O melhor negócio de Sousa Cintra, entre vendas, regressos e aquisições, tem sido o restabelecimento da normalidade, mesmo num ambiente e conjuntura desfavorável. O presidente da SAD em exercício voltou exibindo os mesmos jeitos e defeitos que já lhe conhecíamos, mas a soma de todos os factores tem sido positiva e a necessária neste momento. Claro que há quem não goste e goze com o estilo ou falta dele, mas não será preciso uma dose muito grande de memofante para nos lembrarmos de momentos tão ou mais embaraçosos ainda muito recentes.
Se é verdade que na comunicação e em tudo na vida "dois maus não fazem um bom", saúdo que Sousa Cintra não perca o seu tempo e nos faça perder o nosso a insultar sócios e adeptos pelo simples facto de que não gostam ou não concordam com ele. Um legado que infelizmente fez escola e hoje é uma constante nas discussões entre Sportinguistas.
Aquisições
Até agora conhece-se apenas o nome de Nani, contratado sem custos na aquisição do passe. Um regresso assinalável, uma vez que Nani será importante num balneário que perdeu muitas das referências recentes. Mantenho a minha impressão quando se soube a intenção da direcção deposta em contratá-lo: preferia a aposta num jogador mais jovem e em busca de afirmação. Se Nani estiver bem do ponto de vista físico e quiser voltar à selecção, pode ter essa tal vontade de afirmação e a sua qualidade continua elevada para as necessidades do nosso campeonato.
Neste capítulo os dossiers nas rubricas "regressos" e "vendas" continuam a ser um importante óbice ao ataque ao mercado para posições há muito identificadas como carências. Aí, as posições "6", "8" e "9" são as que requerem maior urgência. O regresso de Bas Dost, por exemplo, é insuficiente e o que há disponível neste momento para o lugar no plantel é incapaz de assegurar o que é necessário para a ambição de campeão.
Regressos
Claramente o melhor trabalho de Sousa Cintra num dossier que requeria especial sensibilidade e habilidade negocial. Ter conseguido "reaver" os dois jogadores mais importantes dos que haviam rescindindo - William e Rui Patrício eram obviamente alvos impossíveis - significa de uma penada só importantes "reforços" quer do ponto de vista da qualidade do plantel, das nossas ambições e da estabilidade financeira da SAD. Bas Dost e Bruno Fernandes são dos melhores jogadores do nosso campeonato, fazendo parte do lote restrito daqueles que despertam a cobiça lá fora. O segundo em particular, cuja idade permite augurar um futuro brilhante. Mas este regresso diz que são seguramente dois Homens, como aqueles que são precisos para fazer grandes equipas.
Battaglia parece fazer jus ao nome e tornou-se num problema complexo. Há já vários dias que é dado como resolvido e o seu contrário, ao que parece os interesses do empresário e o do jogador não coincidem. Não acredito nos valores falados ontem (10 milhões), porque se fossem reais era uma possibilidade de negócio razoável que significaria o financiamento fechar o seu lugar e encerramento de mais um dossier complicado.
Rafael Leão, pelo valor e potencial, seria outro regresso que saudaria. Não que a atitude tomada não importasse de todo, bem antes pelo contrário no caso especifico dele, mas também já tive dezanove anos. Só nunca tive ninguém a bichanar nos ouvidos como o mundo é bonito com milhões no bolso, pelo que a reconsideração de uma atitude reprovável e impensada seria o primeiro passo para voltar a por as coisas como elas não deveriam ter deixado de ser.
Vendas
A mais recente, a de Piccini, não poderia deixar de ser envolta em polémica. Para isso concorrem diversos factores, que vão desde razões secundárias, que nada têm a ver com o negócio em si mesmo, mas antes sim contaminadas pelo momento em que o clube vive. Acontece que o sucesso deste negócio ficou condenado à partida pelo facto de termos anunciado a aquisição de Bruno Gaspar, perfazendo três laterais para preencher dois lugares. A noção de excedente e necessidade de vender é um factor que o mercado não perdoa na hora de fazer o preço.
Não foi por isso uma venda espectacular, mas mais do dobro do valor que nos custou há um ano está longe de ser um saldo. Comparações com outros casos em que não existem condições coincidentes é comparar alhos com bogalhos. Acresce ainda o facto de termos ido resgatar Nani precisamente à mesma origem, o que certamente também concorreu para o encontro de verbas final.
A mesma sensação relativamente ao negócio de William e quiçá a explicação do impasse de Gélson. Só mesmo Sousa Cintra para conseguir vender o que não é dele que é o que afinal se passa com estes e outros jogadores que rescindiram. É que os jogadores já não são do Sporting, talvez os mais distraídos ainda não o tenham percebido. Aqueles que acreditaram em promessas de amanhãs radiosos cheios de indemnizações chorudas talvez tenham percebido melhor que afinal isso não é assim tão linear, como a recente decisão da CAP dos processos de Patrício e, pasme-se!, de Podence revela.
O acordo com o Bétis, longe de ser entusiasmante, é a ilustração do trabalho de contenção de danos que a recuperação dos passes significa. E o interesse do Atlético de Madrid em Gélson uma única excepção a nomes de clubes importantes a interessarem-se por aqueles que eram dos nossos melhores também é significativo. A consulta à FIFA pelos colchoneros revela o cuidado de quem sabe o peso de uma condenação, mas também a pressão de quem quer comprar bom e barato.
Neste âmbito, dos jogadores da casa que saíram, assinalo o cuidado de William em ver o Sporting ressarcido e o descuido de Patrício. Como o próprio reconheceu, se ele tinha fundadas razões de queixa, essas nunca deveriam reverter contra o clube que o formou. Um capitão nunca se deveria esquecer disso.