Por muito eu queira é incontornável não voltar a abordar o
jogo de ontem, mesmo que ele sirva para introduzir o post de hoje. É incontestável
que a arbitragem de Paixão influiu no resultado mas isso nem foi o que mais me
preocupou no sucedido ontem. Mais preocupante são as circunstâncias em que ocorre
mais esta intervenção. É o acentuar de uma tendência que se repete desde o
inicio de época e quando parece que o Sporting tem razões para regressar a um
nível de jogo mais consentâneo com o seu estatuto.
O mais estranho é que já não
contamos para o campeonato – embora seremos com certeza um factor de decisão… -
e facto de acontecer contra um o clube pequeno. Os lances das grandes
penalidades são reveladores de uma realidade perturbadora: ante um pequeno o
árbitro revela total desrespeito pelo grande, facto que dificilmente ocorreria
em qualquer campo, e muito menos envolvendo os nossos rivais e atrevo-me mesmo
a dizer com o SCBraga. Há uma guerra evidente lançada pela cúpula da classe
arbitral, encabeçada pelos árbitros internacionais e seguida pela generalidade
dos restantes membros da APAF e respectivos dirigentes.
O facto do Sporting ter
jogado mal a primeira trintena de minutos não é razão que justifique qualquer atenuante
para o comportamento de Paixão, que não passou apenas pela dualidade de
critérios técnicos mas se estendeu também aos disciplinares. Até porque, como
bem disse Carlos Freitas, a actuação do árbitro foi clara no sentido de deixar
o jogo resolvido.
Entretanto, quase simultaneamente, em Lisboa, no conforto
de uma sala de um hotel, o nosso consócio José Eduardo falava num clube falido
e à beira da extinção. Não se pense, com o que seguir avanço, que o
Sporting não precisa da reflexão séria e participação activa dos seus sócios.
Muito antes pelo contrário. Mas, do que é hoje relatado na comunicação social, o
que José Eduardo, veio cantar foi uma canção já conhecida – e certamente
baseada em factos sobejamente conhecidos de todos - mesmo com uma orquestração
ligeiramente diferente. E foi infeliz.
E não foi só infeliz no timming, pelas razões acima
aduzidas. Não apenas porque naquele dia jogava o Sporting e o lugar dos que se
querem constituir como elites pensantes do clube, e pelo seu maior desafogo
financeiro, é em primeiro lugar estar ao lado da equipa, onde quer que ela
jogue, como o fazem muitos com muito mais sacrifício. Não apenas porque não
podia adivinhar o que Paixão faria horas depois. Mas, porque o essencial da sua
comunicação foi o repisar dos muitos diagnósticos há muito realizados, sem
apontar soluções, seguido de algumas vacuidades Com coragem devia dizer quais
dos 19 jogadores não teria contratado. Desses 19 quais seriam os oito que
ficariam. Se possuía alguma informação interna sobre os relatórios médicos,
hoje, passados 9 meses não é um pouco tarde para contestar as decisões?
O Sporting está há muito tempo diagnosticado, faltam as
soluções e, uma vez que nem todos estamos à altura de as fornecer, falta da
parte de muitos outro comprometimento com o clube. Não só na presença nos estádios
mas também na gestão da comunicação e do silêncio. Na participação activa em
prol do clube e acima até das preferências pessoais.
Nesse sentido, dentro da multitude
de organizações e sensibilidades internas, vejo na AAS um bom exemplo de
comprometimento com o clube. Muito low-profile nas suas interacções com o
clube, que são muito mais vastas do que as que chegam ao conhecimento público,
e prontidão nem sempre aproveitada e compreendida pelas sucessivas direcções
que têm passado por Alvalade. A par disso os seus elementos estão em todas, das
modalidades ao futebol, é difícil não encontrar alguém da associação nos
pavilhões e estádios onde quer que o Sporting jogue. E esse comprometimento com
o clube não os impede de tomar posições por vezes até bastante incómodas para
quem dirige, muitas vezes é esse ele mesmo o motivo do afrontamento. É um mero
exemplo, não faltarão outros por certo.
Do que não duvido é que o Sporting que todos gostamos
precisa de um outro envolvimento por parte de todos. O Sporting precisa de dar
uma resposta institucional aos Paixões, APAF´s e outros da sua igualha que
pululam no futebol português. E uma resposta institucional não é a que é dada por
uma direcção mais ou menos contestada internamente e por isso sempre
fragilizada no exterior.
A instituição Sporting são todos os seus sócios,
adeptos e simpatizantes que abarca o cidadão vulgar mas também muitos elementos
destacados da sociedade portuguesa, que vão de ex-presidentes da República, actual
presidente da CE, muito dos empresários que destacadamente contribuem para o
PIB português, elementos destacados do mundo universitário, do direito, da
justiça, da cultura e espectáculo. Há mais de 30 anos que ou ignoramos ou encolhemos
os ombros à guerra lançada ao Sporting, e nos entretemos a disputar entre nós
as culpas e responsabilidades. Neste caminho não nos sobra muito tempo para uma indignação da qual o clube retire proveito.
Por melhor que tenha sido a intenção José Eduardo ela foi
também um reforço dos Paixões do nosso futebol. Hoje não faltará quem junte o
sucedido ontem, a jornada de Manchester e todos os Josés Eduardos para não nos
levar a sério e subestimando a importância do Sporting como um clube grande que
é. Não só pela sua história, que mesmo gloriosa não deixa de ser passado, mas
pelo seu presente como clube de implantação nacional.
PS: Discordo do comunicado da direcção do Sporting sobre o
evento organizado por José Eduardo. Em si mesmo parece-me um erro de
comunicação por ser feito à priori, dando-lhe o foco que certamente não queria.
Se a intenção era desvalorizar o melhor era o silêncio e eventual reacção à
posteriori. Por outro lado remeter para AG’s as participações dos sócios é o mais
ou menos o mesmo que mandar calar porque nos moldes em que aquelas se realizam ninguém
consegue falar mais do que 5 minutos e muitos nem ao palanque conseguem chegar.
PPS: O acima dito não invalida que, sendo José Eduardo membro do CL, tinha aí palco privilegiado
para fazer as suas intervenções. Assim não pareceu mais do que meter as mãos na
tesoura e retalhar mais um pouco o que já de si já está muito retalhado. Quando se diz que o inimigo não está dentro isso devia ser interpretado nos dois sentidos...