Há um forte cheiro a impunidade no ar
O desporto português voltou, este fim de semana, a ser manchado por um episódio que, mais do que lamentável, é revelador de um problema estrutural profundo. Os acontecimentos que antecederam o jogo de andebol entre FC Porto e Sporting não são um caso isolado — são, infelizmente, mais um capítulo de uma cultura de permissividade que se arrasta há décadas.
O simples facto de o jogo se ter realizado, apesar das circunstâncias amplamente relatadas, levanta questões sérias sobre a capacidade — ou vontade — das entidades responsáveis em garantir condições mínimas de integridade e segurança. Uma federação que não assegura a proteção física dos seus atletas falha na sua missão essencial e perde legitimidade para exercer funções reguladoras.
Mais inquietante ainda é a ausência de mecanismos eficazes de controlo e responsabilização no acesso e no exercício de cargos dirigentes. A falta de escrutínio não só permite a repetição de comportamentos inaceitáveis, como contribui para a normalização de práticas que deveriam ser prontamente sancionadas.
Importa sublinhar que este tipo de incidente não constitui novidade. Há precedentes históricos claros que demonstram um padrão de atuação, reiterado ao longo do tempo, sem consequências verdadeiramente dissuasoras. A impunidade acumulada alimenta a perceção — e talvez a convicção — de que as regras não se aplicam de forma igual a todos.
O caso “Apito Dourado” permanece como símbolo maior dessa falha sistémica. A ausência de consequências exemplares após um dos maiores escândalos do desporto nacional contribuiu para enraizar uma cultura onde os fins parecem justificar quaisquer meios. O resultado é um ambiente onde a ética desportiva é frequentemente secundarizada.
Também o Estado não pode ser absolvido de responsabilidades. Enquanto regulador último, tem optado demasiadas vezes pela inação, evitando confrontos que possam gerar desconforto político ou mediático. Esta postura de distanciamento acaba por legitimar, ainda que indiretamente, práticas que deveriam ser combatidas com firmeza.
No plano institucional, o silêncio é igualmente ensurdecedor. A ausência de uma posição clara e célere por parte da Federação de Andebol perante a gravidade dos factos é, por si só, um sinal preocupante. Num contexto que exige transparência e liderança, a omissão torna-se cúmplice.
Acresce a isto a discrepância entre os relatos posteriores de jornalistas, que confirmaram condições impróprias no balneário, e a validação prévia dos delegados ao jogo. Esta contradição levanta dúvidas legítimas sobre os critérios e a seriedade dos processos de verificação, bem como sobre a ponderação dos riscos para atletas e equipas técnicas.
Por fim, não se pode ignorar o papel dos adeptos. A complacência, quando não o apoio explícito a este tipo de comportamentos, contribui para perpetuar um ciclo de degradação reputacional. As instituições desportivas são reflexo das comunidades que as sustentam — e a exigência ética deve começar precisamente aí. Ora "exigência ética" parece que não existe há muito para aqueles lados. A tutela e os reguladores têm agora que vir dizer por actos ou demissão, se partilham desses "valores".

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