Tal como era fácil de prever o derby vai continuar a ser
falado. Infelizmente não por causa dos lances de futebol mas por causa da jaula
e da forma como os adeptos do Sporting foram recebidos e tratados. E por muito que
o incêndio na bancada seja útil para desviar as atenções do que se passou na
Luz convém não esquecer o essencial: é difícil perceber que tal não tenha sido
uma provocação e ficou evidente para toda a gente que não só não havia
condições para os espectadores verem um espectáculo, como até as condições de
segurança eram desadequadas.
O tempo que mediou entre a intervenção dos
bombeiros foi o suficiente para ter havido uma tragédia. Tragédia essa que já
tinha estado iminente por diversas vezes aquando da entrada dos adeptos, quando
os iluminados que montaram o esquema de segurança resolveram fazer desaguar
alguns milhares de adeptos num estreito funil, e onde estavam meia-dúzia de
pessoas para os revistar. As imagens dos canais de cabo de informação (TVI24h,
SICn, RTPi) foram bem explicitas.
O que motivou Luis Filipe Vieira e a sua direcção a construir
da famigerada jaula é que é difícil de descortinar. Dizia-nos o inefável (João)
Gabriel O Não Pensador, que instalações como a jaula existem em toda a Europa. É
verdade que sim. Mas é bom lembrar que, na passada quarta-feira, o SLB jogou em
Old Trafford, onde os adeptos foram bem acolhidos antes, durante e depois do
jogo. Isto é o mesmo que dizer que Luis Filipe Vieira frequenta os melhores
museus mas quando chega a hora de comprar quadros para casa prefere uma cópia
do menino chorão que pode ser adquirida na feira de Carcavelos.
Não pensem os
adeptos benfiquistas que esta medida foi em seu favor. As repercussões desta
iniciativa equivalerão a uma escalada retaliatória, à semelhança do que
acontece em todas as guerras. Foi assim, ao nível da guerra que o SLB quis
colocar a questão ao lançar mão de uma arma que até agora nada justificaria. Os incendiários do futebol português são tão ou mais evidentes que os que, sem desculpas, incendiaram as cadeiras nas bancadas.
Da
parte do Sporting resta apenas uma alternativa para evitar males maiores: não
enviar bilhetes para jogos com o SLB e pagar a respectiva, sem prescindir no imediato de uma tomada de posição forte junto da Liga; FPF e governo.
Mas Luís Filipe Vieira e companhia não são os únicos
culpados. Como bem sabemos vivemos num país à deriva, onde as elites e as
lideranças há muito foram de férias. O País é das corporações, da
partidarite e do clubismo e quem devia dirigir prefere não hostilizar para não ver
o seu quintal posto em causa. É nesse quadro que entendo a posição da Liga, da
PSP, da FPF e, já agora do ministro da tutela que, do seu lugar no estádio, olhava
com um sorriso complacente para a jaula que lhe era apontada por um dirigente
benfiquista. Ou as palavras do ministro da Adm. Interna, dizendo que “tudo isto
era triste”.
É neste ambiente de demissão de responsabilidades que se percebe
que o futebol português está cada vez mais aprisionado pela violência das
claques, ao contrário do que se vem fazendo nos países onde melhor se trabalha,
como é o bom exemplo britânico. Ora o que lá vem sendo feito permitia-nos
queimar etapas mas parece que em Portugal nada será feito enquanto não tivermos
os nossos Heisel Parks privativos. À falta de acção superior o Sporting deve
fazer o seu próprio caminho, olhando sem contemplações para o fenómeno e sem
deixar seduzir pelas más práticas, como aconteceu com Vieira.
Preferiria falar apenas do futebol jogado, porque o jogo do
derby foi intenso e rijamente disputado. Quando se vai para um jogo sabe-se que
há 3 resultados possíveis e que apenas um está garantido se nada se fizer: a
derrota. E que, mesmo tudo fazendo esta pode ocorrer e foi isso que aconteceu
ao Sporting. Não porque o adversário tenha sido globalmente superior, mas
porque o foi num determinado momento.
E talvez não tenha sido por acaso que o
golo tenha ocorrido num canto e num lance disputado de cabeça. A superioridade
do adversário em altura e peso acabaram por ditar a sua lei, num lance que é difícil
de avaliar se resulta do mérito de quem ataca ou do demérito de quem defendia.
O que me parece inútil e até perverso é a procura dos habituais bodes
expiatórios quando, a haver falha, ela foi colectiva e não individual. Apontar
a Polga, Carriço ou Patrício o ónus do golo, como vi alguns fazer, é já um caso
patológico que não me cabe a mim explicar ou compreender.
O golo acaba por ficar sentenciado quando Onyewu é
ultrapassado no primeiro poste e sobram diversos jogadores adversários que
garantem superioridade aérea sobre os demais. Schaars não consegue opor-se a
Xavi e o resto é o que já se sabe. Há porém um aspecto que não vi referenciado
e que poderia evitar o golo, que era a colocação de alguém ao primeiro poste,
onde a bola acaba por entrar. Não sei porque o Sporting não o fez e não
consegui imagens para perceber se não o faz habitualmente.
A colocação de um
jogador aí e inclusive ao segundo poste, visa também encurtar o tamanho da baliza
para o guarda-redes, uma vez que são muitas as opções possíveis de tomar quando
a bola pode ser posta a circular nas suas imediações a partir de uma distância
aproximada de 30m ou menos a velocidades facilmente superiores a 80km/h. De
qualquer forma há que reconhecer o mérito do adversário, que ainda por cima
sabia antecipadamente, como se depreende da movimentação, como a bola ia ser
batida, coisa que os defesas só entendem quando ela sai dos pés do marcador do
canto. As fracções de segundo de vantagem podem ser determinantes, como parece
ter sido o caso.
P.S.- a propósito da jaula do derby recomendo a leitura dos dois posts da @Pinilla
aqui e
aqui e da crónica de ontem do Ferreira Fernandes, no
DN.