Sporting 2 - Lask: Acentuado arrefecimento noturno
Quando Rui Borges afirmou na conferência de imprensa que faltou energia à equipa, ele mesmo tinha um ar cansado de quem se desgastou a tentar perceber, sem conseguir, o que tinha acontecido. Talvez por isso não tenha conseguido produzir qualquer alteração ao rumo dos acontecimentos. O seu ar atónito espelhava a mesma impotência que os jogadores exibiram nas tentativas frustradas de escalar a alta muralha austríaca.
Voltemos ao treinador. Esta derrota tem claramente a sua cara. O Lask veio com lição estudada porque teve o privelégio de Rui Borges, usando uma expressão caraterística do poker, lhe ter mostrado antecipadamente a mão com que ia a jogo. Isto é, tomou nota nas mudanças operadas em Braga e em Lens e soube-se precaver. Ao contrário, o treinador do Sporting ao sentir a equipa manietada, e de a sentir incapaz de se comportar como mandam os livros nas recuperações defensivas, ia e vinha entre o banco e a linha de jogo sem conseguir alterar qualquer comportamento. Quem julgou que o intervalo serviria para mais do que repor as energias e beber um chá equivocou-se. Foi o mesmo Sporting dos tenebrosos primeiros quarenta e cinco minutos.
Mas o mais intrigante, e o que deve preocupar muito sportinguista, é saber onde pára hoje aquele Sporting mandão, tido por muitos como modelo de organização ofensiva, elogiado pela capacidade de desmontar blocos baixos, de jogar em espaços curtos, entre linhas, e de criar tantas oportunidades de golo. Sabemos que os processos defensivos na era Borges nunca foram muito apurados (e que este ano, com a dupla Quaresma/Inácio, estão longe de luzir), mas o ataque ia garantindo uns golitos compensadores.
Dirão alguns: o treinador é o mesmo que ganhou ao Braga e ao Lens. Pois é, e a questão deve mesmo ser analisada por aí. O que mudou? O adversário e a forma como se preparou, escolhendo a postura que, cada vez mais claramente, mais fere o Sporting desta época: marcação implacável em 1x1 e todas as saídas por fora fechadas, anulando sobretudo qualquer transição ofensiva rápida. Com a ineficácia que o jogo interior apresenta agora, o destino do jogo dependia da capacidade de defender bem e esperar um lance feliz, como o que já tinha dado o golo, num penálti muito duvidoso. Se a ideia era atrair o adversário e surpreendê-lo com lançamentos longos, o LASK nunca foi na cantiga e mereceu o que procurou.
É cada vez mais claro que as caraterísticas dos jogadores são hoje outras. Os jogadores foram escolhidos a dedo com um perfil bem distinto dos que saíram. Já vem sendo por isso altura de Borges mostrar na prática o que foi procurar com as decisões que tomou. O caso mais difícil e paradigmático. é sem dúvida Doumbia. Não foi pelas prestações que temos visto que o Sporting o foi buscar a Veneza. E se é verdade que foi por aqui que chegou à seleção italiana, não é menos verdade que ainda não produziu por cá o que fez no tão elogiado jogo de estreia. Tal como com Zalazar, falta ao treinador tirar o melhor das respectivas caracteristicas.
Mas infelizmente a maior mudança está nas qualidades individuais da generalidade dos jogadores adquiridos, muito em particular no talento. Os jogadores que entraram estão longe de igualar o talento dos que saíram. E como não há milagres o acentuado arrefecimento noturno que ontem se abateu sobre Alvalade deve ter vindo para ficar. Pode parecer uma afirmação muito crua mas, como diria o nosso actual treinador, "é o que é".

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