Algumas notas sobre o psicodrama Ronaldo / Jesus
O último psicodrama nacional, “Ronaldo / Jesus”, é incontornável. Deixo aqui algumas considerações a propósito do mais recente episódio desta novela, o comunicado de oito pontos de Ronaldo. E o melhor é começar mesmo pelo princípio, com a pergunta que ainda carece de resposta e, sobretudo, de compreensão:
Como é possível que uma “organização” como a FPF, com tantos dirigentes no seu interminável séquito, muitos dos quais estavam presentes na Noruega, tenha deixado o diferendo escalar até se tornar público, sem o mínimo controlo de danos, expondo Ronaldo no meio do campo, ao telefone e a ser filmado?
Como se tal não bastasse, foi depois permitida a intervenção de terceiros junto do selecionador (Tiago Craveiro e Simão Coutinho) externos à organização, que invadiram um espaço que devia ser fechado e de acesso restrito apenas aos diretamente envolvidos nos jogos e demais atividades de uma seleção.
Quanto mais se conhecem os pormenores, mais evidente fica a ausência de alguém com capacidade e noção para exercer funções de dirigente e com peso para mediar um conflito que, ao tornar-se público, e atendendo à personalidade dos envolvidos e ao estatuto de Ronaldo, só podia ganhar uma dimensão que agora se percebe ser quase impossível de gerir.
Para analisar este caso, parece-me necessário estabelecer algumas balizas. Uma coisa é a dimensão de Ronaldo como ícone mundial, alcançada com muita superação, dedicação e trabalho e com inúmeros feitos e recordes; outra é a dimensão atual de um jogador de 41 anos e, por isso, já muito longe do seu zénite.
Isto é, ninguém poderá reescrever a história de Ronaldo, e muito menos desvalorizar o que alcançou. Do ponto de vista do reconhecimento público, Ronaldo é há muito maior do que a minúscula ilha onde nasceu ou do que o pequeno retângulo que lhe confere a nacionalidade.
Feita esta consideração, é obrigatório olhar para a forma como Ronaldo escolheu gerir a sua carreira. Ao prolongá-la, afasta-se inevitavelmente do ponto em que se tornou um dos melhores jogadores de sempre e deixa o pedestal onde viveu nas últimas duas décadas para descer a um nível cada vez mais próximo dos demais.
Dificilmente alguém discordará de que muito deste imbróglio nasce aqui: gerir um jogador em inevitável perda das qualidades que o notabilizaram é sempre difícil, mais ainda quando esse jogador é um ícone mundial, quase um semideus para muitos.
Não vou fazer um julgamento moral nem discutir o caráter de Ronaldo; deixo isso para os inúmeros comentadores que enxameiam os órgãos de comunicação social. Mas não hesito em afirmar que, pela leitura do comunicado de oito pontos, Ronaldo está, pelo menos, muito mal aconselhado.
Ao revelar que quis impor um comunicado ao selecionador, Ronaldo confirma essa falta de bom aconselhamento: até um vulgar adepto como eu, que não conheço Jesus pessoalmente, perceberia que o treinador nunca se prestaria a esse papel. Mais: houvesse algum treinador disposto a fazê-lo, perderia qualquer vestígio da autoridade necessária para exercer o cargo.
Comparar-se a Pelé ou a Maradona, ignorando Messi e, porque não dizê-lo, também o seu homónimo brasileiro, não o deixa bem na fotografia, e para o justificar nem é preciso elaborar muito: é uma questão de bom senso.
Ignorar Messi torna o erro ainda mais rotundo. São poucos os que ainda se lembram de Pelé. Não se discute o valor incontestável de Maradona, mas foi a luta pela hegemonia e pelo título de melhor do mundo com Messi que conferiu a Ronaldo o estatuto que alcançou, e é essa a memória que a maioria certamente guarda. Ter superado muitas vezes o jogador argentino foi, em grande parte, o fermento que fez germinar o “monstro” em que se haveria de transformar. Ignorar Messi torna Ronaldo mais pequeno; recordá-lo confirma-lhe a grandeza.
São estes dois pontos que empalidecem a sinceridade e pretensa humildade dos pedidos de desculpa expressos, o que ainda é agravado por o comunicado ignorar o selecionador nacional e o presidente da FPF.
Não menos importante é a afirmação de que nunca se intrometeu em decisões técnicas na seleção. A decisão de não o fazer jogar no encontro em causa, que desencadeou este caso, foi uma decisão técnica que Ronaldo não aceitou, e isso ficou bem patente na forma como abandonou o campo no final do jogo. Tudo o resto foi gestão da comunicação, e foi isso que nos trouxe até aqui.
Vale a pena voltar a essa decisão técnica: o que estaria a acontecer agora a Ronaldo se tivesse entrado no jogo em causa e o resultado tivesse sido negativo? O que estariam a dizer dele e, sobretudo, de Jesus, que não o teria protegido?
Não sabemos como tudo isto vai terminar. Já se percebeu que Ronaldo pretende continuar a jogar na selecção, só não se percebe é como vai ser possível coabitar com Jesus, depois de o ter encostado à parede. A menos que Ronaldo acredite que pode fazer apear o treinador ...
Uma última nota: Como Sportinguista e tendo em conta a importância que Ronaldo tem para a imagem do Sporting como um dos expoentes mundiais na formação de jogadores preferia que este episódio nunca tivesse sucedido.



