Na sequência do meu post
"A melhor aquisição deste inverno", em que sugeria a interposição de uma providência cautelar que impedisse uma administração demissionária de continuar a estender a sua acção ruinosa, consultei vários amigos melhor preparados que eu para a devida abordagem jurídica ao assunto. O que hoje aqui partilho convosco é uma dessas respostas, cuja leitura me parece pertinente, uma vez que, além da questão jurídica propriamente dita, são abordadas matérias de grande actualidade e importância na vida do clube.
Carta do meu Amigo J:
Meu caro,
Agora que se vê a importância que teria existir um qualquer mecanismo de governance como o que sugere no seu post, escrevo-lhe para lhe dizer que, do meu ponto de vista, não há, ou pelo menos não há nada que permita um controlo efectivo a esse nível.
A verdade é que o SCP não é como o governo, e mesmo demissionária, a Administração tem sempre poderes de – no mínimo – gestão ordinária do Clube, que no limite poderá compreender, julgo, adquirir e alienar passes de jogadores e renovar os direitos desportivos da SAD sobre eles. A somar a isto, é importante vermos que uma norma que impeça uma Administração demissionária de agir no mercado pode levar também ela a que isso consubstancie maus actos de gestão, senão vejamos:
O perfeito seria no período em que a Administração esteja demissionária, estar-lhe vedado comprar, vender ou renovar. Mas será que uma Administração, mesmo demissionária, não deve renovar com um Carriço? Será que uma Administração demissionária deve deixar passar uma oportunidade de receber uns milhões pelo Maniche ou por outro elefante branco do plantel? Será que deve perder a oportunidade de trazer o Messi a custo zero? Bem sei que são hipóteses académicas, mas numa norma que impeça tout court a Administração de agir no mercado, o risco é este. E nem podemos mitigar isto com um critério qualquer de razoabilidade ou de bom senso, porque as decisões que se tomam quanto ao plantel são, em larga medida, subjectivas. Com efeito, há quem aplauda a saída do Liedson e a entrada do Cristiano e a renovação do Postiga. E com esta subjectividade, o conteúdo da norma ficaria vazio, porque todas as medidas estariam bem e mal para uns e outros. O mesmo se diga por exemplo com um critério puro de valor do tipo: “só se pode comprar até X e vender acima de Y”. Também há bons negócios fora destes valores, e talvez sejam negócios que uma Administração, mesmo demissionária, deve fazer.
Dito isto, o que eu acho é que a subjectividade devia ter um filtro qualquer, e uma Administração demissionária poder agir, mas não ESTA Administração demissionária.
O SCP vender o Liedson sem acautelar uma solução (nem que seja quantitativa) para o ataque é um acto de brutal má gestão. É só destruir um activo e vender pela porta do cavalo um dos poucos símbolos do Clube. Como sabe, terrorista me confesso, mas sempre achei que, em tudo o que não tangia com o património imobiliário e financeiro do SCP, não haveria má-fé, só incompetência. Mas isto começa a ser demais. O SCP deixou simplesmente de ter 4 avançados para passar a ter 3, e nesta redução do tamanho do plantel, vendeu o melhor dos 4 avançados que tinha. Que em 4 avançados, o único que valha dinheiro seja o que tem 33 anos é já de si sintomático da qualidade que se tem imprimido na formação do plantel nos últimos anos.
Mas é sintomático de algo mais. O SCP tem verdadeiramente a corda na garganta, e não é a propalada emissão de VMOCs que cá está para lhe aliviar o sufoco. Essa vai aliviar o serviço de dívida, ou seja, vai aliviar o nó na garganta dos gestores que aprovaram emprestar dinheiro ao SCP. Ninguém me tira da cabeça (e confesso já ter ouvido coisas nesse sentido) de que o SCP tem que reduzir pressão na folha salarial JÁ, vá quem for, sob pena de começar a haver gente com salários em atraso. Isto é grave e levanta muitas perguntas como por exemplo, o que se poderia fazer com 6.5 Milhões de Euros que se pagaram (e se continuarão a pagar por muitos e bons anos) por Sinama-Pongolle.
São estas e muitas outras perguntas que devem encontrar resposta no futuro, sob a forma de auditoria. Que “o SCP não tem as mesmas condições que os outros” é uma lenga-lenga que já ouvimos há 15 anos. A diferença é que quando Roquette avançou com ela, o SCP tinha MAIS condições que os outros, e agora tem bem menos.
É um bocado paranóico, dir-me-á, mas um ano e meio depois de JEB ter chegado em glória e me terem chamado tudo, incluindo Velho do Restelo pelos meus vatícinios de que o SCP iria entrar numa espiral de dificuldades financeiras e desportivas sem precedentes, que a Academia e o Estádio tinham os dias contados enquanto activos do Clube, e acima de tudo de que quando os VMOCs estivessem completados, JEB já poderia sair com a sensação do dever cumprido, acho que já provei as minhas capacidades mediúnicas que chegue para me levarem a sério. J
Agora, uma nota: talvez o status quo tenha medido mal o que passou para o público. Se Braz da Silva avançar com a promessa de 50 milhões para gastar em jogadores, ou eles aparecem e rendem, ou então o senhor da Finirtec vai ver a vida correr-lhe muito mal, muito depressa. Até ver, as promessas dele podem ser verdade. É que o Carlos Freitas já se demitiu do poleiro dele na Grécia e começou a dar entrevistas sobre o quanto que deu a ganhar ao SCP com o Liedson. Deve-lhe ter cheirado a dinheiro fresco e já deve ter uns Tellos em carteira para vender...