sua utilidade para a selecção. Mas quando, numa modalidade colectiva, toda a discussão gira em torno de um único jogador, talvez se esteja a procurar a resposta no sítio errado.
É difícil negar que Ronaldo se tornou um problema para a selecção. Porém, é-o mais como consequência do contexto do que como a sua causa principal. Ou, em certa medida, vítima de si próprio. A determinação e a ambição que o retiraram do anonimato e o conduziram ao topo do futebol mundial parecem hoje dificultar-lhe a lucidez, diminuido-lhe a capacidade de reconhecer os limites naturais impostos pelo tempo. A perseguição ao marco simbólico dos mil golos corre o risco de desgastar a imagem daquele que foi um dos mais extraordinários goleadores da história do futebol.
Mas, tal como acontece com Ronaldo, também o talento da selecção parece aprisionado debaixo da careca de Roberto Martínez. Cristiano já não é o jogador que foi, mas uma gestão criteriosa da sua utilização poderia preservar o seu contributo desportivo e, simultaneamente, proteger o seu legado.
O verdadeiro problema reside na liderança técnica. Mais do que construir uma equipa, Martínez parece concentrado na sua tarefa de ser o melhor relações públicas de si mesmo. Tão concentrado que se acaba por expor ao ridículo com as suas análises irrealistas. Portugal continua a apresentar um conjunto de individualidades de enorme qualidade, mas raramente se apresenta como uma verdadeira equipa. O talento individual dissolve-se num conjunto de escolhas difíceis de compreender, desde as convocatórias aos onze iniciais, passando pelas funções atribuídas aos jogadores e pelo seu posicionamento em campo e acabando nas substituições.
Oxalá os sinais deixados por uma qualificação marcada pela irregularidade se revelem enganadores. No entanto, tudo indica que Martínez poderá repetir em Portugal aquilo que muitos lhe apontam na Bélgica: o desperdício de uma das gerações mais talentosas da história de uma selecção nacional.
Quanto a Cristiano Ronaldo, o contexto atual coloca-o simbolicamente em três "clubes".
O primeiro é o dos detratores, que nunca conseguiram dissociar a análise ao jogador de preconceitos antigos. Ronaldo tem o pecado original de ser um produto da academia com o seu nome. Para esse grupo existe sempre um "mas" quando o assunto é Ronaldo.
No extremo oposto estão os admiradores incondicionais, incapazes de distinguir entre o legado extraordinário construído ao longo de duas décadas e o rendimento que o jogador ainda pode oferecer hoje. Muitos também contaminados pelo facto de ser um jogador um jogador nascido em Alvalade, o que chega a impedir de desfrutar do facto de serem contemporâneos e por isso testemunhas do valor inestimável que é ver Messi jogar.
Entre ambos encontra-se, provavelmente, a maioria: aqueles que reconhecem que o tempo aproxima inevitavelmente Ronaldo da condição dos restantes atletas, sem que isso diminua em nada a dimensão histórica do seu percurso. Continua a ser o maior jogador da história do futebol português e um dos maiores atletas de todos os tempos.
Ronaldo só é um problema para a selecção porque existe quem decida mantê-lo em campo durante praticamente todos os minutos. Essa decisão pertence ao seleccionador. Se o jogador não reconhece que essa exposição permanente prejudica o seu rendimento e a sua imagem, acaba por contribuir para o seu próprio desgaste e da imagem que tanto lhe custou a criar. Mas quem tem a obrigação de proteger simultaneamente a equipa e o atleta é quem dirige a selecção.

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